NY dá sinais de recuperação mas desemprego assusta

Hotéis, restaurantes e teatros na região da Times Square, cerca de 50 quarteirões acima da área de onde estão sendo removidos os destroços do World Trade Center, começam a recuperar parte do movimento que tinham antes de setembro. Quatro espetáculos encerraram a temporada, mas seis já estrearam na Broadway nos últimos 30 dias e, na semana de 30 de outubro a 4 de novembro, as casas de espetáculos receberam público de 197 mil espectadores. "O total não está muito longe dos 216 mil registrados no mesmo período do ano passado e é o triplo dos 65 mil da semana entre 11 e 17 de setembro", comemora Pattie Haubner, da diretoria da League of American Theaters and Producers. Apesar disso, desde 11 de setembro, além de viverem sobressaltados pela ameaça de outras ações terroristas, os nova-iorquinos dormem e acordam com mais um pesadelo - o medo da miséria trazida pelo desemprego que já atingiu pelo menos 200 mil deles. Filas de pessoas procurando trabalho ou esperando a doação de alimentos lembram cenas da Grande Depressão dos anos 30. Faixas em hotéis agradecendo a presença de viajantes, cartazes anunciando desconto até em preço de cachorro-quente e pessoas tristes à procura de qualquer tipo de serviço demonstram a anemia econômica que, se não for tratada rapidamente, pode levar a cidade ao mesmo perfil feio e sujo da crise fiscal que ela passou na década de 70. Há sinais de recuperação no coração da cidade, mas de Chinatown até o sul de Manhattan, ela parece parte de um rosto desfigurado por uma paralisia que avança perigosamente para todo o corpo. Receitado quase todos os dias pelo prefeito Rudolph Giuliani nesses seus últimos e turbulentos meses de mandato, o remédio de efeito mais rápido é chamar turistas. Em busca do dinheiro de quem a visite a passeio ou a negócios, Nova York passou a oferecer, desde segunda-feira, descontos de até 50% em hospedagem, refeições, compras e ingressos para shows e museus, na campanha de tons patrióticos Paint the Town Red, White and Blue (pinte a cidade de vermelho, branco e azul, as cores da bandeira dos EUA). Segundo um consórcio de empresas, o turismo na cidade caiu 40% no último trimestre e terá uma reducão de 14% este ano (em relação a 2000). "É crucial fazer o marketing da cidade agora e recuperar parte da perda verificada no último trimestre", diz Cristyne Lategano-Nicholas, presidente da NYC & CO, empresa municipal de turismo. Segundo Cristyne, entre 11 de setembro e 20 de outubro, o comércio de Nova York deixou de ganhar cerca de US$ 323 milhões que poderiam ter sido gastos por turistas. Na semana do ataque ao World Trade Center, só pouco mais de 29 mil dos 66 mil quartos disponíveis nos hotéis tinham hóspedes - muitos deles alojando moradores de prédios interditados na área do World Trade Center. Segundo a NYC & Co., o último levantamento, feito entre 14 e 20 de outubro, mostrou que a ocupação nos hotéis chegou a 75,8%, índice melhor do que o do mês anterior, mas ainda muito abaixo do mesmo período no ano passado, que foi de 92,9%. O setor desempregou cerca de 5 mil pessoas de setembro para cá (em torno de dez por cento do total). Os números de visitantes só serão conhecidos dentro de seis meses (estatística governamental). Mas já se sabe que não devem chegar aos 37,5 milhões registrados no ano passado. A grande maioria deles é de americanos. Por isso, estão fazendo um grande número de campanhas publicitárias para trazerem turistas nacionais para a cidade (só a Delta Airlines está dando 10 mil passagens para serem distribuídas de graça pelo país, em concursos, programas de rádio e outras atividades). Em Chinatown, onde 20 fábricas de roupa foram fechadas nas quatro semanas depois do ataque, quem gastar mais do que US$ 100 pode ganhar como prêmio uma viagem a Hong Kong. "O 11 de setembro foi como uma bomba sobre o bairro, que já vinha perdendo muitos negócios", compara John Wang, presidente do Asian American Business Development Center. Nas grandes lojas de departamentos, ninguém arrisca antecipar o que vai ser o fechamento da contabilidade anual. Mas, segundo levantamento da Federated Stores, dona da Macy´s e da Bloomingdale´s, as vendas caíram 12,9% nas cinco semanas antes de 6 de outubro. A Saks informou que, em setembro, a queda no movimento foi de 31% em relação ao mesmo mês no ano passado. Dois meses depois da destruição do World Trade Center, enquanto as lojas se enfeitam