Número de refugiados deve aumentar 40% este ano

Em 2008, 235 mil afegãos deixaram suas casas por causa do conflito com o Taleban ou disputas tribais

Patrícia Campos Mello, CABUL, O Estadao de S.Paulo

19 de agosto de 2009 | 00h00

Já faz quase um mês que Bargi Matal, um distrito encravado nas montanhas do nordeste do Afeganistão, está sob fogo cruzado. Cerca de 500 guerrilheiros do Taleban vieram do Paquistão e estão atacando a base militar americana no local. Os habitantes dos vilarejos de Bargi Matal estão abandonando suas casas para buscar abrigo em outras cidades. E assim engrossam os números de refugiados internos do Afeganistão. Leia o relato da viagem de Patrícia Campos Mello ao Afeganistão em seu blogSegundo estimativas não oficias, o número de refugiados internos no Afeganistão pode subir até 40% este ano. Em 2008, havia 235 mil pessoas que foram forçadas a deixar suas casas por causa da falta de segurança, seja por causa do conflito com o Taleban ou disputas tribais. Na medida em que o conflito se espalha até para regiões anteriormente pacíficas, como o norte e oeste, aumenta o número de refugiados. A situação no Paquistão, onde uma ofensiva do governo contra o Taleban na região do Vale do Swat criou uma onda de 2 milhões de refugiados, também está afetando o Afeganistão. "Levando-se em conta a situação volátil em certas áreas do país, com aumento da insegurança, há possibilidade de aumento no número de refugiados internos", diz Grainne O?Hara, chefe do subescritório de Cabul do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). O problema é que que esses "novos refugiados" vêm se somar às milhares de pessoas que lotam campos ao redor do país, à espera de uma moradia oferecida pelo governo ou um pedaço de terra. Muitos afegãos voltaram do exílio no Irã e no Paquistão após a queda do Taleban, em 2001. Mas alguns perderam suas terras e não podem voltar. Em outras regiões, o conflito acirrou-se e a insegurança impede a volta dos refugiados. Kartenaw, um campo de refugiados em Cabul visitado pela reportagem do Estado no início do mês, era uma antiga garagem de ônibus do governo, que foi transformada em abrigo para 50 famílias. Khanumgul mora em um cômodo com seu marido e os filhos. Ela fugiu de Kapisa por causa de disputas tribais.Já está no abrigo há sete anos, veio após a invasão americana. Mas agora não pode mais voltar para Kapisa, por causa da violência. O marido, que faz bicos como operário em construção, ganha US$ 2 por dia. Mas só acha trabalho uma vez por semana. Ela tem um filho e seis filhas. Nenhuma vai à escola, a um quarteirão do campo. "O pai não quer que elas atravessem a rua para ir à escola", diz. Elas vivem catando garrafas e latas para reciclagem e pedindo esmolas. "Em Kapisa, não poderíamos viver de esmola, está no meio do conflito, ninguém nos daria nada."

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