Chandan Khanna/ AFP
Chandan Khanna/ AFP

Número de detenções na fronteira entre EUA e México dobra e Biden enfrenta crítica até de aliados

Nesta terça, governo disse esperar que as chegadas de imigrantes atinjam o pico dos últimos 20 anos em meio às dificuldades para acolher menores que viajam sozinhos

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 10h00

WASHINGTON - O número de detenções na fronteira dos Estados Unidos com o México praticamente dobrou nos últimos cinco meses, em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês). Entre outubro de 2020 (quando começa o ano fiscal americano) e fevereiro de 2021, foram 396 mil imigrantes apreendidos, contra 201.600 de outubro de 2019 a fevereiro de 2020.

O número de crianças desacompanhadas que fazem parte desse grupo passou de 17.100 para 29.700 - cerca de 400 por dia - nos mesmos períodos. No total, a Patrulha de Fronteira dos EUA deteve 100.441 mil migrantes na fronteira do México só em fevereiro, o décimo mês consecutivo de aumento. Pessoas que viajam em família passaram de 7.064 para 18.945, um aumento de 168%, entre janeiro e fevereiro, enquanto as apreensões de menores desacompanhados aumentaram de 5.694 para 9.297, 63% a mais.

O aumento é causado em parte pelas expectativas causadas entre os potenciais imigrantes pela reversão das políticas antimigratórias do ex-presidente Donald Trump, incluindo a que obrigava os solicitantes de asilo a esperarem o exame dos seus casos no México. Essa reversão contribui para uma corrida sem precedentes à fronteira. Além disso, especialistas do Centro de Pesquisas Pew apontaram outros fatores, como os danos econômicos causados pela pandemia do coronavírus e desastres naturais na América Central, região de origem de muitos emigrantes com destino aos EUA.

O deputado Henry Cuellar, um democrata moderado do Texas cujo distrito faz fronteira com o México, não está feliz com a forma como a equipe do presidente Joe Biden respondeu à onda de imigrantes que tentam entrar nos Estados Unidos. "Seu pessoal precisa fazer um trabalho melhor de ouvir aqueles de nós que já fizeram isso antes", disse ele na segunda-feira.

O deputado Kevin McCarthy, o principal republicano da Câmara, que fez uma viagem à fronteira na segunda-feira para criticar a abordagem de Biden, foi ainda mais ácido."Não há outra maneira de chamar isso além de uma crise na fronteira de Biden", disse McCarthy (Califórnia) durante uma visita a um centro de processamento de migrantes em El Paso.

E Neha Desai, uma advogada de imigração que recentemente visitou um local de detenção, disse que embora as condições lá tenham melhorado muito desde a era Trump, "é inaceitável que as crianças passem dias a fio em instalações dramaticamente superlotadas".

Quase dois meses após o início de seu primeiro mandato, Biden enfrenta uma crescente  turbulência política provocada pela crise na fronteira e está atraindo críticas de todo o espectro político. Os democratas de centro estão nervosos com os ataques daqueles que os consideram "brandos com a segurança das fronteiras". Liberais e ativistas da imigração estão alertando sobre como os migrantes são tratados. E os republicanos estão cada vez mais preparando as bases para ataques centrados na imigração nas eleições de meio de mandato.

"Os republicanos vão se virar e usar isso como uma arma política contra os democratas - que somos fracos na fronteira, não estamos fazendo o suficiente, estamos deixando todo mundo entrar", disse Cuellar em uma entrevista. "Tenho alertado o partido e o governo: não deixe isso sair do controle, porque tudo o que você vai fazer é dar um problema para os republicanos explorarem".

As prisões e detenções na fronteira durante os últimos meses da presidência de Trump atingiram os níveis mais altos em uma década, mas as travessias ilegais dispararam desde que Biden assumiu o cargo.

Nesta terça-feira, o governo americano disse esperar que as chegadas de imigrantes alcancem em breve o pico dos últimos 20 anos, em meio às dificuldades para acolher os menores que viajam sozinhos. Alejandro Mayorkas, chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS), primeiro latino e imigrante a ocupar o cargo, atribuiu o aumento "à pobreza, aos elevados níveis de violência e à corrupção" em México, Guatemala, El Salvador e Honduras.

"Estamos no processo de registrar mais pessoas na fronteira Sul do que nos últimos 20 anos", disse, em comunicado. "Isso não é novo. Vivenciamos aumentos da migração antes: em 2019, em 2014 e antes disso também. Desde abril de 2020, a quantidade registrada na fronteira Sul não para de aumentar."

"Nós reconhecemos isso como um problema. Estamos focados em abordar isso ", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, a repórteres na segunda-feira. O governo Trump, disse ela, "nos deixou um sistema desmontado e impraticável".

