NY cura feridas do 11/9 com museu

Projeto, que será inaugurado em 2013, conta a história das vítimas do atentado, dos 19 terroristas e também dos prédios derrubados

GUSTAVO CHACRA , CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h07

Por mais que olhemos para a nova torre do World Trade Center, superando o Empire State como o mais alto de Nova York, não dá para se enganar e achar que a nova silhueta de Manhattan tenha cicatrizado de uma vez por todas os acontecimentos de mais de dez anos atrás.

"Existe uma memória cultural de que os edifícios estavam aqui, pois não conseguimos apagar aquelas imagens de nossas lembranças", diz o arquiteto Steven M. Davis, em uma frase que poderia ser atribuída a milhões de nova-iorquinos.

Sócio do escritório de arquitetura DDB, ele é o responsável pelo projeto do Museu do 11 de Setembro, que deve ser inaugurado no próximo ano. Com sua colega brasileira Anna Dietzsch, Davis acompanhou o Estado em uma visita às obras no subterrâneo de onde estavam as torres cujos destinos alteraram a história do século 20.

De sua sala de reuniões no Soho, a poucos quarteirões do Marco Zero, os dois arquitetos puderam observar o desmoronamento das torres gêmeas há mais de uma década. Também viram pessoas se jogando pelas janelas para não morrerem queimadas. Dietzsch precisou ficar seis meses sem ir para casa, ao lado das torres. Depois, presenciaram a região do distrito financeiro de Manhattan transformar-se nos últimos anos em um canteiro de obras onde antes estavam os edifícios atacados pela rede terrorista Al-Qaeda.

Aos poucos, porém, esta parte de Manhattan começou a se revigorar com a reabertura de lojas e restaurantes e mesmo com a presença do movimento Ocupe Wall Street. Muitas instituições financeiras foram embora para Midtown. Antigos prédios comerciais foram convertidos em residenciais, com mais pais e carrinhos de bebê andando ao lado de homens de terno preto a caminho da Bolsa de Valores. O turismo também renasceu no Marco Zero. Desde o ano passado, todos os dias milhares de pessoas, munidas de ingressos reservados com meses de antecedência na internet, aglomeram-se para visitar os espelhos d'água com as fontes, que servem de memorial para as vítimas do 11 de Setembro. O ritual é, atualmente, segundo a prefeitura, um dos passeios mais comuns para os milhões de turistas que visitam Nova York todos os anos, ao lado da Estátua da Liberdade, do Metropolitan Museum e do Central Park.

Apesar da inauguração do memorial e da nova torre, além do polo de transportes desenhado por Santiago Calatrava, ainda falta o museu para marcar os atentados terroristas. Uma das ideias centrais da obra, conforme afirma Davis, é a "emoção e o sentimento" de entrar onde os acontecimentos de 11 de Setembro ocorreram. A rampa inicial eleva esta sensação, pois ao longo dela há uma parede que se abre de repente para imagens marcadas na nossa memória como a parede de sustentação do World Trade Center ainda intacta.

O arquiteto busca, com o traçado, evitar que um visitante veja a reação de outras pessoas que estejam à sua frente. Cada um deve, neste momento, refletir sobre onde estava naquele dia e também como o mundo mudou ao longo destes dez anos.

A escala do museu impressiona. Depois da rampa que nos leva para onde estavam as garagens das torres, dá para observar a base suspensa dos espelhos d'água na superfície e ter uma ideia do gigantismo daqueles prédios. Davis posiciona-se em um ponto do museu e diz: "Aqui era aquele lugar onde você ficava para tirar a foto no meio dos dois prédios". E eles realmente parecem estar ali, como se fossem arranha-céus enterrados.

"Tudo é autêntico, com os resquícios arqueológicos intactos", acrescenta o arquiteto, diante de pedaços de aço das estruturas contra as quais os aviões se chocaram. Mais para a frente, foi posicionada a escada por onde milhares de pessoas conseguiram escapar. "Muitos se esquecem das dezenas de milhares de sobreviventes." Também há a última parede que sobrou dos antigos prédios.

Ao projetar o museu, Davis preocupou-se ainda com o futuro. "Em cem anos, ninguém que presenciou os ataques estará vivo e precisamos preservar esta memória." A história de cada uma das vítimas, dos 19 terroristas e também dos edifícios estará presente nas exibições. O fracassado atentado de 1993 também estará presente no museu.

Além do antes e do depois, o museu terá uma preocupação com o pós-11 de Setembro, quando o Marco Zero se transformou em um símbolo para os EUA. Os bombeiros, voluntários e pedreiros serão para sempre lembrados em uma coluna onde as pessoas, depois dos atentados, deixaram suas mensagens de um dia que nunca será esquecido em Nova York, mesmo daqui um século, como afirma Davis.

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