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O acomodado dos Andes

O Chile provoca reações extremas. Sua ditadura é lembrada como uma das mais sangrentas do Hemisfério. Por outro lado, sua economia - cria da era Pinochet - é a mais bem-sucedida das Américas, crescendo 4,9 % ao ano nas últimas duas décadas. O respeito às regras da livre-iniciativa temperado com programas sociais garantiu a maior renda per capita do continente e a forte queda da pobreza.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2014 | 02h01

Por isso mesmo são preocupantes os últimos solavancos dessa pequena nação no dorso do continente. Há poucos dias, a agência de risco Goldman Sachs rebaixou sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chileno para modestos 3% (anteriormente, a previsão era de 3,3%) em 2014 e apenas 3,5 % para o ano que vem.

Nenhum desastre: Brasil, o portento dos latinos, dificilmente crescerá acima de 1% este ano. Mas para o Chile, país hors-concours nas Américas, o desempenho decepciona.

Embora vivam melhor que há 20 anos, os chilenos se preocupam com seu país e seu futuro. É esse mal-estar que levou às ruas centenas de milhares de jovens revoltados com a "crise" e o custo da educação.

Há três anos, a economia chilena tem perdido competitividade, caindo para o 31.º lugar no mais recente ranking produzido pela escola suíça de administração IMD. É seu pior desempenho em 15 anos.

Quem aciona o alerta é Ricardo Haussman, professor da Universidade Harvard. Para Haussman, o Chile tem majestade num reino de cegos. Num seminário recente no Chile, disse que o país chegou ao topo do ranking latino vendendo ao mundo cobre, madeira, pescado e vinho - mas, posteriormente, não se diversificou. Há meio século, diz o economista, sua economia correspondia a 40% da australiana. Ainda é assim hoje, disse em entrevista à revista Capital. Segundo Haussman, a culpa é do empresariado, que investe pouco em inovação. Resultado, quem toca as indústrias-chave no Chile são muitas vezes empreendedores estrangeiros. Há poloneses nas minas de cobre e espanhóis mandando no Atacama.

Ao mesmo tempo, é pífio o número de indústrias chilenas que se aventuram em mercados internacionais. Nem mesmo na mineração, ramo que o Chile domina há 150 anos.

Por que tanta tibiez do tigre latino? "Complacência", sentencia Haussman. Há quatro décadas, o país andino reinventou seu pacto econômico, balizado no bom senso político e nos respeito ao livre mercado. Prosperou, descolando-se do atoleiro latino-americano, já mirando os países mais ricos do ocidente. Mas lá ficou, entalado.

Os estudantes chilenos são os melhores entre os latinos, mas estão entre os piores no ranking dos países da OECD. Haussman diz que o país ocupa o último lugar em pesquisa e desenvolvimento. Soberano perante os vizinhos, o dilema do Chile é um alerta para os portentos de amanhã.

*É colunista do 'Estado' e chefe da sucursal do portal de notícias 'Vocativ'

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