Número de estupros durante seqüestros cresce no Haiti

As violentas quadrilhas haitianas cada vez mais usam o estupro para aterrorizar reféns e outras vítimas, segundo autoridades e profissionais de saúde. As agressões sexuais contra as mulheres parecem ter se tornado uma característica dos seqüestros que fazem parte da onda de criminalidade que surgiu depois da rebelião popular que depôs o presidente Jean-Bertrand Aristide, em 2004. Myriam Merlet, funcionária do Departamento de Assuntos Femininos, disse que quase metade das mulheres seqüestradas sofre estupros. "É difícil dizer exatamente qual o motivo desses estupros, mas os estupros foram sempre usados no Haiti como arma para repressão social e política", afirmou ela, lembrando que no passado, esquadrões da morte do governo recorriam a esse método. A presença das forças das ONU nas favelas de Porto Príncipe parece ter diminuído o número de seqüestros, mas fontes do setor de saúde dizem que os estupros estão aumentando. Médicos estimam que mais de 800 mulheres foram violentadas entre fevereiro de 2006 e fevereiro de 2007 só na capital. Todo o país tem 8 milhões de habitantes. A ONG Médicos Sem Fronteira, que opera três hospitais em Porto Príncipe, atendeu 70 vítimas de estupro no primeiro bimestre. "O número de mulheres estupradas aumenta constantemente nos últimos meses", disse Maria Guevara, coordenadora médica do Médicos Sem Fronteira. Segundo ela, em setembro houve apenas cinco casos - quantidade que saltou para 26 em janeiro e 44 em fevereiro. Joanne, 25 anos, que vive no bairro de Delmas, na capital, disse ter sido seqüestrada na noite de 17 de janeiro por dois homens que arrombaram a porta de sua casa e a levaram numa camionete. "Passei três dias presa por eles, que me estupraram várias vezes e exigiram 50 mil dólares da minha tia com quem falaram por telefone", disse Joanne. "Quando perceberam que minha tia não conseguiria encontrar mais dinheiro, aceitaram me soltar por 2.000 dólares." O governo do presidente René Préval, eleito há pouco mais de um ano, promete combater o problema dos crimes sexuais. Mas as fontes nos hospitais dizem que muitos estupradores ficam impunes porque a maioria das vítimas se recusa a ir à polícia e provavelmente não conta a violência nem a seus maridos.

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