Salah Habibi/AP
Salah Habibi/AP

Novos protestos derrubam ministros na Tunísia

Governo de união escolhido por ex-primeiro-ministro de Ben Ali enfrenta pressões populares contra a presença de políticos ligados ao antigo regime

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

Novos protestos de rua realizados na capital e no interior da Tunísia resultaram ontem na demissão de quatro ministros do recém-formado gabinete interino do premiê Mohamed Ghannouchi. A pressão foi criada por sindicatos, pela oposição de esquerda e movimentos islâmicos contra a presença de membros do governo deposto de Zine El Abidine Ben Ali.

Apoiados pela central sindical UGTT, os manifestantes ameaçam derrubar o segundo governo em cinco dias. As primeiras demissões foram anunciadas pela manhã. Abdeljelil Bedoui, vice-primeiro-ministro, Anouar Ben Gueddour, ministro dos Transportes, e Houssine Dimassi, ministro do Emprego, renunciaram antes de assumir.

A UGTT havia participado ativamente dos protestos contra o governo de Ben Ali e enfrentou críticas da opinião pública por ter aderido à nova administração, que conta com integrantes da União Constitucional Democrática (RCD), partido do presidente deposto.

Completa o grupo de demissionários o ministro da Saúde, Moustafa Ben Jaafar, líder do partido oposicionista Fórum Democrático para o Trabalho e as Liberdades (FDTL).

Desfiliação. Em resposta aos distúrbios, Ghannouchi e o presidente interino, Fouad Mebaza, ligados ao RCD, e ex-membros da base de sustentação do governo deposto, anunciaram que se estavam desfiliando do partido, na expectativa de manter os cargos.

Apesar dos protestos, o novo gabinete conseguiu evitar, pelo menos até o momento, as demissões de políticos escolhidos para postos estratégicos, como os ministros de Finanças, da Defesa, do Interior e das Relações Exteriores.

Na tentativa de estabilizar o país, o chanceler tunisiano, Kamel Morjane, veio a público garantir que o gabinete de Ghannouchi é provisório e deixará o poder tão logo as eleições sejam realizadas. "É um governo de transição que tem o objetivo de enfrentar os problemas econômicos que originaram os distúrbios e de preparar as eleições pluralistas", disse.

Apesar dos apelos, a situação é instável pois o maior grupo de oposição, o Ettajdid (Partido Renovação, antigo Partido Comunista), exigiu a demissão de todos os ex-membros do governo Ben Ali, sob pena de se retirar do gabinete de coalizão. As restrições também são impostas pelos líderes islâmicos da Tunísia. Ontem, Sadok Chourou, dirigente do movimento Ennhada, declarou ilegítimo o gabinete formado por Ghannouchi. "O novo governo não representa o povo e deve cair. Não à RCD."

Enquanto isso, nas ruas, as passeatas voltaram a ser reprimidas com violência pela polícia. Houve choques entre manifestantes e as forças de segurança, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo. No entanto, ao contrário do que ocorreu anteriormente, a polícia não respondeu com munição real.

Além da capital, houve manifestações em grandes cidades do interior, como Sfax - centro econômico do país -, Tataouine e Sidi Bouzid, onde começaram os distúrbios que resultaram na queda de Ben Ali.

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