Não está claro se os eleitores verão as coisas dessa forma. Trump demonstrou que a imigração pode ser uma questão explosiva que desequilibra o cenário político, sugerindo que pode ser uma ameaça real para um presidente com altos índices de aprovação. E o dilema é maior porque muitos que cruzam a fronteira são menores.

Biden se comprometeu a reverter as políticas anti-imigrantes de Trump, e os traficantes de pessoas capitalizaram isso em seus esforços de marketing. O governo Biden se esforçou para desmentir que as fronteiras estão abertas e declarou que a fronteira está fechada e que qualquer pessoa que a atravesse não será permitida - mas essas declarações não refletem inteiramente a realidade.

A aprovação de Biden está alta por causa de seus esforços para frear a pandemia, e por causa do pacote de socorro econômico de US$ 1,9 trilhão. Isso deixou os republicanos lutando para encontrar uma questão potente para tentar retomar a Câmara e o Senado em 2022.

Muitos republicanos acreditam que a imigração pode ser esse tópico. Nos últimos dias, os líderes do partido mudaram seu foco para a fronteira, culminando com a viagem de McCarthy para lá com uma delegação de republicanos da Câmara. Em uma entrevista coletiva, eles argumentaram que o enorme fluxo de migrantes apresenta riscos à segurança e pode piorar a pandemia, ecoando a mensagem de Trump.

"A segurança de nossa nação e de nossa fronteira é, antes de mais nada, responsabilidade de nosso presidente", disse McCarthy. "Vim aqui porque soube da crise. É mais do que uma crise - isso é de partir o coração."

Os líderes republicanos dizem que a segurança na fronteira é um dos motivadores mais poderosos para sua base partidária e um tópico que, se apresentado no tom certo, pode atrair também os eleitores indecisos dos subúrbios.

Muitos estrategistas do Partido Republicano acreditam que o caminho de volta às maiorias no Congresso passa por distritos suburbanos moderados, onde os democratas obtiveram grandes ganhos, impulsionados por uma reação contra o estilo e a retórica de Trump. Com Biden no cargo, eles esperam poder ter como alvo as políticas democratas sem a distração das táticas heterodoxas de Trump.

O Comitê Nacional Republicano do Senado recentemente encomendou uma pesquisa que mostra um terreno favorável aos políticos do partido quando se trata de imigração.

"Eles foram negligentes", disse o senador Rick Scott, republicano da Flórida, sobre o governo Biden. "É ruim para o país não ter uma fronteira segura."

Biden reverteu algumas das políticas de Trump usando ordens executivas, ao mesmo tempo em que interrompeu a construção do muro da fronteira, restringindo as deportações e permitindo a entrada de mais requerentes de asilo.

Funcionários do governo na segunda-feira pediram paciência e enfatizaram o quanto as políticas de Trump, incluindo o corte dos canais legais de imigração e financiamento regional, afetaram o que eles puderam fazer desde o início. Para refutar os ataques políticos, eles planejam sublinhar a natureza abrangente de sua abordagem de fronteira e estão destacando seu compromisso com a segurança das crianças migrantes. Mas eles admitem que vai demorar.

Autoridades do governo Biden foram advertidas por meses de que movimentos repentinos ao longo da fronteira seriam arriscados, visto que a miséria econômica da América Central se agravou com a pandemia. No entanto, o novo governo não parecia estar preparado para as consequências de uma fiscalização mais flexível e agora está correndo para adicionar espaço para abrigos, pessoal e recursos para manter o ritmo.

Enquanto a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) continua a usar uma ordem de saúde pública da era Trump conhecida como Título 42 para devolver rapidamente a maioria dos migrantes adultos solteiros ao México, a administração Biden suspendeu a prática para adolescentes e crianças. Desde então, seus números mais do que triplicaram, para cerca de 500 por dia.

O governo Biden continua a tratar a crise como uma questão de falta de capacidade par abrigar imigrantes. A CBP está pensando em adicionar locais para barracas em Yuma e Tucson, por exemplo, para diminuir a superlotação nas estações de fronteira no Arizona, de acordo com um oficial com conhecimento dos planos que falou sob condição de anonimato.

Isso vem com seus próprios desafios políticos, incluindo potencial resistência das comunidades que não querem imigrantes sem documentos em sua área. Cuellar, como muitos outros, disse que a retórica de Biden foi fortemente responsável pelo influxo de migrantes. Na semana passada, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador disse que o novo presidente dos EUA despertou esperanças em muitos centro-americanos que buscam imigrar ou se reunir com seus entes queridos que já estão nos EUA. "Eles o veem como o presidente dos imigrantes", disse López Obrador aos repórteres.