para o Natal, Nova York continua sofrendo perdas e a previsão para os próximos dois meses - típico período de grandes vendas estimuladas pelas festas de fim de ano - é de mais prejuízo. A tragédia do World Trade Center reflete-se sobre milhares de pessoas que já não tinham muito no bolso. Relatório divulgado na quarta-feira pelo Fiscal Policy Institute, organização independente que atua em questões trabalhistas, estima que em torno de 80 mil pessoas vão perder o emprego até o fim do ano e 60% delas estão na faixa salarial de US$ 23 mil por ano - menos que a metade da média paga na cidade, que é de US$ 58 mil. "No final de setembro, em comparação ao mesmo mês do ano passado, os restaurantes registraram queda de 47% no caixa", conta Charles Hunt, vice-presidente da New York State Restaurants Association. Em Chinatown, quase uma centena de pequenos restaurantes não puderam funcionar por várias semanas, enquanto a área esteve totalmente isolada, e 30 deles fecharam definitivamente. Calcula-se que, em Manhattan, entre 60 e 80 restaurantes fecharam (ainda não existe um número exato). "Nós nunca estivemos numa situação como essa antes", diz John Turchiano, um dos representantes do New York Hotel Trades Council, entidade que administra pensões e outros benefícios para cerca de 25 mil dos empregados de hotéis e restaurantes de Nova York. "Na segunda-feira, quatro caminhões da instituição de caridade Feed the Children (Alimentem as Crianças) foram levar mantimentos para cerca de 500 dos nossos afiliados e suas famílias no bairro de Queens. Muitas pessoas choravam enquanto recebiam latas de comida e tubos de pasta de dente." Como a maioria dos que trabalham nos 21 mil restaurantes da cidade são imigrantes, muitas vezes ilegais e não sindicalizados fica difícil contabilizar as baixas. Segundo Turchiano, no mínimo 5 mil dos trabalhadores ligados ao Hotel Trades Council perderam o emprego e outros mil tiveram as horas de trabalho reduzidas por causa da baixa ocupação dos hotéis. A redução no movimento dos restaurantes prejudicou até quem lavava e passava toalhas e guardanapos. May Chen, vice-presidente do Unite, sindicato que representa empregados em lavanderias industriais, calcula que pelo menos 600 trabalhadores desse setor foram demitidos. Sem recursos, cozinheiros, garçons, motoristas, vendedores, faxineiras e costureiras têm engrossado as filas nas portas de instituições que, até dois meses atrás, só alimentavam mendigos. Pesquisa feita pela Coalition Against Hunger (Coalizão Contra a Fome), entidade que engloba 1.200 cozinhas e despensas para alimentar os pobres da cidade, revela que 54% desses estabelecimentos estão atendendo famílias que perderam no ataque terrorista pelo menos um dos parentes que as sustentavam. A City Harvest, outra instituição de caridade, servia 145 mil refeições por semana antes de 11 de setembro; agora serve 200 mil. O New York State Department of Labor (Departamento do Trabalho do Estado de Nova York) informa que, até o fim de setembro, o índice de desemprego na cidade era de 6,3%. O número equivale a 215 mil pessoas e ainda não leva em conta totalmente a catástrofe provocada pelo ataque terrorista ao World Trade Center. Segundo alguns economistas, até o fim de dezembro a taxa deve chegar a 8% e passar para dois dígitos no primeiro trimestre do ano que vem. É o pior quadro nos últimos 20 anos. Na tentativa de evitar que toda essa gente vá bater às portas da assistência social do governo, a prefeitura, o estado, entidades beneficentes e grupos empresariais criaram juntos a Twin Towers Job Expo (Exposição do Trabalho das Torres Gêmeas), uma feira de ofertas de trabalho que será realizada pela terceira vez nesta quinta-feira. Instalada no Madison Square Garden, a feira atraiu cerca de 9 mil pessoas no dia 17 de outubro e outro tanto uma semana depois. A fila de homens de terno e mulheres de tailleur carregando maços de cópias de currículo profissional chegava a dar três voltas em torno do estádio. Para diminuir o sangramento de recursos, o governo federal já repassou US$ 20 bilhões para a administração municipal executar medidas de emergência. Michael Bloomberg, o prefeito eleito na semana passada, deve iniciar seu mandato com um déficit orçamentário calculado entre US$ 4 bilhões e US$ 6 bilhões. Não é um bom começo para quem deve reconstruir uma cidade que tem medo do que vem pela frente.

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