CRIS BOURONCLE / AFP
CRIS BOURONCLE / AFP

Equador abre corredor humanitário para venezuelanos; 2.500 chegam ao Peru por dia

Governo de Lenín Moreno escolta 35 ônibus com imigrantes que tentam entrar na nação andina antes deste sábado, quando a apresentação de um passaporte - documento que poucos têm acesso atualmente - se tornará obrigatória

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2018 | 11h29

QUITO - O Equador abriu um corredor humanitário para facilitar a passagem de ônibus levando centenas de imigrantes venezuelanos que pretendem chegar ao Peru antes que entre em vigor, no sábado, as restrições para sua entrada nesse país, anunciou o governo.

"São 35 ônibus neste momento no corredor humanitário e vamos continuar até onde for possível", declarou o ministro do Interior, Mauro Toscanini, em Macas, onde ocorre uma reunião ministerial.

O governo de Lenín Moreno decidiu facilitar o transporte dos venezuelanos apesar de ter imposto a necessidade de passaporte na semana passada, uma medida que o Peru vai utilizar a partir das primeiras horas deste sábado.

Toscanini não informou quantos venezuelanos serão levados de ônibus para a localidade fronteiriça de Huaquillas, no sul do país, em viagens de ida e volta com proteção policial. O ministro indicou ainda que, uma vez na fronteira, "a questão de aceitá-los ou não é do Peru" - nos veículos, viajam venezuelanos que não têm passaporte. 

Travessia sofrida

Em um Centro Binacional de Atenção Fronteiriça (Cebaf) em Tumbes, na fronteira entre Equador e Peru, milhares de venezuelanos aguardam horas antes do início da aplicação da norma. Muitos são jovens, alguns com seus filhos.

Várias pessoas caminharam por quase 20 dias, viajaram em precários ônibus rurais ou pediram carona na estrada depois que deixaram para trás seu país em profunda crise.

"Vim para cá 'mochilando' pela Colômbia e Equador, como todos os venezuelanos", contou Edgar Torres, professor de Educação Física de 22 anos de Caracas. Assim como quase todos os companheiros de travessia, ele não tem passaporte ou dinheiro.

No Cebaf, aguardou por 12 horas em uma fila para obter o documento que permitia a entrada no Peru. Fez a primeira refeição em 10 dias quando voluntárias de uma igreja de Tumbes distribuíram sopa de arroz e batatas.

Apesar da odisseia, Torres estava feliz. Ele disse que tinha um contato para um trabalho de pescador em Acapulco, uma enseada próxima a Tumbes, onde espera juntar dinheiro antes de seguir para Lima. No futuro, pretende trazer a mulher e a filha ao país.

O Cebaf tem capacidade para atender 200 pessoas por dia, mas o número superou 2.000 recentemente. Nas últimas semanas, o local registrou a entrada 2.500 venezuelanos por dia, em média. A quantidade disparou com a aproximação da data de exigência do passaporte, medida com a qual o Peru seguirá o exemplo do Equador.

Documento para Poucos

Angelí Vergara, secretária de 22 anos, contou que aguarda há dois anos a emissão do passaporte. Como não recebeu o documento, decidiu viajar para evitar a nova norma.

“Conseguir um passaporte hoje, na Venezuela, é impossível para a maioria”, disse o administrador de empresas Edgar Romero, de 41 anos. Há um ano, ele decidiu se mudar com a mulher e os dois filhos para Buenos Aires, pois os passaportes dos quatro estavam prestes a vencer e tinha medo de não conseguir outros.

“Falta matéria-prima para fabricar documentos. Demoram uma eternidade para marcar entrevista e ainda cobram propina em dólares, o que representa uma fortuna que poucos têm”, acrescentou Romero que atualmente é motorista de táxi na capital argentina.  “No mercado negro você consegue um [passaporte] por US$ 2 mil, mas nossa moeda não vale nada, depois de tanta desvalorização”.

Apoio aos migrantes

Na fila, os migrantes aproveitam para descansar e tentar comer algo. O Cebaf tem um restaurante que vende pratos de frango com arroz ao equivalente a US$ 3,50, mas poucos venezuelanos têm condições de pagar.

As longas caminhadas, com mochilas nas costas ou carregando malas, provocam ferimentos nos pés de muitos venezuelanos.

A Cruz Vermelha e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) mantêm funcionários desde abril na fronteira para ajudar os viajantes.

"As pessoas chegam com poucos recursos e após longas viagens, a mais curta de cinco ou seis dias. Algumas pessoas viajam por meses", afirmou a secretária de informação do Acnur, Regina de la Portilla. 

O Cebaf conta agora com um centro de saúde e vacinação. O local também possui banheiros, os primeiros que alguns venezuelanos conseguem usar em semanas, além de distribuição gratuita de água mineral.

O edifício principal está reservado aos venezuelanos. O outro prédio, menor, quase vazio, atende peruanos, equatorianos e viajantes de outros países.

Mas chegar à fronteira peruana não significa o fim da odisseia, pois seguir até Tumbes, 25 quilômetros ao sul, custa US$ 10 de táxi, único transporte autorizado. É um serviço criado para turistas, não para refugiados.

De Tumbes para Lima, a viagem de 1.200 km que demora 20 horas de ônibus custa US$ 35.  / AFP e AGÊNCIA BRASIL

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