Número de mortos pode chegar a 200 em Mianmá, diz oposição

Oficialmente, cifra é bem menor; militares ampliam repressão, fecham cibercafés e já controlam ruas de Rangum

Associated Press e Efe,

28 de setembro de 2007 | 14h15

Com uma estratégia de fechar mosteiros budistas e serviços de internet e dispersar manifestantes a tiros, a junta militar que governa Mianmá (antiga Birmânia) parece ter reconquistado nesta sexta-feira, 28, o controle das ruas de Rangum, a maior cidade do país. Segundo o premiê britânico, Gordon Brown, a repressão no país pode ter deixado muito mais vítimas do que o anunciado oficialmente pela junta militar.  Veja também:Satélites comprovam abusos do Exército ONU convoca sessão emergencial para MianmáJornalista japonês é morto por policiais Entenda a crise e o protesto dos monges Dissidentes cibernéticos driblam censura  População apóia protesto dos monges Feridos temem prisão em hospitais, diz ONGChefe da Junta Militar comanda repressão Desafiador diante da crescente condenação internacional, o governo militar informa oficialmente que dez pessoas morreram desde que as manifestações diárias que vinham sendo lideradas por monges budistas foram caladas a força pela polícia. Segundo diplomatas estrangeiros em Mianmá, no entanto, esse número pode ser bem maior. Grupos dissidentes colocam a cifra em 200 mortos.  Em Londres, o premiê Gordon Brown corroborou as informações dos dissidentes. Segundo ele, o "a perda de vidas na Birmânia é de longe muito maior do que a que está sendo relatada".  De acordo com a rede americana CNN, a polícia abriu fogo contra os manifestantes, provocando fatalidades. Uma testemunha citada pela emissora afirma ter visto mais de 35 corpos espalhados pelas ruas da cidade. Muitos birmaneses mostraram-se preocupados com a possibilidade de que os recentes protestos pró-democracia não durem mais do que um mês.  A maior manifestação em Rangum nesta sexta-feira reuniu cerca de 2 mil pessoas próximo ao templo de Pagoda, no centro da cidade. Munidos apenas com insultos e vaias, os manifestantes enfrentaram os soldados, armados com escudos e rifles automáticos.  Com a aproximação da multidão, os soldados abriram fogo para o alto, dispersando os manifestantes. Os que continuaram avançando foram espancados ou levados presos.  "Banho de sangue de novo! Banho de sangue de novo! Por que os americanos não vêm nos ajudar? Por que a América não nos salva?", questionou um morador da cidade, que assistia à dispersão dos manifestantes.  Mosteiros e internet sitiada Rangum amanheceu com a segurança reforçada em pontos estratégicos da cidade e com pelo menos cinco mosteiros cercados para impedir que os monges budistas saíssem e voltassem a liderar as manifestações. As autoridades também cortaram as conexões com o exterior das linhas telefônicas e suspenderam os serviços de internet para impedir que sejam divulgadas informações sobre a repressão das manifestações em outros países. Câmaras fotográficas e telefones celulares estão sendo confiscados. O Ministério da Defesa birmanês, através de seu departamento de guerra cibernética, reforçou nesta sexta-feira seu controle na internet, bloqueando servidores, atacando com vírus blogs de dissidentes e usando agentes para buscar na rede internautas opositores ao regime, segundo testemunhas. As autoridades ordenaram anteriormente o fechamento de todos os cibercafés do país. O departamento de guerra cibernética está vinculado ao Escritório de Serviços Informáticos do Ministério da Defesa e tem como função, entre outras, de vigiar as conversas telefônicas e os e-mails de membros da oposição. Conselho de segurança Fora de Mianmá cresce a preocupação com a população civil. O Conselho de Direitos Humanos da ONU anunciou que convocará uma sessão de urgência na próxima semana para debater a situação do país. O enviado especial da ONU para Mianmar, Ibrahim Gambari, chegou nesta sexta-feira a Cingapura, de onde seguirá para Rangum, no sábado. O governo birmanês finalmente concedeu um visto para que o funcionário entre no país. Brown defendeu que os militares permitam que Gambari se encontre com a líder do movimento democrático birmanês, Aung San Suu Kyi, que está desde 2003 em prisão domiciliar. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) manifestou sua preocupação com os jovens birmaneses, após os protestos ocorridos nos últimos dias e a forte repressão exercida pela junta militar. Em entrevista coletiva, a porta-voz do Unicef, Veronique Taveau,disse que "40% dos cidadãos de Mianmar têm menos de 18 anos, portanto nos preocupa especialmente seu destino, assim como o das mulheres e o dos menores". O ex-presidente da República Tcheca Vaclav Havel criticou a falta de reação da comunidade internacional perante a violência do regime birmanês. Havel, que durante décadas foi perseguido como dissidente do regime comunista em seu país, advertiu que o futuro de 50 milhões de birmaneses está sendo decidido. Mianmá é governada pelos militares desde 1962, e não há eleições parlamentares no país desde 1990, quando o partido oficial perdeu para uma coalizão opositora liderada pela Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, num pleito cujo resultado jamais foi reconhecido pelos generais.

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