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Novos estrangeiros

A ajuda psicológica tem de chegar antes das armas a esses estrangeiros de si mesmos

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 03h00

Antes de abrir fogo em duas mesquitas na Nova Zelândia, matando 49 fiéis, o australiano de 28 anos publicou no Twitter um manifesto de 74 páginas, intitulado A Grande Substituição. É o título de um livro do ideólogo francês Renaud Camus, segundo o qual a Europa está sendo “invadida” por africanos. 

O criminoso conta que o que o levou à convicção de que precisava proteger os brancos dos “não brancos” foi uma viagem à França, na qual constatou a gravidade da tal “invasão”. Camus, por sua vez, condenou o atentado, mas confirmou o seu desejo de que “as pessoas percebam a substituição étnica” em curso no seu país, e reajam contra “a colonização da Europa”.

As ideias de Camus têm acolhida na França. Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen e líder em ascensão da Frente Nacional (FN), declarou em 2015: “Hoje há de fato uma substituição de partes do território dos chamados franceses nativos por uma população recém-imigrada”. 

Dois anos depois, Laurent Wauquiez, líder do partido conservador Republicanos, qualificou a constatação de Camus como “uma realidade”.

Nos EUA, a mesma noção surgiu nas palavras de ordem dos neonazistas que protestaram em Charlottesville, em agosto de 2017: “Os judeus não vão nos substituir”. Essa frase em inglês (“Jews will not replace us”) inspirou Camus no título de seu próximo livro, escrito em inglês e lançado no ano seguinte: You Will Not Replace US, com o “US” (“nos”) em maiúsculas, numa referência às iniciais de EUA, em inglês.

O autor do massacre de 11 judeus numa sinagoga de Pittsburgh, em novembro, escolheu o local porque abrigava uma entidade que prestava ajuda a refugiados. Muçulmanos, judeus, africanos e latinos têm em comum o fato de serem “não brancos”. 

Durante a cobertura da eleição presidencial francesa de 2017, fui a Hénin-Beaumont, reduto da FN no norte da França. Lá, ouvi de um açougueiro filho de pai argelino e mãe marroquina que não votaria em Le Pen porque a FN é “antissemita”. O termo é muito interessante, porque engloba tanto árabes quanto judeus.

Uma ala conservadora evangélica, tanto no Brasil quanto nos EUA, sente-se politicamente vinculada a Israel. Na cobertura da eleição presidencial americana, em 2012, uma estudiosa da Bíblia no reduto batista conservador de Lynchburg (Virgínia) me disse que votaria no republicano Mitt Romney porque “ele apoia mais Israel”, enquanto Barack Obama era “muito rude” com o premiê Binyamin Netanyahu. “Israel ainda é a terra de Deus e, quando Jesus voltar, vai estabelecer seu reino em Jerusalém.”

A questão divide a comunidade judaica americana e brasileira. Uma parte está contente com a aliança incondicional de Donald Trump e Jair Bolsonaro com Israel. Outros temem que a intolerância com a diversidade atinja os judeus, como tem ocorrido historicamente. Para uma compreensão mais profunda dessa intolerância, sugiro recorrer a um outro Camus. Em O Estrangeiro, de Albert Camus, o personagem Meursault descarrega o revólver em um árabe e não tem ânimo de se defender na Justiça, embora tivesse grande chance de absolvição, na Argélia colonial, por ser francês. 

Ele é condenado à morte não pelo assassinato, mas pela indiferença à própria vida, pela ausência de si mesmo, que o fazia se sentir um estrangeiro dentro de si. Meursault recobra a capacidade de sentir quando deseja ser objeto do ódio dos espectadores de sua execução. Da mesma forma que o matador de Pittsburgh, o jovem australiano e os rapazes de Suzano se regozijaram com o choque que seu ato causaria no mundo. Eles finalmente seriam notados, receberiam atenção. É preciso que a ajuda psicológica chegue antes que as armas a esses estrangeiros de si mesmos.

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