Novos líderes sauditas e nova política externa

Respaldada pela monarquia, nova geração dá sinais de que mudança no reino terá desdobramentos geopolíticos de longo alcance

NAWAF, OBAID, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

28 Março 2015 | 02h03

Apenas dois meses depois do falecimento do rei Abdullah, a ampla intervenção da Arábia Saudita no Iêmen lançada na quinta-feira serve de alerta ao mundo: uma importante mudança geracional em curso no reino certamente terá desdobramentos geopolíticos de longo alcance.

A nova liderança saudita - centrada num quadro de figuras da realeza e tecnocratas jovens e dinâmicos - está desenvolvendo uma doutrina de política externa capaz de fazer frente a antigas tensões regionais.

Essa doutrina tem como base a legitimidade da monarquia saudita e a centralidade do reino para o mundo muçulmano. Como guardiã das cidades sagradas de Meca e Medina, a Arábia Saudita está numa posição única para se colocar acima das disputas da última década e começar a estreitar as diferenças consideráveis que dividem as principais nações sunitas.

Com quase 90% dos muçulmanos se identificando como sunitas, e a Arábia Saudita no epicentro do mundo sunita, os sauditas acreditam que podem suprir a urgente necessidade de uma frente sunita unida contra o Irã xiita e também os movimentos terroristas que estão dilacerando o mundo árabe.

O rei Salman, sucessor de Abdullah, herdou uma situação desastrosa na região. Com o governo Barack Obama abandonando responsabilidades históricas dos EUA e, por extensão, a maior parte de seu prestígio no Oriente Médio, os sauditas não tiveram escolha senão liderar de modo mais enérgico, mais coerente e mais sustentável. Este manto se assenta na base religiosa conservadora do reino e sua herança tribal árabe única. Mais concretamente, ela é respaldada por US$ 150 bilhões em gastos para modernizar as forças militares sauditas para permitir que enfrentem inimigos simultaneamente em dois fronts, eliminando a necessidade de depender de ajuda estrangeira para defender a pátria.

Intermediação. A nova doutrina dos sauditas retorna à política externa do reino dos anos 70 e 80. Na época, os sauditas trabalharam incansavelmente para pôr fim a 15 anos de uma guerra civil sangrenta no Líbano, conseguindo o Acordo de Taif, de 1989, que estabeleceu relações especiais entre Líbano e Síria e criou um sistema político que garantiu uma divisão de poderes entre denominações religiosas. É de esperar que os sauditas procurem promover pactos igualmente inclusivos e de longo alcance como soluções para o caos reinante na Síria e noutros pontos quentes da região.

A liderança saudita enfrenta alguns problemas, mas a maioria deles decorre da agressividade iraniana. No Iêmen, o golpe dos combatentes do grupo Houthi apoiados pelos iranianos que derrubou o governo central retirou pressão sobre a Al-Qaeda na Península Arábica e produziu anarquia, com a possibilidade crescente de uma guerra civil. Na Síria, os esforços do regime de Bashar Assad para reter o poder, respaldados também pelo Irã, brutalizaram a população e insuflaram vida no grupo jihadista Estado Islâmico.

No Iraque, sucessivos governos centrais sustentados por milícias xiitas controladas pelos iranianos destruíram qualquer semelhança com cidadania e criaram as condições que permitiram que o Estado Islâmico se apoderasse de vastas porções do território. No Líbano, o movimento Hezbollah, uma criação iraniana, reina soberano num país que mal consegue se manter unido. Um Hamas apoiado por Teerã mantém o controle da Faixa de Gaza enquanto uma solução do conflito entre israelenses e palestinos continua sendo uma possibilidade remota.

Os sauditas e seus principais aliados sunitas sabem que somente um bloco unificado de Estados que pensem igual pode conter o Irã. Com esse intuito, os sauditas já começaram a contatar a maioria dos maiores Estados sunitas - sendo os principais deles Turquia, Egito e Paquistão - para dar início ao complexo processo de reconciliação.

Finalmente, há as negociações nucleares iranianas que os sauditas estão observando atentamente. A Arábia Saudita simplesmente não pode permitir que o Irã, sob quaisquer circunstâncias, use seu "quase status" de potência nuclear para expandir sua influência e prestígio na região. Conformar-se com um chamado "guarda-chuva nuclear" americano é impensável para Riad. Seja qual for o acordo que os iranianos obtenham, os sauditas buscarão um programa equivalente para alcançar a paridade nuclear.

Embora esta lista de problemas pareça desanimadora, uma nova era desponta no Oriente Médio. Apesar de toda a dura retórica que vem de seus líderes, o Irã está sofrendo sérias pressões em razão das sanções das Nações Unidas e do colapso dos preços do petróleo que poderão ter consequências perigosas para a estabilidade do Estado iraniano.

A doutrina saudita tem como premissa reforçar estas realidades geoeconômicas enquanto pressiona a enfraquecida capacidade do Irã de projetar poder no exterior até as raias da ruptura./ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PESQUISADOR E PROFESSOR ADJUNTO NO BELFER CENTER FOR SCIENCE AND INTERNATIONAL AFFAIRS, DA

UNIVERSIDADE HARVARD, E. FOI

CONSULTOR DE VÁRIAS AUTORIDADES

DO GOVERNO SAUDITA

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