Ariana Cubillos / AP
Ariana Cubillos / AP

Número 2 do chavismo é acusado de chefiar cartel na Venezuela

Segundo jornal 'ABC', ex-guarda-costas de Diosdado Cabello rompeu com governo, fugiu para os EUA e o acusou de narcotráfico

O Estado de S. Paulo

27 de janeiro de 2015 | 18h03


CARACAS  O membro da Casa Militar, órgão responsável pela segurança presidencial na Venezuela, Leamsy Salazar, chegou na segunda-feira a Washington como testemunha protegida depois de romper com o chavismo e denunciou o envolvimento do presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e de outros líderes venezuelanos, com o narcotráfico.

Cabello rejeitou as acusações, veiculadas pelo jornal espanhol ABC. “Cada ataque contra minha pessoa fortalece meu espírito e meu compromisso. Agradeço infinitamente as manifestações de apoio de nosso povo”, disse pelo Twitter.

Salazar foi durante quase dez anos chefe de segurança e assistente pessoal de Hugo Chávez e passou a prestar serviço a Cabello depois da morte do presidente, em março de 2013.

Segundo fontes ligadas à Promotoria Federal do Distrito Sul de Nova York, que prepara uma acusação formal contra Cabello, Salazar denunciou que o n.º 2 do chavismo é o chefão do Cartel de los Soles, portanto operador do narcoestado em que Chávez transformou a Venezuela. Salazar também disse que Cuba dá proteção e assistência a alguma rotas do tráfico que partem da Venezuela rumo aos EUA.

O Cartel de los Soles, composto basicamente por militares (seu nome vem do emblema usado nas fardas dos generais venezuelanos), monopoliza o tráfico de drogas na Venezuela. A droga é produzida pela guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e levada a seus pontos de destino nos EUA e Europa por cartéis basicamente mexicanos. Segundo as últimas estimativas internacionais, pela Venezuela passam cinco toneladas semanais de drogas (90% das drogas produzidas na Colômbia).

Como assistente pessoal de Cabello, Salazar testemunhou situações e conversações que incriminam o presidente da Assembleia Nacional. Segundo Salazar, ele viu Cabello dar ordens diretas para a partida de lanchas com toneladas de cocaína. Ele também deu evidências sobre locais onde são armazenadas montanhas de dólares procedentes do tráfico, disseram fontes ligadas à investigação, realizada pela Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA, na sigla em inglês).

Em 11 de dezembro foi apreendido no terminal marítimo de Puerto Cabello, o mais importante da Venezuela, um caminhão com cerca de US$ 10 milhões em dinheiro vivo, procedente dos EUA. Especula-se que o dinheiro pode ser o pagamento por um carregamento de droga recebida. Alguma falha na organização teria levado à descoberta do dinheiro. Dias depois, em seu programa semanal de TV, Cabello se empenhou em acusar a oposição de ser a destinatária do dinheiro, mas sem apresentar provas.

Em suas revelações, Salazar também implica Tareck Aissami, governador do Estado de Aragua e ligado a redes islâmicas, e José David Cabello, irmão do presidente da Assembleia e superintendente da agência tributária e aduaneira. Segundo o militar, José David seria o responsável pelas finanças do Cartel de los Soles e a petrolífera PDVSA seria usada na lavagem de dinheiro.

O testemunho de Salazar, segundo as fontes, ratificou várias das informações fornecidas anteriormente à DEA por Eladio Aponte Aponte, que foi chefe da Sala Penal do Tribunal Supremo da Venezuela e em 2012 fugiu para os EUA como testemunha protegida. O processo contra Cabello nos EUA está vinculado ao do general venezuelano Hugo Carvajal, ex-chefe da Direção de Inteligência Militar detido em julho em Aruba a pedido do governo americano. Carvajal era considerado o operador do Cartel de los Soles, mas a denúncia de Salazar indica que, na verdade, ele agia sob ordens de Cabello. 

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