Air Force/Master Sgt. Donald R. Allen/Handout via REUTERS (arquivo)
Air Force/Master Sgt. Donald R. Allen/Handout via REUTERS (arquivo)

Número de pessoas que precisam ser retiradas do Afeganistão é incerto

Mais de 82 mil pessoas foram retiradas do Afeganistão, mas oficiais americanos relutam em estimar total exato de potenciais retirados

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 08h00

Mais de 82 mil pessoas foram retiradas do Afeganistão até a manhã de quarta-feira, 25, e quase 6.000 soldados americanos estão protegendo o aeroporto internacional de Cabul, a capital do país asiático.

Além disso, voos americanos estão partindo a cada 45 minutos, e o governo de Joe Biden forneceu uma série de atualizações sobre o resgate aéreo de americanos, afegãos e outros desde 14 de agosto, quando o Taleban cercou e tomou Cabul.

Mas as autoridades dos Estados Unidos estão relutantes em dar uma estimativa do número mais importante: afinal, quantas pessoas precisam ser resgatadas?

Essa conta nunca foi tão importante, já que o governo americano se prepara para encerrar as retiradas e seus militares começarão a deixar o Afeganistão.

Na terça, Biden confirmou o plano de remover todas as tropas americanas até 31 de agosto, mas deixou espaço "para ajustar o cronograma, caso necessário".

As autoridades dizem acreditar que milhares de americanos continuam no Afeganistão, incluindo pessoas que estão muito longe de Cabul, sem uma maneira segura e rápida de chegar ao aeroporto. Dezenas de milhares de afegãos que trabalharam para o governo americano nos últimos 20 anos — e têm direito a vistos especiais — estão desesperados para partir.

Especialistas em refugiados e reassentamento avaliam que pelo menos 300 mil afegãos estão em perigo iminente de serem visados pelo Taleban por se associarem aos americanos e às iniciativas dos EUA para estabilizar o país.

Biden disse na terça à noite, na Casa Branca, que líderes mundiais concordaram em "continuar nossa cooperação estreita para retirar as pessoas da maneira mais eficiente e segura possível". "Estamos atualmente em um ritmo para terminar (a retirada]) até 31 de agosto", disse o democrata. "Quanto mais cedo conseguirmos, melhor."

Mas outras autoridades graduadas dos EUA duvidam que a retirada seja concluída nesta data.

O governo dos EUA não sabe o número de americanos no Afeganistão?

Mais ou menos. A embaixada americana em Cabul está contatando americanos que estariam no país e lhes oferecendo passagem segura para o aeroporto de Cabul, de onde devem partir. Mas os alertas só vão para americanos que informaram sua localização ao governo antes da queda de Cabul ou na semana seguinte.

A situação levou as autoridades americanas a verificarem bases de dados que podem estar muito desatualizadas ou com um número menor que o real de cidadãos americanos no país. Uma autoridade do governo Biden disse que a maioria dos americanos no Afeganistão tem dupla nacionalidade e pode não ter se registrado na embaixada ou informado o governo americano de sua localização.

"É nossa responsabilidade encontrá-los, e estamos fazendo isso hora a hora", disse Jake Sullivan, assessor de segurança nacional de Biden, na segunda-feira (23). "Nos dias que restam, acreditamos que teremos meios para retirar os cidadãos americanos que quiserem deixar Cabul."

Mais de 4.000 cidadãos americanos e seus parentes foram retirados até agora, disse na terça uma autoridade do Departamento de Estado. Restam milhares: um dia antes, uma autoridade do Congresso estimou o número total de cidadãos americanos ainda no Afeganistão em 10 mil.

Não ficou claro quantos dos 4.000 que já foram retirados estavam incluídos nessa conta.

Por que tem sido tão difícil avaliar quem se qualifica a um visto especial de imigrante (siv, na sigla em inglês)? Os Estados Unidos não têm registros de pagamentos ou listas de pessoal que acompanhem isso?

Primeiro, um pouco da história do chamado programa SIV. Em 2009, o Congresso aprovou o refúgio especial para os afegãos que trabalharam para os militares americanos e a embaixada dos EUA como intérpretes, tradutores, assessores e em outras posições durante a guerra e que poderiam ser visados pelo Taleban ou outros extremistas por terem ajudado os EUA.

A Comissão Internacional de Resgate estima que haja dezenas de milhares de afegãos que se qualificam a vistos especiais. Mas só cerca de 16 mil deles receberam esses vistos desde 2014, e o Departamento de Estado enfrentava um atraso de mais de 17 mil solicitações quando Biden assumiu, em janeiro.

Entre meados de julho e 14 de agosto, o Departamento de Estado retirou cerca de 2.000 afegãos que se qualificaram para vistos. Depois de uma pausa de vários dias na semana passada, enquanto o governo Biden se concentrava em buscar os cidadãos americanos e o pessoal da embaixada, foram retomados os voos para ex-funcionários afegãos.

O primeiro avião carregado de portadores de vistos especiais desde a queda de Cabul partiu da base aérea de Ramstein, na Alemanha, na manhã de segunda-feira, rumo aos Estados Unidos. Um assessor do Congresso disse que o governo identificou cerca de 50 mil solicitantes de vistos especiais, mais suas famílias, com potencial de serem retirados. Mas o assessor disse que muitos mais se qualificam.

Quando os americanos e os detentores de siv forem retirados, a missão terá terminado?

Longe disso. Washington reconhece que há centenas de milhares de afegãos considerados em alto risco de represália pelo Taleban — antigas forças de segurança afegãs, autoridades do governo, jornalistas, juízes, promotores e defensores dos direitos das mulheres, entre outros.

O Departamento de Estado disse ter acelerado suas remessas de afegãos sob alto risco ao Programa de Admissão de Refugiados dos EUA. Mas o programa geralmente exige que os afegãos façam o pedido por meio da agência de refugiados da ONU e aguardem a aprovação — processo que pode levar anos.

Na sexta, 20, o Departamento de Estado planejava aceitar nos EUA até 50 mil afegãos sob situação humanitária condicional, o que significa que ficariam temporariamente instalados em bases militares até que os vistos sejam processados, segundo memorando fornecido por um funcionário do reassentamento.

É possível retirar tantas pessoas a tempo?

É improvável. A missão de retirada deverá se reduzir a um conta-gotas quando os militares americanos saírem do Afeganistão. Sem a proteção dos 6.000 militares americanos em Cabul, a ponte aérea militar vai terminar, e os voos fretados pelo Departamento de Estado vão diminuir e poderão cessar completamente.

Além disso, alguns outros governos disseram que terão pouca opção além de irem embora. O governo Biden está advertindo o Taleban, que quer que a ajuda internacional ao Afeganistão continue, para permitir que os afegãos deixem o país, compromisso que Ned Price, principal porta-voz do Departamento de Estado, disse que "não tem data de expiração".

"Assim, certamente parece razoável — e vamos responsabilizar o Taleban por isso, assim como fará o resto do mundo — que as pessoas que quiserem partir depois da saída dos militares americanos terão a oportunidade de fazê-lo", disse Price na segunda. / THE NEW YORK TIMES

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