Jorge Saenz/AP
Jorge Saenz/AP

Novos protestos e denúncias pressionam presidente do Paraguai

Benítez, que se mantém no poder graças ao apoio de Horácio Cartes, é acusado de má gestão da pandemia; país decreta alerta sanitário vermelho por aumento de casos 

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 20h15

ASSUNÇÃO - O presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, enfrentou nesta terça-feira, 9, novos protestos enquanto vê novas denúncias contra o Ministério da Saúde serem divulgadas e a oposição parlamentar articulando sua saída da presidência. 

Estudantes, trabalhadores e funcionários públicos, habitantes da zona urbana sem liderança política visível, convocaram o protesto pelo quinto dia consecutivo, com o lema “até a saída de Marito”. Os manifestantes o acusam de má gestão da pandemia do novo coronavírus e criticam o Ministério da Saúde pela falta de medicamentos e vacinas contra a covid-19

Hoje, o diretor da Direção Nacional de Contratos Públicos (DNCP), Pablo Seitz, afirmou, segundo o jornal ABC Color, que em 2020 o Ministério da Saúde não previu nenhuma licitação para a compra de atracúrio, o sedativo que vem sendo usado no tratamento de pessoas internadas com covid nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Seitz acrescentou que havia um contrato vigente de 2019 com um fornecedor, mas o medicamento não foi entregue no ano passado.

As denúncias, que aumentam as críticas à gestão do ministério, se somam aos esforços da oposição para forçar a renúncia de Benítez. “Se os parlamentares não ouvirem o clamor popular, terão de partir também”, alertou à agência France Presse o líder opositor Efraín Alegre, presidente do Partido Liberal, a primeira minoria no Congresso. 

“As pessoas que se manifestam hoje são as que resolverão o futuro do país”, acrescentou o político, que perdeu as eleições presidenciais de 2018 para Benítez. 

“Os que hoje se mobilizam são, em sua maioria, cidadãos da classe média, que raramente saem às ruas. As pessoas se cansaram das negociatas escandalosas e dos roubos em nome da pandemia”, declarou o senador do Partido Liberal Victor Ríos.

O presidente conquistou o apoio dos dissidentes de seu Partido Colorado, liderado pelo influente empresário e ex-presidente Horácio Cartes, para bloquear momentaneamente qualquer pedido de impeachment. No entanto, para apaziguar a fúria popular que resultou em confrontos com a polícia na sexta-feira, ele trocou quatro ministros, incluindo o da Saúde, “por uma questão de pacificação”.

Para o analista político Carlos Mateo Balmelli, o Paraguai não lidou bem com a pandemia, apesar dos elogios que recebeu em 2020 de governos e organizações internacionais. “A quarentena precoce de sete meses fatigou o povo. Levou muitos à ruína econômica. Não impediu os contágios que, hoje, alcançam seus níveis mais altos. Os remédios são escassos e há claras denúncias de corrupção. A política local tornou-se obscena. É isso que provoca a fúria do povo”, resumiu.

Alegre afirmou que o apoio do partido no poder ao presidente pode ser momentâneo e lembrou o que ocorreu em abril de 2017, quando milhares de cidadãos marcharam e incendiaram parcialmente o prédio do Congresso para protestar contra a pretensão de Cartes de tentar a reeleição (2013-2018). Após os distúrbios, o Senado reverteu uma emenda à Constituição para permitir a reeleição que estava para ser aprovada. 

Alerta vermelho

Com 7 milhões de habitantes, o Paraguai se aproxima de 170 mil casos e ultrapassa 3.300 mortes por covid-19. Nesta terça-feira, o país decretou alerta sanitário vermelho devido ao "aumento constante (de casos) e ao recorde de contágios por covid-19" nos últimos dias. O governo advertiu que a continuação dessa tendência pode levar ao colapso do sistema público de saúde.

O anúncio foi feito pelo Ministério da Saúde por meio de nota oficial um dia depois de o país atingir o maior número de casos em 24 horas (1.817), o que elevou o total desde o início da pandemia para 169.860. O Paraguai, que tem uma população de cerca de 7 milhões de habitantes, também já registrou 3.343 mortes pela doença./AFP e EFE 

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