Alan Santos/PR
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Numa noite de sábado na Flórida, festa de Bolsonaro e Trump vira zona de risco para coronavírus

Uma 'escapada' de fim de semana para Mar-a-Lago colocou o presidente dos Estados Unidos em contato com várias pessoas que tiveram resultado positivo para vírus; ele disse que não tem sintomas.

NYT, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 20h52

WASHINGTON - As luzes estavam baixas e os globos de discoteca giravam enquanto um bolo enfeitado com velas em formato de estrelas foi levado ao salão onde uma plateia cantava "Parabéns pra Você", acompanhada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A aniversariante, Kimberly Guilfoyle, namorada de Donald Trump Jr., deu um soco no ar e gritou: "Mais quatro anos!"

Era uma luxuosa, festiva e despreocupada noite de sábado no resort de Trump na Flórida, Mar-a-Lago, uma semana atrás, no que, em retrospectiva, agora parece ser o fim de uma era e o começo de outra. Nos dias que se seguiram, a propriedade presidencial na Flórida se tornou algo como uma zona de risco para coronavírus. Um número crescente de convidados do último fim de semana em Mar-a-Lago disseram que foram infectados ou se colocaram em quarentena.

Por enquanto, nem o presidente nem sua família reportaram se sentir doentes. Também não é de conhecimento público que tenham se isolado. Depois de resistir por dias, Trump fez um teste neste sábado para coronavírus, sem explicar porque seu pessoal divulgou um comunicado do médico da Casa Branca, perto da meia-noite, insistindo que não havia necessidade de exame, já que o presidente não vinha tendo sintomas de gripe. O teste deu  resultado negativo.

De qualquer maneira, o jantar alegre em Mar-a-Lago tornou-se uma espécie de metáfora para os perigos de reuniões de pessoas em época de coronavírus, demonstrando quão rápido e silencioso um vírus pode se espalhar. Ninguém está necessariamente seguro contra ele, nem senadores, nem diplomatas ou mesmo a pessoa mais poderosa do planeta supostamente segura em uma verdadeira fortaleza cercada por agentes do Serviço Secreto.

Alguns dos convidados do fim de semana passado preocumpam-se com o fato de que aquela festa pode ter sido a última do tipo em Mar-a-Lago por algum tempo. "Espero que não", escreveu o deputado Matt Gaetz, da Flórida, em uma mensagem de texto. "Seres humanos interagindo uns com os outros são tipicamente mais felizes e mais produtivos, segundo minha experiência".

As experiências de Gaetz emitem um alerta. Ele foi a eventos em Mar-a-Lago nas noites de sexta-feira e sábado da primeira semana de março, sem notar que ele já havia sido exposto a alguém infectado com coronavírus em um evento político anterior. Na segunda-feira passada, enquanto viajava com Trump a bordo do avião presidencial de volta a Washington, ele foi informado sobre esse primeiro encontro com suspeita de pessoas infectadas. Naquele momento, ele foi separado do presidente e dos outros passageiros do avião. Depois, ele iria para autoquarentena e receberia resultado negativo para o teste de coronavírus.

Muitos outros que estavam em Mar-a-Lago naquele fim de semana receberam resultados positivos para o vírus, incluindo pessoas que acompanharam o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em um jantar com Trump antes da festa de aniversário de Kimberly. Fabio Wajngarten, seu secretário de Comunicação, e Nestor Forster, seu embaixador em Washington, receberiam, ao longo da semana, o resultado positivo. Uma assessora de imprensa de Nelsinho Trad, senador brasileiro que também recebeu resultado positivo, disse que ele estava no jantar, mas a embaixada brasileira em Washington negou a informação. Outro integrante da delegação brasileira também recebeu o diagnóstico de coronavírus, mas não estava em Mar-a-Lago.

Uma pessoa não-identificada que esteve em um brunch de arrecadação de recursos com o presidente também teve resultado positivo. E, no sábado, Ronna McDaniel, presidente do Comitê Nacional do Partido Republicano, e que apresentou Trump ao responsável por arrecadar os fundos em Mar-a-Lago, revelou que ficou doente e estava esperando a confirmação de se estava ou não com coronavírus.

Bolsonaro disse na sexta-feira que seu resultado foi negativo, mas médicos do presidente disseram depois que ele deveria fazer novos exames por precaução. O prefeito de Miami, Francis Suarez, que se encontrou com Bolsonaro na segunda-feira, informou que também recebeu um resultado positivo.

Enquanto pessoas que estiveram com Trump tenham relatado que ele estava preocupado com o coronavírus, publicamente o presidente tem insistido que não há motivo para preocupações.

O presidente norte-americano procurou, por semanas, minimizar a seriedade da crise e tem sido especialmente cauteloso em dar a impressão de que ele próprio estaria em risco. De fato, vários conselheiros de Trump expressaram, de forma privada, irritação por Ronna McDaniel ter tratado da doença publicamente.

Desde o início do governo Trump, pessoas tem pago até US$ 200 mil por uma assinatura do resort - e ter proximidade com o presidente norte-americano. Trump frequentemente passa tempo no restaurante na hora do jantar, apertando as mãos de assinantes e acenando para quem está na mesa.

Apesar do coronavírus, o presidente não tem mudado sua prática de cumprimentar convidados, segundo um integrante do clube. Trump acredita que sua vontade de apertar mãos e conectar com apoiadores o ajudou a impulsioná-lo à presidência. E a regra não escrita do clube é que aqueles que o amam ou negociam conexões com ele podem ter acesso a ele.

Essa regra ficou em evidência no fim de semana passado no salão de festas do clube, quando o presidente recebeu Bolsonaro para jantar e, depois, a família Trump para o aniversário de Kimberly. Enquanto Trump acompanhava Bolsonaro para dentro do clube, um repórter perguntou se os casos de coronavírus recém-relatados na área de Washington o preocupavam. "Não", ele disse com Bolsonaro ao seu lado. "Não estou preocupado." E então os dois entraram. / TRADUÇÃO DE TIAGO DANTAS

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