AP/Rodrigo Abd
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Número de mortos por terremoto no Equador chega a 646

Uma semana após a tragédia, o caos ainda reina na cidade de Pedernales

Maurício de Azevedo Ferro, Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

23 Abril 2016 | 17h35

Uma semana após o terremoto de 7,8 graus que abalou o Equador,  a situação ainda era caótica. O tremor deixou, segundo dados divulgados neste sábado, 646 mortos e 12.492 feridos. Ainda há 113 desaparecidos e mais de 26 mil pessoas ficaram desabrigadas. 

"Essa vai virar uma cidade fantasma. Só tem mortos; o cheiro é putrefato", diz equatoriana María José Benítez, de 28 anos, que está ajudando como voluntária na turística cidade de Pedernales.

"Muitos voluntários vieram e não aguentaram o choque de ver corpos pela metade e construções desabadas. Eu, por exemplo, há quatro dias durmo pouco e como apenas atum enlatado", comentou na quarta-feira. "Somente às 16 horas fiz a primeira refeição do dia. Tenho feito só duas. E, pela primeira vez desde que estou aqui, comi carne numa quentinha que trouxeram."

O pai de Majo, como é conhecida, foi um dos muitos afetados pelo terremoto. Perdeu a casa em que morava havia 15 anos. "Estava desesperada. Ele me falava que estava bem, mas eu não acreditava", conta, ao relembrar da viagem que "pareceu infinita". Num trajeto que dura, normalmente, quatro horas, partindo da capital, Quito, levou 12 horas. Para chegar, pegou carona num caminhão de grande porte que carregava doações.

A longa jornada já era uma preparação para os dias que viriam. "Acordo às 6 horas e às 6h30 já estou na minha brigada, na ajuda médica. Banho nós tomamos uma vez por dia com galões de água. E dormimos na rua mesmo. Assim, pelo menos, não tem risco de cair nada na gente."

Desde o dia 16, novos tremores foram registrados e o número de feridos continua a crescer. "Tem muita gente que não quer abandonar certos locais para resgatar pertences que restaram. Então, caem escombros nelas", explica. Os problemas respiratórios também já começam a aparecer, em decorrência do pó que sobe das máquinas que levantam os destroços.

"O que ainda não foi derrubado, será. Não tem mais nada que preste. O que ficou em pé vão ter de demolir. Não tem como morar aqui. A cidade acabou. Em Pedernales, não tem mais nada. Não tem comércio e não tem como trabalhar. Tudo foi saqueado. Agora, as pessoas ajudando a quem perdeu tudo."

Não bastassem as dificuldades impostas por causas naturais, outros problemas assombram a recuperação da cidade. "Tem muita gente que tira proveito. Não tem fiscalização de quantas coisas as pessoas pegam. Há quem venha pegar 20 colchões para uma casa de cinco pessoas. Não tem necessidade."

Outra questão é a falta de trabalho em equipe do Ministério da Saúde e da Cruz Vermelha. As instituições pouco se relacionam, de acordo com Majo. "É como se quisessem se mostrar e virar heróis nesse momento de desastre", critica.

Já a mobilização popular e o volume de doações (nacionais e internacionais) são um ponto forte. "Só faltam alguns remédios específicos, mas são muito poucos", relata. "Há muitos voluntários. Centenas deles. Tanto do exterior, quanto daqui. É emocionante ver o povo ajudando. Estou muito cansada, mas é gratificante."

A equatoriana tem prazo de permanência definido. Ela precisa voltar ao trabalho nesta segunda-feira em Quito.  É um período de mais de uma semana em total imersão com uma tragédia que mudou a vida de milhares de equatorianos e fez render experiências únicas.

"Tem pessoas que vêm chorando de alegria pela ajuda. Na quarta-feira achei um senhor de 78 anos. Ele estava sozinho, não tinha família, a casa tinha caído e estava desidratado. Consegui roupa para ele, um lar e alguém para tomar conta. Depois surgiu uma neta que morava a 12km de distância e fui levá-lo até ela", recorda. "Tem muitos casos legais. Tem crianças que saíram do meio do nada e são sobreviventes... Cada coisa emociona mais do que a outra."

Totalmente voltada ao caos que se instalou no seu país, Majo só consegue fazer contato com o restante do mundo pelo celular, por meio do aplicativo WhatsApp, que foi liberado pelas operadoras. Mesmo assim, a bateria precisa ser poupada, porque, para carregá-la, é preciso esperar o fim do dia e utilizar o carro. Não há recursos para acompanhar o que acontece fora de Pedernales.

"Não temos luz nem notícias. O que se fala disso tudo aí no Brasil?"

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