Andres Kudacki/The New York Times
Andres Kudacki/The New York Times

Número de casos de covid-19 dispara na Suécia

Suécia tem uma taxa de novas infecções seis vezes maior que a média da União Europeia; país defende estratégia

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2020 | 13h02

ESTOCOLMO - A Suécia, que atraiu a atenção mundial por sua estratégia menos rigorosa para lidar com o coronavírus, enfrenta um número quase recorde de novos casos de covid-19 na União Europeia (UE). Autoridades do país escandinavo defendem, no entanto, que a epidemia está em declínio.

Entre os 27 países membros da UE, a Suécia se destacou nas últimas duas semanas por alcançar o segundo lugar, atrás do pequeno Luxemburgo, na lista de novos casos registrados por milhão de habitantes, segundo dados compilados pela AFP. 

Hoje, a Suécia tem uma taxa de novas infecções seis vezes maior que a média da UE e próxima à dos Bálcãs, o foco europeu mais ativo atualmente. Segundo estimativas oficiais, quase um habitante em cada cinco moradores de Estocolmo possui anticorpos, uma proporção mais alta que a de outros países, apesar do fato de a Suécia sempre ter negado a busca da imunidade coletiva.

Em uma entrevista ao Estadão em 8 de maio, o epidemiologista chefe do país, Anders Tegnell, sustentou que 25% estavam imunes em Estocolmo e rebateu críticas ao modelo adotado no país. “Já temos algo como 25% por cento da população imune, o que significa que atravessamos boa parte do caminho”, disse na ocasião.

Para a Agência de Saúde Pública, que direciona a estratégia do país, esse aumento de novos casos se deve, sobretudo, ao aumento do número de testes realizados. "Se você aumentar o número de testes, encontrará mais casos", disse o epidemiologista Anders Wallensten numa declaração semelhante ao que Donald Trump já disse nos Estados Unidos e foi muito criticado.

Mas, diferentemente do caso americano, a Suécia tem argumentos para afirmar que a epidemia não dispara em seu território. Em primeiro lugar, porque as mortes e hospitalizações diminuem. E, em segundo, porque a proporção de casos positivos entre os examinados também está caindo (de 12% em junho para 6% em meados de julho).

Sem máscaras

Diferentemente do que aconteceu na maioria dos países europeus, a Suécia não confinou sua população e preferiu manter abertas escolas para crianças menores de 16 anos, além de cafés, bares e restaurantes. A máscara, praticamente invisível por meses nas ruas de Estocolmo, não se tornou obrigatória praticamente em nenhum local público.

As autoridades, que proibiram concentrações de mais de 50 pessoas e visitas a casas de repouso, pediram responsabilidade: distância segura, aplicação estrita das regras de higiene e isolamento em caso de sintomas. Somente no início de junho testes em grande escala foram implementados.  

Em 31 de maio, o país registrava 31.160 casos. Em 15 de julho, esse número quase dobrou, chegando a 76.492. Ao mesmo tempo, o número de mortes subiu apenas 20%, chegando a 5.572, número consideravelmente superior ao saldo de outros países nórdicos. Diante dessa explosão de novos casos, a Organização Mundial da Saúde classificou a Suécia entre os países com "forte ressurgimento" de casos no final de junho, uma informação criticada pelas autoridades suecas.

O epidemiologista Anders Tegnell, rosto da estratégia sueca, se referiu a uma "interpretação incorreta" dos dados. A Agência de Saúde Pública defendeu várias vezes que esse aumento é essencialmente composto por casos leves, que teriam passado despercebidos anteriormente.

Para Karin Tegmark Wisell, outra funcionária da Agência de Saúde Pública, a queda dos casos graves seria o resultado de uma melhor adaptação da sociedade para proteger as pessoas vulneráveis do vírus. "As pessoas aprenderam a identificar a doença, a manter distância e também a proteger melhor os grupos de risco", disse.

Apesar do fato de muitos países terem fechado as portas aos visitantes suecos, o país nórdico continua a defender sua abordagem, enfatizando que os confinamentos ordenados em outros lugares não podem ser mantidos a longo prazo. Segundo Antoine Flahault, diretor do Instituto de Saúde Global da Universidade de Genebra, o erro da Suécia talvez não tenha sido tanto sua política de não confinamento, mas sua lentidão na intensificação de testes.  

"O que é realmente lamentável para a Suécia é que ela não combinou essa política ambiciosa com testes em massa", disse, observando que o número de mortes na Suécia ainda está acima da média europeia. / AFP

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