Sergio Flores/ The Washington Post
Sergio Flores/ The Washington Post

Número de prisões na fronteira dos EUA com o México atinge recordes históricos

Dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras obtidos pelo The Washington Post mostram que 1,7 milhão de migrantes foram presos tentando ingressar no país pelo México no ano fiscal de 2021

Nick Miroff, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 15h00
Atualizado 20 de outubro de 2021 | 15h55

As autoridades dos Estados Unidos detiveram mais de 1,7 milhão de migrantes ao longo da fronteira com o México durante o ano fiscal de 2021, que terminou em setembro. As prisões pela Patrulha de Fronteira atingiram os níveis mais altos já registrados, de acordo com dados ainda não publicados pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês) obtidos pelo The Washington Post.

As travessias ilegais começaram a aumentar no ano passado, mas dispararam nos meses após a posse do presidente Joe Biden. À medida que as detenções do CBP aumentaram a partir de março, Biden descreveu o aumento como coerente com a migração histórica para o período do ano. Mas os meses mais intensos ocorreram em meio ao calor sufocante de julho e agosto, quando mais de 200 mil migrantes foram presos.

Durante a audiência de confirmação de Chris Magnus, chefe da polícia de Tucson nomeado por Biden para liderar o CBP, na terça-feira, 19, senadores republicanos o pressionaram para caracterizar o aumento do fluxo migratório como uma "crise".

Magnus a chamou de um "desafio significativo", ecoando o termo preferido do governo Biden, acrescentando que "os números são muito altos". Espera-se que a CBP divulgue os dados do ano fiscal de 2021 no final desta semana.

A fiscalização das fronteiras se tornou uma grande responsabilidade política para Biden, e a forma como o presidente lidou com a imigração continua sendo sua pior avaliação em pesquisas de opinião. Ele prometeu na campanha eleitoral tornar os Estados Unidos mais receptivos aos imigrantes, em contraste com o ex-presidente Donald Trump, cuja política de tolerância zero com separação de familiares provocou indignação generalizada em 2018.

Durante a transição dos governos, Biden disse que queria agir com cautela na política de imigração e evitar acabar "com 2 milhões de pessoas" na fronteira.

Uma vez no cargo, Biden rapidamente interrompeu a construção do muro na fronteira, encerrou a política "Permanecer no México" - que fazia os migrantes esperarem pela aprovação de pedidos de asilo em território mexicano -, reverteu as principais restrições de asilo e anunciou uma pausa de 100 dias na maioria das deportações e fiscalização pelo Departamento de Imigração e Alfândega dos EUA.

Autoridades do governo culparam inicialmente as políticas da administração anterior pelo aumento das travessias na fronteira e disseram que as pressões migratórias se intensificaram como resultado das consequências econômicas da pandemia. Muitos migrantes disseram aos repórteres que optaram por fazer a viagem arriscada para o norte, com grande custo e perigo considerável, com a crença de que Biden permitiria que ficassem. Um firme mercado de trabalho nos EUA tornou-se outra atração.

No início deste ano, Biden instruiu a vice-presidente Kamala Harris a abordar as "causas básicas" da migração das nações do Triângulo Norte da América Central - Guatemala, Honduras e El Salvador. Mas a estratégia teve pouco ou nenhum efeito mensurável, e Harris se distanciou das questões de fronteira e imigração em geral.

Os dados mais recentes do CBP indicam que os desafios do governo vão muito além da América Central. O México foi a maior fonte de migração ilegal durante o ano fiscal de 2021, quando a Patrulha de Fronteira prendeu mais de 608 mil cidadãos mexicanos. Isso deixa o governo Biden em uma situação difícil, já que cada vez mais depende do vizinho do sul para apertar a fiscalização e bloquear grupos de caravanas que se dirigem para o norte.

Funcionários de Biden estão em negociações com o México para cumprir ordens de tribunais federais para reiniciar a política "Permanecer no México", exigindo que os requerentes de asilo esperem fora do território dos EUA enquanto seus casos são processados.

O segundo maior grupo era composto de migrantes de fora do México e da América Central, que CBP categorizou como "outros", incluindo haitianos, venezuelanos, equatorianos, cubanos, brasileiros e migrantes de dezenas de outras nações. Eles responderam a 367 mil detenções.

Eles foram seguidos por migrantes de Honduras (309 mil), Guatemala (279 mil) e El Salvador (96 mil).

Mais de 1,3 milhão de migrantes foram detidos ao longo da fronteira sul desde que Biden assumiu o cargo há nove meses, incluindo 192 mil no mês passado, mostram os últimos números do CBP.

Nos anos fiscais entre 2012 e 2020, as prisões na fronteira tiveram uma média de aproximadamente 540 mil. O número de 2021 foi mais de três vezes esse valor.

O fluxo extraordinário produziu uma série de crises para o governo, começando durante a primavera - que ocorre entre março e junho no Hemisfério Norte - com um número recorde de menores desacompanhados cruzando a fronteira, que estavam amontoados ombro a ombro nas tendas da Patrulha de Fronteira.

As travessias de grupos familiares da América Central sobrecarregaram os agentes dos EUA e, em setembro, a chegada repentina de 15 mil imigrantes, em sua maioria haitianos, a um acampamento rústico em Del Rio, no Texas, produziu cenas de caos - com peso político prejudicial para Biden - e mostrou o uso de táticas de fiscalização contestáveis por agentes da Patrulha de Fronteira a cavalo.

Os defensores dos imigrantes que apoiaram a candidatura de Biden irritaram-se com sua presidência recentemente, com vários deles organizando uma paralisação virtual no fim de semana passado durante uma reunião com conselheiros de política da Casa Branca. As propostas de Biden para uma grande reforma da imigração estão paralisadas no Congresso, e os republicanos planejam usar o histórico na fronteira como um porrete nas eleições de midterm do próximo ano.

O governo Biden respondeu às críticas aos números das prisões observando que continua a usar a política de saúde pública do Título 42 para "expulsar" rapidamente a maioria dos adultos que cruzam a fronteira para o México ou seus países de origem.

Dos 1,7 milhão de detidos durante o ano fiscal de 2021, 61% foram expulsos sob o Título 42, mostram os dados do CBP.

As expulsões levaram a um aumento significativo nas tentativas repetidas de travessia de migrantes que foram recusados, de modo que o número de indivíduos distintos levados sob custódia é menor do que o número de prisões registradas. As taxas de reincidência ultrapassaram os 25 por cento nos últimos meses, o dobro dos anos anteriores, ainda de acordo com os dados alfandegários.

A cifra de 1,7 milhão inclui migrantes presos entre os pontos de entrada pela Patrulha de Fronteira, bem como aqueles que tentaram entrar nos Estados Unidos sem autorização por locais de entrada oficiais.

Durante o ano fiscal de 2021, os agentes apreenderam 1,66 milhão de pessoas apenas ao longo da fronteira com o México, mostram os últimos números.

O setor do Vale do Rio Grande foi o mais movimentado no ano passado, com 549 mil apreensões pela Patrulha de Fronteira, seguido pelo setor Del Rio, com 259 mil, que tirou os holofotes de cima de setores historicamente mais movimentados, como El Paso e Tucson.

Os números do CBP mostram quedas nas apreensões de cocaína, heroína e metanfetamina durante o ano passado. Os analistas atribuem a queda neste setor à diminuição do tráfego de veículos nas portas de entrada do país, como resultado de restrições de viagens relacionadas à pandemia, bem como menos intervenções realizadas por agentes de fronteira sobrecarregados.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.