NSA grampeou Vaticano e pode ter espionado papa, diz revista italiana

Reportagem com base em dados de Snowden afirma que EUA monitoraram comunicações da Igreja em busca de segredos diplomáticos e financeiros

Jamil Chade, correspondente em Genebra,

30 de outubro de 2013 | 23h10

GENEBRA - Há indícios de que a Agência de Segurança Nacional (NSA) americana espionou o então cardeal Jorge Bergoglio, antes de sua eleição para comandar a Igreja Católica, além do próprio papa Bento XVI e de cardeais brasileiros, segundo a revista italiana Panorama. Com os grampos no Vaticano, até mesmo durante o conclave deste ano, Washington buscaria vantagens diplomáticas e segredos financeiros. A Casa Branca disse ontem que a informação é falsa.

A reportagem, que será publicada na quinta-feira, 31, usa dados fornecidos pelo ex-agente americano Edward Snowden e afirma também que 46 milhões de ligações telefônicas teriam sido monitoradas na Itália. O primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, convocou uma reunião de emergência para hoje sobre o caso.

As notícias de espionagem americana na Itália e no Vaticano põem ainda mais pressão sobre o governo dos EUA. Usando documentos de Snowden, a imprensa europeia tem noticiado como a NSA roubou informações de milhões de alemães, franceses e espanhóis, além de autoridades como a chanceler alemã, Angela Merkel.

Um alvo das escutas seria o Vaticano, enclave soberano dentro da cidade de Roma. Segundo a revista, os americanos passaram a operar um sofisticado mecanismo para monitorar as conversas de Bento XVI, antes de ele renunciar. Telefonemas do cardeal argentino Bergoglio, hoje papa Francisco, também teriam sido alvo de escutas dos EUA antes e durante o conclave.

A Igreja Católica não quis comentar as revelações da revista italiana. "De qualquer forma, não nos preocupamos com isso", declarou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi.

Segundo a Panorama, um dos alvos prioritários da espionagem americana foi a residência Domus Internationales Paulo VI, justamente onde Bergoglio estava hospedado nos dias que antecederam ao conclave. A Casa Santa Marta, que abrigou os cardeais ao longo do ritual para escolha do pontífice, supostamente foi outro alvo dos grampos da NSA. Pelo menos três cardeais brasileiros estavam nessa residência do Vaticano à época, incluindo dom Odilo Scherer, que era um dos mais cotados para suceder a Bento XVI.

A publicação italiana afirma que a espionagem eletrônica dos EUA ocorreu durante o processo de seleção do novo papa, realizado em março. A revista ainda cita o grupo WikiLeaks, que havia afirmado que Bergoglio estava na mira da inteligência americana desde 2005.

Banco. Ele não seria o único no Vaticano a ser espionado. O chefe do Conselho Supervisor do Banco do Vaticano, Ernst von Freyberg, teria sido alvo das escutas. Ele foi chamado justamente para promover uma reforma da instituição, acusada de ser um instrumento de lavagem de dinheiro para o crime organizado. Outros cardeais ligados ao banco também foram colocados na mira das escutas eletrônicas. O brasileiro Scherer é um dos membros do comitê do banco, mas seu nome não aparece na reportagem.

Interceptadas pelos americanos, as ligações do Vaticano foram classificadas, segundo a revista, em quatro categorias: "intenção de liderança", "ameaça ao sistema financeiro", "objetivos de política externa" e "direitos humanos".

O trabalho teria sido realizado em um anexo da Embaixada dos EUA em Roma, dedicado à espionagem. No local, trabalhariam apenas agentes da CIA e da NSA. A revista ainda aponta que os documentos de Snowden indicam que Roma seria um dos locais escolhidos por Washington para posicionar a elite do grupo de espiões americanos.

Tudo o que sabemos sobre:
NSAEUAVaticanopapa Francisco

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.