Isso ilustra o ponto crucial do dilema de Biden: a promessa de uma política de imigração mais gentil e humana foi fundamental para sua campanha - mas essa mesma mensagem gerou um influxo que o governo está achando difícil de controlar.

"Quando você entrega mensagens confusas, os imigrantes e traficantes de pessoas ouvem o que querem ouvir", disse Alan Bersin, que atuou como comissário do CBP durante o primeiro mandato do presidente Barack Obama. "Eles estão dizendo que a fronteira não está aberta - mas, na verdade, para crianças desacompanhadas e famílias com crianças menores de 6 anos, a fronteira está aberta".

Alguns ativistas dizem que o governo Biden enfrentou dificuldades e deveria ter tempo para criar um sistema mais eficaz. "Acho que o governo Biden está adotando uma resposta emergencial", disse Arturo Vargas, presidente-executivo da Associação Nacional de Funcionários Eleitos e Nomeados Latinos. "Eles estão lidando com o que restou do governo anterior, que era uma situação de crise".

Desai, um advogado do National Youth Law Center que representa crianças migrantes, pôde visitar uma barraca na semana passada em Donna, Texas, que está lotada além da capacidade. A instalação não é comparável ao depósito da Patrulha de Fronteira, cujos cercados de arame foram denunciados como jaulas em 2018, disse Desai. Mas ela ainda tem preocupações.

"O que vimos nos preocupou profundamente, mas acho que compartilhamos os mesmos objetivos do governo Biden", acrescentou. "Ninguém quer ver essas crianças com fome, apavoradas e separadas de sua família."

Ken Wolfe, porta-voz da Administração para Crianças e Famílias do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, confirmou na segunda-feira que a agência havia aberto um site de "Entrada de Emergência" em Midland, Texas, com assistência da Agência Federal de Gerenciamento de Emergências, equipes da Cruz Vermelha americana, empreiteiros privados e funcionários federais, Wolfe disse em um comunicado.

Muitos democratas liberais expressaram preocupação sobre como as crianças estão sendo tratadas, mesmo reconhecendo a diferença em relação aos anos de Trump. "O governo e o Congresso devem priorizar melhores moradias para essas crianças enquanto seus casos de asilo estão sendo julgados", disse o deputado Ro Khanna, democrata da Califórnia.

Alguns democratas estão olhando para as eleições de meio de mandato, nas quais o debate sobre a imigração provavelmente terá um papel central, e nas quais os candidatos enfrentarão um conjunto desordenadamente complexo de ventos cruzados políticos quando se trata da fronteira.

Os democratas reconhecem que precisarão lidar com as sensibilidades em estados como Pensilvânia e Ohio, que abrigam muitos eleitores brancos da classe trabalhadora que responderam calorosamente à plataforma econômica protecionista de Trump e à retórica da imigração linha-dura em 2016.

"Você tem que ter certeza de não pular a segurança da fronteira, porque é um problema que preocupa as pessoas", disse o senador Robert P. Casey Jr., democrata da Pensilvânia e aliado próximo de Biden. "Às vezes, os democratas chegam a parte da reforma e parte da legislação, e eles meio que ignoram as preocupações que as pessoas têm sobre a segurança das fronteiras."

Biden recuperou vários dos estados do Cinturão da Ferrugem em que Trump ganhou em 2016, incluindo a Pensilvânia. Mas sua vitória nacional veio com sinais preocupantes para seu partido, já que Trump superou as expectativas no sul da Flórida e no Vale do Rio Grande, no Texas.

Isso alimentou preocupações entre os democratas sobre sua capacidade de chegar aos eleitores latinos. O próprio Biden enfrentou críticas durante sua campanha por não fazer mais divulgação nas comunidades latinas.

Essas complicações políticas pesam sobre os esforços do partido para aprovar um projeto de lei abrangente de reforma da imigração no Congresso com um caminho para a cidadania para imigrantes sem documentos.

A Câmara planeja avançar com uma legislação adicional esta semana que forneceria proteção aos imigrantes sem documentos trazidos para o país quando crianças e abriria caminhos para que os trabalhadores rurais indocumentados obtivessem green cards. Mas um Senado dividido levantou dúvidas sobre se tal projeto se tornará lei.

Do contrário, alertam os ativistas, pode haver uma reação em 2022 - assim como os republicanos alertam para uma reação na outra direção."Há uma oportunidade para que algo aconteça", disse Vargas, que lembrou as promessas não cumpridas de Obama sobre a imigração. "Este é um teste para o caráter americano."/ W.Post, NYT e AP

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