Melissa Golden/NYT
Melissa Golden/NYT

O 11 de Setembro ainda provoca vítimas, 18 anos depois 

Estresse pós-traumático afeta sobreviventes e socorristas de ataque terrorista em Nova York

James Barron / The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 22h49

Kayla Bergeron ainda descreve a manhã de 11 de setembro de 2001 com riqueza de detalhes: ela estava trabalhando em sua mesa no 68.º andar do World Trade Center quando o prédio chacoalhou. Alguém entrou e disse que um avião havia atingido a Torre Sul. Um pequeno avião, ela pensou. De repente, ela percebeu que não se tratava de um Cessna.

Ela começou a correr em desespero, uma descida angustiante em uma escada escura e molhada, pois os canos estouraram quando as Torres Gêmeas começaram a entrar em colapso. Ela foi uma das únicas sobreviventes de um andar tão alto.

Bergeron também descreve sua vida desde então: a demissão de empregos, a perda da casa para uma execução hipotecária, duas condenações por dirigir embriagada e, no ano passado, o diagnóstico de um transtorno de estresse pós-traumático decorrente do 11 de Setembro. “O estresse pós-traumático (EPT) nunca me ocorreu”, disse Bergeron, funcionária de alto escalão da Autoridade Portuária de Nova York e New Jersey

Nos 18 anos desde os ataques terroristas, os policiais e bombeiros que invadiram as torres em chamas foram homenageados com um memorial no Marco Zero. Hoje, os nomes dos que morreram, foram lidos mais uma vez em uma cerimônia no local. O Congresso, após uma luta promovida pelo comediante Jon Stewart, votou em julho para fornecer mais dinheiro para o fundo que cobre os cuidados médicos dos socorristas.

No entano, milhares de civis como Bergeron – pessoas que trabalhavam no centro comercial ou estavam na área próxima das Torres Gêmeas – também sobreviveram. Alguns desenvolveram sintomas físicos. Outros não. Mas se tornaram um segmento esquecido da comunidade do World Trade Center.

Agora, muitos temem que a atenção nacional esteja voltada para outro lugar e as pessoas esqueçam que aqueles que testemunharam o horror do 11 de Setembro ainda podem desenvolver doenças como o estresse pós-traumático.

“O EPT não tem um limite de tempo”, disse Jacqueline Moline, diretora do Programa de Saúde Queens World Trade Center, da rede de saúde Northwell, que fornece acompanhamento e tratamento para dezenas de doenças. “As pessoas podem desenvolver estresse pós-traumático relacionado a um evento anos depois.” Segundo ela, muitas vezes, não está claro o que desencadeia o distúrbio.

Dos 24.550 atendentes de emergência do 11 de Setembro, 7.425, ou 30,25%, apresentam transtorno de estresse pós-traumático. Dos que fugiram das torres ou da destruição nas proximidades, 2.625 – ou cerca de 12,3% dos sobreviventes registrados no programa – têm transtorno de estresse pós-traumático, segundo dados da Northwell. Outros 675 têm transtornos de ansiedade e 661 têm o que o programa classifica como “transtornos depressivos graves”.

“O EPT é a doença mais comum na comunidade do 11 do Setembro”, disse John Feal, que trabalhou como supervisor de demolição no Marco Zero e se tornou um dos principais defensores de um fundo de compensação para as vítimas permanentes do atentado.

Sobreviventes repetem desastre em suas mentes

Mesmo agora, alguns sobreviventes repetem o desastre em suas mentes. Eles têm pesadelos, pulam quando ouvem barulho e evitam qualquer coisa que lembre daquele dia. Segundo Rachel Yehuda, psiquiatra e vice-presidente da Faculdade de Medicina de Icahn, no Hospital Monte Sinai, uma pesquisa mostrou que pessoas “próximas de um trauma que não apresentam sintomas podem tê-los mais tarde”. Normalmente, de acordo com ela, os sintomas são acionados por “um gatilho”.

Por exemplo, uma manhã brilhante no final do verão poderia servir como lembrete do 11 de setembro de 2001 e recordar os aviões que miravam as Torres Gêmeas. Os sons podem ter um efeito semelhante.

“Desde os 17 anos, eu não conseguia ouvir um avião, um helicóptero ou o estouro de um escapamento”, disse Lila Nordstrom, que estava no último ano da Stuyvesant High School, em Lower Manhattan, em 2001, e agora mora em Los Angeles. “Se eu estiver no trânsito e alguém buzinar, isso pode levar a um período prolongado de pânico. Demorou um pouco para eu perceber que o que estava acontecendo estava relacionado ao 11 de Setembro.” Ela disse que foi diagnosticada com transtorno de estresse pós-traumático pelo Programa de Saúde do World Trade Center em 2015.

Para Elinda Kiss, professora de administração de empresas que participava de uma conferência no hotel Marriott World Trade Center, no 11 de Setembro, passar pelo Aeroporto Internacional Newark trazia uma repetição de sua frenética corrida pela segurança naquele dia. “Eu revivia tudo, vendo o avião atingir a Torre Sul.”

Ela acreditava que seu estresse pós-traumático havia desaparecido ao longo dos anos. No entanto, no domingo à noite, acordada, o pesadelo se repetia várias vezes. “Eu continuava vendo o avião atingindo o meio do World Trade 2”, disse.

“Existem muitos sobreviventes por aí que não percebem que têm problemas”, afirmou Cilento, uma terapeuta que estava em casa em Long Island quando os aviões atingiram o centro comercial. O nome de seu filho, bombeiro voluntário, está na lápide no Marco Zero. “Muitos sofrem em silêncio. Já são 18 anos. Mas, para alguns, é tudo muito recente.” 

 

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