Lynne Sladky/AP
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Número de novos casos de coronavírus sobe em 39 Estados dos EUA 

Total de notificações tem alta de 21% em 14 dias e Casa Branca defende publicamente a estratégia da ‘imunidade de rebanho’

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2020 | 19h12
Atualizado 15 de outubro de 2020 | 20h36

WASHINGTON - Um total de 39 dos 50 Estados americanos (78%) registrou uma tendência de alta nos casos de covid-19, em níveis mais altos desde agosto. Os novos contágios têm sido notificados em parte do nordeste, centro-oeste e oeste do país. Ao mesmo tempo, a Casa Branca discute como saída para a pandemia a liberação das atividades para que o país consiga a imunidade de rebanho, método considerado “antiético” pela Organização Mundial da Saúde (OMS)

De acordo com dados do Covid Tracking Project, um banco de dados colaborativo, o total de novos casos saltaram 21% em 14 dias e na terça-feira chegaram a 54.512 em 24 horas. As internações pela doença também não param de subir. De acordo com a plataforma, 36.051 pessoas deram entrada em hospitais do país com covid-19 na noite de terça-feira, o maior número desde 29 de agosto. 

Mesmo com os testes sendo insuficientes em grande parte do país, pelo menos 16 Estados contabilizaram mais casos novos no período de 7 dias que terminou na segunda-feira do que em qualquer outro de uma semana da pandemia. 

Em Wisconsin, onde estão 10 das 20 áreas metropolitanas do país com as taxas mais altas de casos recentes, as equipes estão preparando um hospital de campanha em um recinto de exposições e feiras. “Embora estejamos esperançosos de poder aplainar a curva o suficiente para nunca ter de usar as instalações, os moradores de Wisconsin estão com medo”, escreveu o governador Tony Evers, aos líderes do legislativo local nesta semana.

Com números em alta, a Casa Branca recebeu na segunda-feira cientistas independentes que defendem que o vírus deve se espalhar a “taxas naturais”. Os especialistas tiveram uma audiência com o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, e com o médico neurorradiologista Scott Atlas, que tem se tornado um importante conselheiro do presidente Donald Trump para tratar da resposta do governo à pandemia.

O republicano tem mostrado irritação com os danos econômicos das paralisações impostas para controlar a pandemia e pressionou Estados a reabrir – ele chegou até ameaçar o bloqueio de verbas federais para os governos locais que não reabrissem suas escolas. Para Azar, a tese apresentada pelos especialistas na segunda-feira é “um forte reforço da estratégia da Administração Trump de proteger os vulneráveis ao abrir escolas e locais de trabalho”.

Ao abraçar a tese da imunidade de rebanho, Trump tem se afastado dos conselhos dos principais médicos de seu próprio governo, como a coordenadora da força-tarefa do coronavírus da Casa Branca, Deborah Birx, e de Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas.

Já os três especialistas da audiência de segunda-feira, antes desconhecidos e apartados das discussões sobre a resposta à pandemia, Martin Kulldorff, epidemiologista da Universidade de Harvard, Sunetra Gupta, epidemiologista da Universidade de Oxford, e Jay Bhattacharya, médico e economista de saúde na Stanford Medical School, agora são citados como referências nas entrevistas coletivas da Casa Branca.

Para o diretor do Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), Francis Collins, a estratégia de deixar que o vírus se espalhe em um país que já tem mais de 216 mil mortos pela doença é “marginal”. “O que me preocupa é que isso seja apresentado como se fosse uma importante visão alternativa sustentada por um grande número de especialistas da comunidade científica. Não é verdade”, disse Collins. “Este é um componente marginal da epidemiologia. Isso não é ciência convencional. É perigoso. Ele se encaixa nas visões políticas de certas partes de nosso confuso sistema político.”

Na segunda-feira, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que “nunca na história da saúde pública a imunidade coletiva foi usada como estratégia para responder a uma epidemia, muito menos a uma pandemia. Isso é científica e eticamente problemático”. / NYT, WP e AFP

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