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O adeus à 'Cubazuela'

Com sua economia em passo lento e o comércio travado, os governantes da América do Sul pouco têm a comemorar. No lugar de conquistas, sobram discursos ufanistas e brados contra o adversário de rotina.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2014 | 02h03

Não foi diferente na abertura da 47.ª Cúpula do Mercosul que, na semana passada, reuniu líderes sul-americanos, na Argentina. Já no final, o libreto mudou.

A presidente brasileira, Dilma Rousseff, mal terminara seu longo discurso quando seu par argentino, Cristina Kirchner, anfitriã do evento, empunhou o microfone e roubou a cena. Disse que, naquele momento, o presidente americano, Barack Obama, e o líder cubano, Raúl Castro, acabaram de decretar o início do fim da Guerra Fria.

Após 53 anos de inimizade visceral, intrigas e conflitos abertos e terceirizados, os dois protagonistas do último capítulo do mais arrastado contencioso das Américas ensaiaram a paz. "Para nós, com cabelos brancos, que pintamos, mas os temos", disse a presidente argentina, "é um momento histórico".

Ainda mais histórico, talvez, pelo fato de que a mais dramática guinada na diplomacia latino-americana do último meio século parece ter flagrado os líderes latinos dormindo no ponto. Sim, quase todos os governantes da região já aconselharam os EUA a desistirem do embargo inútil.

No entanto, nenhum deles teria participado da reaproximação, além do próprio Raúl Castro e do papa Francisco. Foram 18meses de cortejo e conversa, iniciadas no Canadá e finalizadas no Vaticano, aparentemente sem que nenhum outro mandachuva soubesse, muito menos fizesse parte. "Pensamos que esse dia jamais viria", admitiu a presidente brasileira.

Tamanho distanciamento convida a reflexão. No último meio século, Cuba serviu à região menos como aliado que porrete, útil para brandir contra o império gringo. Esqueça o fato de que quase todos os vizinhos latinos já desistiram há anos da censura e repressão militar à cubana.

Só que os irmãos Raúl e Fidel Castro ainda vestem o figurino de heróis, primeiro por deflagrar a revolução pelas costas de Washington e, depois, por ter sobrevivido às maiores conspirações do Tio Sam, de complôs de assassinato ao embargo econômico.

E agora, companheiros? Como será o antro sem o ogro? Ou, nas palavras da blogueira cubana dissidente e colunista do Estado Yoani Sánchez: "Davi não pode sobreviver sem Golias".

O embargo gringo à ilha ainda não terminou. Essa decisão é exclusiva do poder legislativo americano. Lá, a Guerra Fria ainda segue, graças à bancada cubano-americana, que pensa a política com o fígado. Sabe, afinal, que a abertura para Cuba não é uma abertura cubana. Pior para o eventual enviado americano à Havana, que será sabatinado pelos congressistas.

E os presos políticos, a censura e a espionagem doméstica, tão familiares à vida e obra cubanas quanto os Chevrolets dos anos 50? "Ainda não é o nosso Dia D", escreveu Yoani.

Já na Venezuela, o impacto deve ser bem maior. A julgar pelo seu espanto, o presidente Nicolás Maduro nada sabia das articulações de Cuba e EUA. Há poucos dias, Maduro repreendia o país de Obama pela imposição de sanções "imperialistas" a diversas autoridades venezuelanas. Já no Mercosul, ele rasgava elogios ao "gesto de valentia" do americano.

É um sinal dos tempos. No tempo de Hugo Chávez, Cuba era o aliado carnal. Foi em Havana que Chávez lutou contra seu câncer durante 18 meses. Falava-se em fundir os dois países: Cubazuela, os ironistas de plantão o batizaram.

A ilha dos Castro enviou milhares de arapongas para ajudar o governo a bisbilhotar a vida alheia venezuelana. Chávez agradeceu com navios de petróleo a preços camaradas. Agora, com a economia venezuelana na berlinda, Castro sabe que a mamata bolivariana está com os dias contados. Pelo jeito, já arranjara um outro padrinho.

"Há dois dias, Maduro pediu aos venezuelanos para queimar seus vistos americanos", escreveu a opositora Maria Corina Machado, no Twitter. "Entretanto, Raúl Castro arrumava o seu." Adíos Cubazuela. Hola Tio Sam.

*É COLUNISTA

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