REUTERS/Abdalrhman Ismail
REUTERS/Abdalrhman Ismail

Nunca imagens tão duras chegaram por tantas frentes

Sitiados em Alepo olham para as câmeras, olham para nós e pedem ajuda, mas o que fazemos é apenas olhar

Michael Kimmelman / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2016 | 05h00

Elas não param – nem as bombas nem as imagens que chegam de Alepo. Uma chuva de explosivos cai indiscriminadamente sobre famílias, funcionários de agências de ajuda humanitária e crianças. As fotos e vídeos falam por si. Os rostos dos sitiados olham para as câmeras, para nós, para a morte, implorando ajuda, perplexos ante nossa indiferença com a chacina. Vemos esses rostos tão próximos quanto o rosto de um amigo, olhando diretamente em nossos olhos.

Essas pessoas são testemunhas em tempo real que se recusam a desaparecer sem deixar sua marca. Nesta era de conexão total, não nos permitem fingir que não as vemos. Suas imagens, espalhadas pela mídia social, confirmam que estão vivas – ou estavam, naquele momento. Nunca antes recebemos tal dilúvio de imagens de uma frente de guerra. Nunca tivemos uma visão tão íntima, minuto a minuto, daquilo que a ONU considerou crimes de guerra.

“Quando um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos consegue levar centenas de milhares de pessoas às ruas enquanto os horríveis bombardeios em Alepo não desencadeiam nenhum protesto, alguma coisa está errada”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel.

Fotos de guerra e sofrimento já pesaram na consciência pública, levando a ações. Houve a foto de Kevin Carter de um garoto sudanês faminto com um abutre ao lado, em 1993. Houve a do soldado americano morto sendo arrastado pelas ruas de Mogadiscio, que acelerou a retirada americana da Somália. Houve da garota Phan Thi Kim Phuc, de 9 anos, nua, com o corpo queimado de napalm, no Vietnã do Sul, em 1972.

Essas fotos circularam por semanas, meses, anos, ajudando na tomada de ações políticas. Na verdade, a resposta política foi geralmente a retirada. Já o que pode ser feito numa situação como a de Alepo não é tão linear. Mas não é toda a história.

Importa se as vítimas na Síria são muçulmanas? O próximo presidente dos EUA ganhou a eleição com um discurso de intolerância anti-islâmica. Cada um procura as notícias de que gosta. Hoje, só uma pequena porcentagem de americanos participa de nossas guerras. Por algum tempo, nos entristecemos com duas fotos: a de Alan Kurdi, de 2 anos, morto numa praia da Turquia; e a de Omran Daqneesh, de 5 anos, salvo das cinzas de Alepo, limpando o sangue do rosto em uma ambulância. Depois, as imagens desapareceram da memória coletiva.

Milhares de pessoas foram mortas em Alepo, e milhões ficaram desabrigadas em toda a Síria, provocando uma crise de refugiados que ameaça desarticular Europa e EUA. Mas Washington dá de ombros. Rússia e Síria bombardeiam civis impunemente.

E tudo que fazemos é olhar, impotentes, enquanto a população síria se recusa a partir em silêncio, determinada a fazer conhecer suas vidas e tudo que perdeu. Na verdade, ninguém em sã consciência quer ver as imagens de Alepo. O que está acontecendo lá é quase insuportável. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É ESCRITOR

 

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