'Nunca mais' aparentemente não se aplica à Síria

Obama, como Clinton no caso de Ruanda e de Bush no de Darfur, se limita a olhar sem fazer nada para tentar acabar com a matança de civis

FRED, HIATT, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2015 | 02h03

Um dos legados mais surpreendentes do presidente Barack Obama poderá ser o fim da aspiração da política externa americana resumida na afirmação "Nunca mais". Com isso, não estou afirmando que Obama é o primeiro presidente que se limita a olhar sem fazer nada para as atuais atrocidades. Não é.

Assim como ele assistiu passivamente ao desenrolar dos acontecimentos na Síria, enquanto centenas de milhares de pessoas morriam e mais de 11 milhões - ou seja, metade da população - eram obrigadas a abandonar seus lares, Bill Clinton nada fez para acabar com as atrocidades em Ruanda e George W. Bush não conseguiu deter as matanças na região de Darfur, no Sudão.

Clinton, porém, expressou seu remorso pela falta de ação em Ruanda. Os americanos pediam nas igrejas e nas sinagogas que Bush fizesse alguma coisa para "salvar Darfur". Faltou vontade política, mas havia ao menos uma sensação de desconforto, até mesmo vergonha, pelo fato de os EUA não se mexerem diante do massacre de tantos inocentes.

Os quatro anos de descida ao inferno da Síria, uma das três calamidades insistentemente previstas que provavelmente poderia ter sido evitada, mereceu pouca reflexão. Por que a mudança? É verdade que na Síria morreram menos pessoas (220 mil) do que em Ruanda (mais de 800 mil), em um espaço de tempo mais prolongado. No entanto, esta é a catástrofe humana mais horrenda dos últimos 20 anos, afirmam funcionários americanos.

Valerie Amos, subsecretária-geral da ONU, escreveu recentemente no Washington Post que cidadãos sírios "foram expulsos de suas casas pelas bombas, torturados, submetidos a abusos, deixados sem água e comida e assistência médica. As famílias foram destruídas. Em cada visita, eu perguntava a mesma coisa: por que ninguém se importa?" Hoje, a eterna resposta de Washington a essas perguntas é que o mundo não está fazendo nada, pois não há nada que se possa fazer. Muçulmanos matam muçulmanos, sunitas odeiam xiitas e o mundo civilizado deve ficar à margem lamentando, até que a febre desapareça.

Esse é o argumento sempre invocado para justificar a falta de ação. Nós o ouvimos a respeito dos tutsis e dos hutus em Ruanda, e dos sérvios e dos croatas nos Bálcãs. E sempre se revela falso. Se esses ódios são tão antigos e implacáveis, por que as pessoas não se matavam reciprocamente alguns anos atrás e por que as pessoas nos Bálcãs não se matam hoje? As forças políticas desencadeiam ódios, e as forças políticas podem - muitas vezes com maior dificuldade - reprimi-los.

Obama teve inúmeras oportunidades para empreender ações que poderiam ter prevenido os crimes contra a humanidade que continuam sendo cometidos. Quando o ditador sírio Bashar Assad começou a combater o que começara como um movimento pacífico pela democracia, Obama poderia ter autorizado o treinamento de uma resistência moderada, multissectária.

Quando Assad passou a despejar bombas sobre edifícios de apartamentos repletos de crianças Obama poderia ter destruído os helicópteros do líder sírio ou armado a resistência com o que fosse necessário para fazê-lo. Com os aliados, ele poderia der dado cobertura aérea a uma zona de segurança no norte da Síria onde as pessoas pelo menos pudessem encontrar algum refúgio dos ataques de Assad.

Muitas pessoas, até mesmo seus assessores, o alertaram que a falta de ação permitiria que os extremistas ampliassem sua influência. Agora, a concretização das previsões - a presença de extremistas - fornece mais um pretexto para a inação. "Daqui a alguns anos, o mundo olhará para trás e perguntará por que tantos de nós fizeram tão pouco?", escreveu recentemente o ex-premiê britânico Gordon Brown. Nenhuma das ações que Obama poderia ter adotado estaria isenta de riscos ou garantiria o sucesso. Quase por definição, esses problemas são difíceis - por isso Clinton e Bush também deixaram de agir. A diferença, no caso de Obama, é sua resoluta defesa da falta de ação.

Pouco após ser reeleito, numa entrevista à revista New Republic, ele perguntou: "E como eu poderia comparar as dezenas de milhares de pessoas mortas na Síria às dezenas de milhares que estão sendo assassinadas no Congo?" Depois, em 2013, falando na ONU, ele justificou a hesitação dos EUA na Síria afirmando que a defesa da democracia e dos direitos humanos não é um dos "fundamentais interesses" dos EUA - ao contrário, por exemplo, de garantir "o livre fluxo de energia". Alguns poderão aplaudir esse realismo impassível. Afinal, de que valeu para os tutsis o fato de Clinton ter admitido o erro? É melhor que o povo aprenda a não esperar dos EUA um socorro que nunca chegará.

No entanto, se impedir o genocídio e os crimes contra a humanidade deixou de ser um ideal americano, com certeza desistimos de algo muito valioso. O próprio Obama parece pouco à vontade com as implicações de sua doutrina. Este mês, ele afirmou a Thomas Friedman, do New York Times, que "é de interesse fundamental que as crianças não sejam atingidas por bombas e deslocamentos em massa não ocorram". Talvez o sucessor de Obama leve essas palavras a sério e trate de pô-las em prática. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EDITORIALISTA E ESCRITOR

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