Ahmad Gharabli / AFP
Ahmad Gharabli / AFP

Hamas lança foguetes contra Israel após novos confrontos na Esplanada das Mesquitas

Diante do aumento da violência, Muro das Lamentações é esvaziado e marcha nacional pelo Dia de Jerusalém é cancelada; EUA evitam declaração conjunta do Conselho de Segurança da ONU sobre Jerusalém

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 06h50
Atualizado 10 de maio de 2021 | 21h17

JERUSALÉM - O conflito entre a polícia e manifestantes palestinos em Jerusalém se espalhou nesta segunda-feira, 10, para outras partes da região. Militantes islâmicos dispararam foguetes da Faixa de Gaza contra Israel, que respondeu com ataques aéreos.

Segundo o Hamas, grupo palestino que administra Gaza, 20 pessoas morreram, incluindo 9 crianças. O fogo cruzado se intensificou após uma blitz policial na Mesquita de Al-Aqsa, um dos três locais mais sagrados do Islã, que deixou centenas de feridos.

O Hamas afirma ter disparado mais de 100 foguetes ao todo nesta segunda da Faixa de Gaza para Israel. Mais cedo, havia a informação de que ao menos um deles tinha caído em uma região montanhosa a oeste de Jerusalém, causando danos a casas, mas sem deixar feridos. Além disso, militantes atiraram um míssil antitanque contra um veículo israelense ao longo da fronteira com Gaza ferindo o motorista.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, afirmou que o disparo de foguetes "deve parar imediatamente" e pediu que Israel e palestinos agissem para encerrar a violência. 

Durante a manhã, mais de 300 pessoas ficaram feridas, a maioria palestinos, em novos confrontos com policiais israelenses na Esplanada das Mesquitas, após um fim de semana de distúrbios na Cidade Sagrada. Nove agentes foram feridos, segundo a polícia israelense.

Diante do aumento da violência, a marcha nacional para celebrar o Dia de Jerusalém, que marca a conquista da parte leste da cidade por Israel em 1967, foi cancelada, e o Muro das Lamentações, local sagrado do judaísmo e adjacente à Esplanada das Mesquitas, foi esvaziado.

A pedido da Tunísia, o Conselho de Segurança da ONU reuniu-se com urgência nesta segunda-feira para avaliar a violência dos últimos dias em Jerusalém, mas sem chegar a um acordo sobre uma declaração conjunta, já que os EUA consideram que por enquanto não era apropriado lançar uma mensagem pública, disseram diplomatas.

Depois de novas consultas feitas à tarde sobre a possibilidade de publicar um texto comum pedindo uma redução da escalada, vários diplomatas disseram à agência France Presse que nenhuma declaração deveria ser emitida nesta segunda-feira.

Pela manhã, os EUA explicaram aos outros 14 membros do Conselho, em reunião por videoconferência realizada a portas fechadas, que estavam trabalhando nos bastidores para acalmar a situação e disseram não ter certeza de que neste momento um comunicado poderia ajudar.

Durante a manhã, centenas de palestinos atiraram projéteis contra as forças de segurança israelenses na Esplanada das Mesquitas, terceiro local sagrado do islamismo, que os judeus chamam de Monte do Templo. Os policiais responderam com balas de borracha.

A Autoridade Palestina, do presidente Mahmoud Abbas, denunciou uma "agressão bárbara" por parte das forças israelenses.

O Crescente Vermelho palestino informou um balanço de pelo menos 305 palestinos feridos, e mais de 200 precisaram ser retirados em ambulâncias. A polícia israelense afirmou em um comunicado que trabalha para tentar frear a violência na esplanada, assim como em outros setores da Cidade Antiga de Jerusalém".

No momento em que os apelos internacionais por calma se multiplicam, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, elogiou nesta segunda-feira a "firmeza" das forças de segurança para garantir a "estabilidade" em Jerusalém e criticou a cobertura "equivocada da imprensa internacional". 

Milhares de israelenses participariam  em uma "marcha de Jerusalém" durante a noite na Cidade Antiga, que foi isolada pela polícia, mas o evento foi cancelado pelos organizadores. As forças de segurança pediram aos palestinos que não saiam de suas casas para evitar a violência.

O cônsul de Israel em São Paulo, Alon Levi, afirmou, em declaração ao Estadão, que os episódios de violência "fazem parte de uma onda de terror que está sendo liderada pela organização terrorista Hamas e são o resultado de um incitamento irresponsável à violência".

"Israel tomou todas as medidas possíveis para acalmar a situação e prevenir tensões e violência. A Suprema Corte decidiu adiar a audiência sobre a questão do Sheikh Jarrah, e o comissário de polícia também decidiu restringir a entrada de judeus no Monte do Templo. Todas essas etapas foram respondidas com mais violência e terrorismo", afirmou, pedindo ajuda da comunidade internacional para "restaurar a calma em Jerusalém". 

Início dos confrontos

Na sexta-feira, 7, à noite, mais de 200 pessoas ficaram feridas em confrontos entre a polícia e os palestinos na Esplanada das Mesquitas, nos distúrbios mais violentos desde 2017 neste local. 

No sábado e domingo a calma retornou ao local, mas os confrontos aconteceram em outras áreas de Jerusalém Oriental, com um balanço de mais de 100 feridos, segundo o Crescente Vermelho. A polícia israelense também informou sobre feridos entre suas fileiras.

Uma das causas da tensão é o futuro de várias famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah, ameaçadas de expulsão em benefício de colonos israelenses. A Suprema Corte israelense adiou uma audiência sobre o caso prevista para esta segunda-feira, anunciou o Ministério da Justiça.

No domingo, Netanyahu advertiu que seu país "seguirá garantindo a liberdade de culto, mas não permitirá distúrbios violentos". "Vamos fazer a lei e a ordem serem respeitadas, com firmeza e responsabilidade", afirmou Netanyahu, que defendeu a ampliação das colônias judaicas na parte leste de Jerusalém, ocupada e anexada desde 1967 por Israel.

"Jerusalém é a capital de Israel. Assim como cada nação constrói sua capital, nós também temos o direito de construir em Jerusalém. Isto é o que temos feito e é o que continuaremos fazendo", completou.

Da Faixa de Gaza, balões incendiários haviam sido lançados no fim de semana contra Israel em apoio aos manifestantes de Jerusalém. O Exército israelense anunciou os disparos de mais sete foguetes no domingo à noite e na madrugada de segunda-feira: dois foram interceptados pelo sistema antimísseis Cúpula de Ferro.

Em represália, tanques israelenses atacaram postos militares do Hamas no sul da Faixa de Gaza, informou o Exército, que também fechou a passagem de fronteira de Erez, a única que permite aos moradores de Gaza entrar em Israel.

Pedidos de calma

O governo dos Estados Unidos, principal aliado de Israel, pediu às autoridades israelenses e palestinas que atuem para acabar com a violência e expressou preocupação com a "possível expulsão das famílias palestinas de Sheikh Jarrah".

Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão - países árabes que normalizaram as relações com Israel - expressaram "profunda preocupação" e pediram calma a Israel, assim como o Quarteto para o Oriente Médio (Estados Unidos, Rússia, ONU e UE), que pediu "moderação".

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu a Israel a interrupção das demolições e expulsões, de acordo com suas obrigações estipuladas pelas leis internacionais. O papa Francisco também pediu o fim da violência em Jerusalém.

A Turquia afirmou nesta segunda-feira que Israel "deve parar de atacar os palestinos em Jerusalén e impedir que os ocupantes e os colonos entrem na sagrada mesquita (de Al Aqsa)". / AFP e NYT

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