Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Militares de Brasil e Venezuela agem em conjunto após conflitos na fronteira

Após novos enfrentamentos no marco fronteiriço em Pacaraima, forças dos dois países traçam estratégias para evitar mais violência e repatriar brasileiros que não saíram do território venezuelano em razão do fechamento da passagem

Felipe Frazão e Luiz Raatz, Enviados Especiais / Pacaraima, Roraima

24 de fevereiro de 2019 | 14h23
Atualizado 25 de fevereiro de 2019 | 12h11

PACARAIMA, RORAIMA - A fronteira entre Brasil e Venezuela foi palco de novos confrontos neste domingo, 24, entre manifestantes venezuelanos e militares da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), obrigando o Exército brasileiro a formar um cordão de isolamento para evitar mais casos de violência como os registrados sábado, dia da tentativa de envio de ajuda humanitária aos venezuelanos.

Apesar de a fronteira do lado brasileiro não ter sido fechada, instaurou-se uma “permeabilidade seletiva”, nas palavras do coronel José Jacaúna, que isolou o local com o auxílio da Força Nacional de Segurança, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. “Podem passar pequenos grupos, famílias”, explicou o coronel Jacaúna.

Quando a situação se acalmou, militares brasileiros e venezuelanos se reuniram na fronteira. Houve um encontro amistoso entre o general A. Bermúdez V., da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), e o coronel do Exército brasileiro Georges Feres Kanaan, coordenador adjunto da Força Tarefa Logística Humanitária. Eles conversaram na linha de fronteira. Também participaram três donos de caminhões retidos na Venezuela.

“Não podem passar, mas não se preocupem porque não vai acontecer nada com eles. Vou falar para que os caminhões sejam recolhidos ao pátio”, disse Bermúdez aos empresários brasileiros. Segundo eles, o general garantiu que os veículos em solo venezuelano seriam protegidos - embora os motoristas estejam impedidos de cruzar a fronteira por vias oficiais. Há cerca de 30 caminhões numa área próxima a Santa Elena do Uairén.

Ainda tentando evitar novos confrontos, canais envolvendo o Exército brasileiro e o Itamaraty foram abertos com os militares venezuelanos para tentar repatriar caminhoneiros e turistas brasileiros que ficaram na Venezuela após Nicolás Maduro fechar a fronteira, na quinta-feira.

Por volta do meio-dia deste domingo, manifestantes venezuelanos cruzaram a linha de fronteira para atirar pedras contra uma coluna de oficiais da GNB. Ao contrário de sábado, quando havia só soldados na estrada, dois blindados (chamados tanquetas) antidistúrbio estavam no local para fechar a estrada. 

Os militares avançaram quase até a divisa e dispararam bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Quando algumas bombas entraram quase 100 metros em território brasileiro, o Exército agiu. Retirou os manifestantes e a imprensa do local e montou um bloqueio atrás do marco, com o auxílio de viaturas da Força Nacional. 

As ações do Exército eram coordenadas em solo pelo general Eduardo Pazuello. Ele circulou pela fronteira dentro de uma caminhonete branca descaracterizada. 

Do lado venezuelano, também houve reforço: ônibus chegaram com soldados e três blindados, que atuaram disparando bombas de gás contra manifestantes que apedrejavam a formação da GNB.

Ato chavista

No meio da tarde , manifestantes chavistas voltaram ao marco fronteiriço entre Brasil e Venezuela para hastear uma nova bandeira nacional no local - a antiga havia sido retirada no dia anterior por opositores a Maduro. 

Os chavistas entraram e saíram pelo posto aduaneiro sem impedimentos. Com auxílio de um guindaste, eles recolocaram o símbolo no monumento que separa os dois países. 

Gritando palavras de ordem, eles chamaram os opositores de traidores, que reagiram, atrás do cordão de isolamento estabelecido pela Força Nacional de Segurança, com gritos de “puxa-sacos” e “assassinos”. 

Ao Estado, o vice-ministro de Obras da Venezuela, Felipe Jorge, atribuiu a crise e a miséria no seu país a uma suposta guerra econômica conduzida pelos EUA. “O governo de Donald Trump congelou nossas contas. Que ajuda humanitária é essa de 200 toneladas quando distribuímos milhões de toneladas de comida com as caixas Clap?”, questionou, em referência aos alimentos subsidiados entregues pelo chavismo por meio dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção.

Jorge virou as costas quando a reportagem perguntou se faltam remédios na Venezuela. No retorno ao território venezuelano, a aduana estava aberta para os chavistas. Ninguém precisou mostrar documentos.

Deserções

Em consequência dos confrontos no sábado, quando a GNB dispersou os manifestantes com tiros de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, ao menos três sargentos da Guarda desertaram e pediram refúgio no Brasil. Eles disseram não reconhecer mais o governo de Maduro e sim o opositor Juan Guaidó como interino. 

Os três sargentos - Jean Carlos César Parra, Jorge Luís Gonzalez Romero e Carlos Eduardo Zapata - disseram que há insatisfação entre os militares, mas os generais ainda apoiam o chavista. “Mais militares estão por desertar”, disse Parra. “Tivemos a coragem de vir fardados à noite pela estrada. Se estivéssemos de roupa nos prenderiam.”

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