Luciana Dyniewicz/Estadão
Luciana Dyniewicz/Estadão

Num arco-íris político, lenços ganham uma cor para cada protesto na Argentina  

Os lenços ressurgiram como forma de expressão 40 anos depois de aparecerem pela primeira vez em uma luta política, com as Mães da Praça de Maio

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2018 | 05h00

A moda começou em maio, antes de o projeto que permitiria o aborto na Argentina fosse votado no Congresso: milhares de mulheres passaram a pendurar em suas bolsas um lenço verde com dizeres a favor da legalização do aborto

O projeto foi derrotado no Senado em agosto, mas a moda sobreviveu. Ainda hoje, os lenços verdes estão à venda em várias bancas de jornais de Buenos Aires. Ao lado deles, há uma multiplicação de cores.

Movimentos contra a permissão do aborto lançaram o lenço azul celeste e, depois, surgiram o laranja (pelo Estado laico), o vermelho (pela lei de adoção), o rosa (contra o maltrato de animais pequenos), o preto (contra maltrato de animais de grande porte), o azul (em defesa da escola pública), o azul escuro (pela escola técnica), o branco (pela saúde pública) – enfim, qualquer causa imaginável tem hoje um lenço colorido.

Os lenços ressurgiram como forma de expressão 40 anos depois de aparecerem pela primeira vez em uma luta política. Eles eram usados nos anos 70 pelas Mães da Praça de Maio, que tentavam descobrir o paradeiro de seus filhos desaparecidos durante a ditadura (1976-1983).

“Hoje, apesar da proliferação de lenços de cores diferentes, o verde é o único com relevância política”, diz o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidad de Buenos Aires. “Há um exagero argentino de levar os lenços a todas as dimensões possíveis. Mas, com exceção do verde, os demais não conseguiram formar um discurso político. O verde se transformou em símbolo da luta contra o patriarcado e ganhou relevância na denúncia de assédio sexual.” 

O pequeno pedaço de pano é hoje o artigo mais vendido na banca de jornais em que trabalha María José Davila, no centro de Buenos Aires. “Depois deles, o que mais sai é a camisa do River Plate. Hoje, vieram duas espanholas comprar o lenço verde e ontem uma argentina disse que tinha de enviar para amigas nos EUA.” Maria José conta que os lenços laranja e rosa também são procurados. Por dia, ela vende cerca de 40 lenços coloridos.

Fornecedor de María José, Guillermo García afirma que, no dia da votação da lei do aborto, chegou a vender 2 mil lenços – hoje, a média diária é de 300, incluindo todas as cores. “Sempre haverá algo para protestar”, diz.

Há, porém, aqueles que torcem o nariz para quem transformou o ativismo em comércio. Anyela Arteaga, de 41 anos, carrega seu lenço verde na bolsa, mas se recusou a comprá-lo. “Colocar juntos os lenços (contra e a favor do direito de aborto) para vender é um insulto para mim. Quis conseguir o meu com alguém que estivesse comprometido e acreditasse que o lenço é uma arma amorosa de luta”, diz Anyela, que ganhou o seu de um amigo. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.