Novos trechos de vídeo com ironias de Romney põem candidatura em xeque

No que vem sendo considerada a pior semana de sua campanha para a presidência dos EUA até agora, o candidato republicano, Mitt Romney, adotou uma posição defensiva depois do vazamento de um vídeo com declarações e ironias que foram criticadas até mesmo por integrantes de seu partido.

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h02

Além de afirmar não se importar com os 47% da população americana que votará no presidente Barack Obama e, segundo ele, não paga imposto de renda, novas declarações foram divulgadas ontem pelo site da revista Mother Jones. Os trechos foram retirados da íntegra do vídeo de um jantar de arrecadação de fundos realizado em Boca Raton, na Flórida, em maio.

Em uma delas, Romney afirma que os palestinos não querem a paz "de forma nenhuma" e "estão comprometidos com a destruição de Israel". "Digo que não tem jeito. Há a esperança de algum grau de estabilidade, mas é preciso reconhecer que continuará sendo um problema sem solução."

Analistas disseram que a afirmação de Romney, caso ele seja eleito, trará dificuldades para os EUA no papel de mediador das negociações no Oriente Médio. Saeb Erekat, principal negociador da Autoridade Palestina, reagiu com dureza à declaração do republicano, afirmando serem "absolutamente inaceitáveis".

Ao longo do dia, coordenadores de sua campanha tentavam acalmar doadores dizendo que os planos continuam os mesmos e o foco voltará a ser a economia. Romney, no entanto, não se arrependeu e voltou a dizer apenas que foi "deselegante". "Estava falando da campanha e sobre o que tenho de fazer para ganhar a metade dos votos", disse. Seu vice, Paul Ryan, tentou esclarecer a posição do candidato. "Acreditamos que é necessário dar segurança às pessoas que não conseguem se manter, mas não queremos encorajar mais dependência", afirmou.

Não estava claro ontem como as afirmações de Romney repercutirão nas pesquisas. Há estudos indicando que gafes praticamente não alteram as tendências de voto. Nicholas Carnes, professor da Universidade Duke, afirma que "gafes raramente decidem eleições".

"Romney sempre pregou uma plataforma econômica conservadora. Os comentários feito em Boca Raton podem ser vistos por algumas pessoas como ofensivos, mas não são muito diferentes do que ele vem falando ao longo da campanha sobre Obama, impostos, gastos do governo e outros assuntos", disse Carnes.

Na bolsa de apostas Intrade, de Londres, a possibilidade de Romney ser eleito presidente caiu 1,2 ponto porcentual. Sua chance de vencer é de 32,3%. A maioria das pesquisas mostra que os números dos dois candidatos voltaram a um nível parecido com o de antes das convenções - com Obama ligeiramente à frente.

Ataques. Os primeiros comentários de Obama sobre o vídeo de Romney foram feitos ontem no programa Late Show, da CBS, apresentado por David Letterman. "Qualquer um que queira ser presidente dos EUA tem de trabalhar para todos, não apenas para alguns", disse Obama. "Ele está desprezando uma parcela grande do país."

"Temos algumas obrigações uns com os outros e não há nada errado em darmos uma mãozinha para ajudar uma mãe solteira que não consegue pagar a universidade para o filho", disse o presidente.

Alguns conservadores americanos fizeram crítica duras ao republicano. William Kristol, colunista da revista Weekly Standard, classificou como "estúpidas e arrogantes" as declarações de Romney, defendendo que ele renuncie à campanha, abrindo espaço para o vice Paul Ryan.

Outro desdobramento político positivo para a campanha de Obama foi a suspensão, ontem, da greve de professores que havia sete dias paralisava o ensino público em Chicago - reduto eleitoral do democrata - pela primeira vez em 25 anos. A categoria concordou em retomar as atividades após uma proposta apresentada pelo governo no fim de semana. Cerca de 350 mil alunos devem retornar às aulas hoje.

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