Número 2 da Al-Qaeda foi morto misteriosamente no Irã, diz jornal

'New York Times' afirma que Abdullah Ahmed Abdullah teria sido baleado nas ruas de Teerã por agentes israelenses a mando dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 23h32
Atualizado 19 de novembro de 2020 | 21h42

O segundo maior líder da rede terrorista Al-Qaeda, acusado de ser um dos mentores dos ataques mortais de 1998 contra as embaixadas dos EUA na África, foi morto em Teerã há três meses por agentes israelenses, segundo disseram funcionários da inteligência americana ao jornal The New York Times. 

O Ministério das Relações Exteriores iraniano declarou, neste sábado, 14, que a notícia se trata de "informação forjada". Segundo as autoridades, não há integrantes da Al-Qaeda em solo iraniano. "Os inimigos do Irã, dos Estados Unidos e de Israel, tentam desviar a responsabilidade pelos atos criminosos da Al-Qaeda e de outros grupos terroristas da região e vincular o Irã a esses grupos por meio de mentiras e vazamentos de informações inventadas pela mídia”, declarou. o porta-voz do ministério, Saeed Khatibzadeh, em um comunicado.

Abdullah Ahmed Abdullah, conhecido pelo nome de guerra Abu Muhammad al-Masri, foi baleado nas ruas de Teerã por dois homens em uma motocicleta em 7 de agosto, aniversário dos ataques à embaixada. Ele foi morto junto com sua filha, Miriam, a viúva do filho de Osama bin Laden Hamza bin Laden. 

Segundo o New York Times, não está claro qual foi o papel desempenhado pelos Estados Unidos, que há anos rastreiam os movimentos de Al-Masri e de outros integrantes da Al-Qaeda no Irã. As fontes ouvidas pelo jornal disseram que o ataque foi realizado por agentes israelenses a mando dos Estados Unidos.  

Como descreve o jornal, o assassinato ocorreu em um submundo de intriga geopolítica, espionagem e contraterrorismo. Havia rumores sobre a morte de Al-Masri, mas nunca foi confirmada até agora. Por motivos ainda obscuros, a Al-Qaeda não anunciou a morte de um de seus principais líderes, as autoridades iranianas acobertaram o fato e nenhum país assumiu publicamente a responsabilidade por isso.

Al-Masri, que tinha cerca de 58 anos, foi um dos líderes fundadores da Al-Qaeda e foi considerado o primeiro na linha para liderar a organização depois de seu atual líder, Ayman al-Zawahri.

Incluso na lista de terroristas mais procurados do FBI, ele foi indiciado nos Estados Unidos por crimes relacionados aos atentados às embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia, que mataram 224 pessoas e feriram centenas. O FBI ofereceu uma recompensa de US $ 10 milhões por informações que levassem à sua captura e, na sexta-feira, sua foto ainda estava na lista dos mais procurados.

O fato de ele ter vivido no Irã era surpreendente, visto que o Irã e a Al-Qaeda são inimigos ferrenhos. O Irã, uma teocracia muçulmana xiita, e a Al-Qaeda, um grupo jihadista muçulmano sunita, lutaram entre si nos campos de batalha do Iraque e em outros lugares.

Funcionários da inteligência americana dizem que al-Masri estava sob "custódia" do Irã desde 2003, mas que vivia livremente no distrito de Pasdaran em Teerã, um subúrbio de luxo, pelo menos desde 2015.

Por volta das 21h (hora local) de uma noite quente, ele dirigia seu sedã Renault L90 branco com sua filha perto de sua casa quando dois homens armados em uma motocicleta pararam ao lado dele. Cinco tiros foram disparados de uma pistola equipada com silenciador. Quatro balas entraram no carro pelo lado do motorista e uma quinta atingiu um carro próximo.

Quando a notícia do ataque foi divulgada, a mídia oficial do Irã identificou as vítimas como Habib Daoud, um professor de história libanês, e sua filha Maryam, de 27 anos. O canal de notícias libanês MTV e contas de mídia social afiliadas à Guarda Revolucionária do Irã relataram que Daoud era membro do Hezbollah, a organização militante apoiada pelo Irã no Líbano.

Parecia plausível

O assassinato ocorreu em meio a um verão de frequentes explosões no Irã, aumentando as tensões com os Estados Unidos, dias após uma enorme explosão no porto de Beirute e uma semana antes de o Conselho de Segurança da ONU considerar a extensão de um embargo de armas contra o Irã. Especulou-se que o assassinato pode ter sido uma provocação ocidental com o objetivo de provocar uma violenta reação iraniana antes da votação do Conselho de Segurança.

E a morte seletiva por dois atiradores em uma motocicleta se encaixa no modus operandi dos assassinatos anteriores de cientistas nucleares iranianos por israelenses. Israel matar um oficial do Hezbollah, que está comprometido com a luta contra Israel, também parecia fazer sentido, exceto pelo fato de que os israelenses têm evitado conscientemente matar membros do grupo para não provocar uma guerra.

Na verdade, não houve um Habib Daoud

Vários libaneses com laços estreitos com o Irã disseram não ter ouvido falar dele ou de sua morte. Uma busca na mídia libanesa não encontrou nenhum relato de um professor de história libanês morto no Irã no verão passado. E um pesquisador em educação com acesso a listas de todos os professores de história do país disse não haver registro de um Habib Daoud.

Um dos funcionários da inteligência disse que Habib Daoud era um apelido que as autoridades iranianas deram a Al-Masri e que o cargo de professor de história era um disfarce. Em outubro, o ex-líder da Jihad Islâmica do Egito, Nabil Naeem, que chamava Al-Masri de amigo de longa data, disse ao canal de notícias saudita Al-Arabiya a mesma coisa.

O Irã pode ter tido um bom motivo para querer esconder o fato de que estava abrigando um inimigo declarado, mas estava menos claro por que as autoridades iranianas teriam aceitado o líder da Al-Qaeda para começar. /THE NEW YORK TIMES e EFE

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