AFP PHOTO / JIM WATSON
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Após críticas de Trump, número dois do FBI renuncia ao cargo

Saída de Andrew McCabe era esperada no começo deste ano, quando tornou-se elegível para se aposentar após duas décadas no FBI

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2018 | 18h07

WASHINGTON - Alvo de sucessivos ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o vice-diretor do FBI, Andrew McCabe, deixou nesta segunda-feira, 29, o cargo de maneira abrupta, em meio a uma campanha de integrantes do Partido Republicano e da Casa Branca para desacreditar as investigações sobre o envolvimento da Rússia na eleição presidencial de 2016.

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 Apontado para o cargo pelo ex-diretor do FBI James Comey – demitido por Trump em maio –, McCabe se aposentaria em março. Segundo o jornal New York Times, ele decidiu antecipar sua saída depois de ser pressionado pelo atual diretor do FBI, Christopher Wray.

De acordo com a reportagem, Wray teria manifestado preocupação sobre um relatório a respeito da atuação de McCabe nas investigações sobre o uso de e-mails pela democrata Hillary Clinton, em sua passagem pelo Departamento de Estado, e no inquérito sobre o envolvimento da Rússia na eleição presidencial. O diretor do FBI teria sugerido que ele fosse transferido para outro cargo, o que seu vice teria rejeitado.

A mulher de McCabe é democrata e foi candidata ao Senado pelo Estado de Virgínia, em 2016, e recebeu quase US$ 500 mil em doações de uma organização dirigida por uma pessoa próxima do casal Clinton. Trump e os republicanos tentaram usar o fato como evidência de que a investigação sobre a Rússia tem motivações políticas. McCabe só assumiu o cargo de vice-diretor do FBI depois da derrota de sua mulher na disputa por uma vaga no Senado. 

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A porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, garantiu que Trump não teve nenhuma participação na saída do vice-diretor do FBI. “O presidente não fez parte desse processo decisório”, afirmou. 

Compromisso. Sanders negou que o presidente tenha interferido ou exercido pressões sobre os responsáveis pela investigação sobre a Rússia. “A única pressão que o presidente aplicou foi para ter certeza de que isso seja resolvido, que vocês e todo mundo possam focar nas coisas que realmente importam para os americanos”, disse a porta-voz a jornalistas. “Queremos assegurar que todo mundo tire a febre da Rússia de seu sistema de uma vez por todas.”

McCabe saiu do cargo no momento em que os republicanos no Congresso ameaçam revelar documentos secretos que, segundo eles, mostraria motivações políticas de investigadores do FBI e de integrantes do Departamento de Justiça no caso da Rússia.

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O movimento é criticado por parlamentares democratas, que acusam os republicanos de distorcerem mensagens trocadas entre integrantes do FBI depois da eleição de 2016. Entre os alvos está Rod Rosenstein, o subsecretário de Justiça responsável pela nomeação de Robert Mueller como procurador especial na investigação sobre a atuação da Rússia na eleição.

Na semana passada, reportagem do New York Times revelou que Trump tentou demitir Mueller em junho, mas enfrentou oposição do conselheiro jurídico da Casa Branca, Donald McGahn. 

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Em tese, o ato de demissão de Mueller precisaria ser assinado por Rosenstein, que o nomeou depois de o secretário de Justiça, Jeff Sessions, ter se declarado impedido para tomar decisões relativas à investigação sobre a Rússia, por ter participado da campanha de Trump. 

Mueller foi nomeado depois da decisão do presidente de demitir Comey. A justificativa inicial de que a demissão havia sido motivada pela má performance de Comey no cargo foi desmentida pelo próprio presidente, em entrevista à rede NBC, na qual ele afirmou que a insistência de Comey em investigar o assunto estava na base de sua decisão. Segundo analistas, os fatos envolvem cada vez mais o presidente em um caso de obstrução de Justiça – que seria a linha da atual investigação do procurador especial. 

 


 

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