Jonathan Zizzo/NYT
Jonathan Zizzo/NYT

'Nunca imaginei que fosse precisar': americanos deixam orgulho de lado e pedem ajuda  

Com a perda de empregos relacionados ao coronavírus, muitos trabalhadores buscam, relutantemente, caridade e benefícios pela primeira vez em suas vidas

Cara Buckley, The New York Times

02 de abril de 2020 | 06h00

Os carros chegavam um atrás do outro ao banco de alimentos no sul de Dallas: uma minivan, um Chevrolet Tahoe, um sedan com a janela quebrada, um Jaguar supostamente vintage. Dentro dos veículos, gente que mal podia acreditar que um dia precisaria estar ali.

Tinha paisagista, administrador escolar, estudante universitário. Ali estava também Dalen Lacy, trabalhador de depósito e caixa da 7-Eleven.

Como 70% das pessoas que compareceram aos Serviços Comunitários da Crossroads num dia na semana passada, ele nunca tinha pisado ali. Mas, quando a pandemia de coronavírus empurrou a economia para a beira do abismo, Lacy, 27 anos e pai de dois filhos, perdeu o emprego no depósito e viu a 7-Eleven reduzir suas horas de trabalho.

“Nunca tive que fazer isso, de verdade”, disse Lacy, depois que um ajudante de despensa com luvas pôs uma caixa de comida no porta-malas do carro onde ele estava com dois vizinhos. “Mas tenho que fazer tudo que for preciso pelos meus filhos”.

Centenas de milhares de americanos estão pedindo ajuda pela primeira vez na vida - de manicures de Los Angeles a funcionários de aeroporto em Fort Lauderdale, de garçons de Phoenix a ex-participantes de reality shows em Minnesota. Engolindo a vergonha e se sentindo culpados pelas pessoas em situação ainda mais difícil, eles estão solicitando auxílio-desemprego, recorrendo à plataforma de financiamento coletivo GoFundMe, pedindo dinheiro no Instagram, aceitando doações de colegas de trabalho igualmente apertados e aparecendo em quantidades inéditas nos bancos de alimentos - os quais, por sua vez, estão enfrentando dificuldades para atender à crescente demanda, pois os voluntários, muitos deles aposentados, precisam ficar em casa, por precaução.

David Greenfield, executivo-chefe do Met Council, uma organização sem fins lucrativos que fornece assistência em alimentação e moradia na cidade de Nova York, disse que, primeiro, “nós víamos trabalhadores de varejo, chefs e garçons e proprietários de restaurantes”.

Mas, na semana passada, disse ele, começaram a ver funcionários de firmas de advocacia: “gente que nunca tinha ficado sem emprego na vida”.

Com essa amplitude inigualável, a crise atual opõe dois ideais americanos:  de um lado, o "e pluribus unum", lema nacional de solidariedade; de outro, a devoção quase religiosa à ideia de que o trabalho duro traz recompensas.

Essas noções coexistem pacificamente em tempos prósperos. Mas, hoje, ambas estão sendo questionadas, forçando os recém-desempregados a reavaliar suas crenças a respeito de si mesmos e do país.

Em St. Louis Park, Minnesota, Scott Theusch, mecânico de 61 anos, solicitou o auxílio-desemprego pela primeira vez, tornando-se uma das 3,3 milhões de pessoas que entraram com o pedido em uma única semana, um recorde histórico. Ele deixou de lado sua profunda convicção de que as pessoas que tinham de procurar a ajuda - a qual é, em grande medida, financiada por impostos sobre as folhas de pagamento dos empregadores - não estavam se esforçando o suficiente.

“As pessoas realmente não têm outra opção”, disse Theusch. “A ordem é não aparecer no trabalho, então o que você pode fazer?”.

Em Los Angeles, Samantha Pasaye, manicure de 29 anos, pediu doações no Instagram quando o salão onde trabalhava fechou as portas. O pedido fez sua mãe chorar.

“Não sou uma pessoa que pede ajuda”, disse Pasaye. “Eu faço tudo sozinha. Mas, neste momento, eu precisava deixar meu orgulho de lado”.

Mesmo com a longa tradição americana de fazer doações, desde grupos de ajuda a imigrantes criados por organizações religiosas no século 19 até programas de bem-estar social politicamente polarizados no século 20, o individualismo exacerbado continuou sendo uma característica definidora da identidade nacional. Talvez hoje nenhuma classe seja mais adorada que a dos empreendedores de startups de tecnologia.

“Muitas pessoas nos Estados Unidos têm muito orgulho de se sentirem autossuficientes e independentes”, Alice Fothergill, professora de sociologia da Universidade de Vermont que estudou os efeitos dos desastres naturais sobre os seres humanos. “É uma coisa que definitivamente vai ser muito, muito difícil”.

Para as pessoas que ainda têm algum recurso, a decisão de solicitar benefícios também vem com muitas dúvidas e hesitações. O fato de outras pessoas estarem em situação mais precária significa que não devem pedir ajuda, mesmo que atendam aos pré-requisitos?

Kirk DeWindt, personal trainer de 36 anos de Brooklyn Park, Minnesota, e três vezes participante da franquia de televisão The Bachelor, viu seu negócio em apuros quando todas as aulas presenciais foram canceladas. Ele ainda tem algumas economias, então, quando sua mãe disse para ele solicitar o auxílio-desemprego, DeWindt hesitou.

“Estou numa situação mais privilegiada do que a das pessoas que estão entrando com o pedido”, disse ele. “Então, o que fazer?”. Ele decidiu solicitar o auxílio.

O anonimato da internet ajudou algumas pessoas que procuram caridade a superar a vergonha, com restaurantes e outros empreendedores montando campanhas de angariação de fundos online, guardando sigilo sobre o nome de seus funcionários. No GoFundMe foram doados cerca de US $ 120 milhões para campanhas relacionadas à pandemia desde a primeira semana de março, disse uma porta-voz. É mais de quatro vezes maior do que o valor que as campanhas pelos incêndios na Austrália levantaram em três meses.

A mudança abrupta das circunstâncias talvez seja mais difícil para aquelas pessoas que redirecionaram toda a vida para o sonho americano: os imigrantes.

Alex Rotaru, 48 anos, cineasta e ator em Beverly Hills, Califórnia, deixou a Romênia aos 21 anos. Ele disse: “a ideia de bem-estar social de um país comunista era bastante familiar para mim”.

“Quando vim para os Estados Unidos”, disse ele, “nunca imaginei que fosse precisar disso”.

Rotaru não quis pedir o auxílio-desemprego, mesmo depois que todos os seus trabalhos foram cancelados. Mas, então, ele se deparou com a pilha de boletos em cima da mesa. “Fiquei meio constrangido, mas logo superei, pensando no meu filho”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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