O adeus de Manaf Tlass

Na Síria, o campo dos que o chanceler francês, Laurent Fabius, chama de "os massacradores" continua escorregando para o abismo. O regime de Bashar Assad, após matar 15 mil pessoas desde o começo das revoltas civis, perde sustentação. A Rússia, que continua sendo uma amiga indefectível de Damasco e veta qualquer iniciativa da ONU contra o regime sírio, parece reconhecer aos poucos que a saída de Assad é inevitável.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h04

No momento em que escrevíamos este artigo, um avião que decolou da Turquia seguia em direção a Paris. A bordo, um personagem importante: o general Manaf Tlass, amigo de infância de Assad, chefe de uma unidade de elite e fazia parte do círculo próximo do regime.

Fazia um ano que o general Tlass vinha discordando da bárbara repressão que Assad vinha impondo às ruas. Sua deserção será um duríssimo golpe no regime sírio. Não só porque Tlass é um militar de prestígio, como pelo fato de que ele fazia parte da poderosa comunidade sunita (75% dos sírios são sunitas) até aqui aliada do regime de Damasco, e cada vez mais tentada a se afastar dele (Assad é alauita).

Esse evento importante ocorreu no momento em que se realizava, em Paris, a reunião dos Amigos da Síria. Esse grupo já está com os olhos no período pós-Assad. De agora em diante, o verdadeiro desafio é menos caçar o claudicante Assad que preparar o futuro. O que reconstruir sobre os escombros da Síria? Uma imagem obceca e angustia as chancelarias ocidentais: o que ocorreu no ano passado nos três países africanos da Primavera Árabe: Tunísia, Egito e Líbia. Os povos árabes, ajudados pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no caso da Líbia, depuseram três tiranos desprezíveis (Ben Ali, Mubarak e Kadafi). Mas o que sucedeu às tiranias é inquietante: seja o caos, como na Líbia, seja a ascensão dos radicais islâmicos (a Irmandade Muçulmana) e o progresso da justiça corânica. Aliás, o espetáculo desses três países fornecia o principal argumento utilizado por Assad para martirizar seu povo. Ele se designava o último bastião contra os furores radicais.

A França, desde a eleição do presidente François Hollande, mudou radicalmente sua doutrina sobre a Síria. O governo precedente havia escolhido uma opção convencional e arriscada. A França apoiava o Comitê Nacional Sírio (CNS), um grupo heterogêneo composto sobretudo por sírios no exílio, uma miscelânea de tendências diversas incluindo desde velhos notáveis fora da realidade até radicais islâmicos ligados à Irmandade Muçulmana.

Há algumas semanas, a chancelaria francesa deu uma virada brutal. Ela enterrou o CNS, discretamente, sem coroas nem flores, para privilegiar os combatentes no interior da Síria, aqueles patriotas que estão lutando e morrendo em Damasco, em Homs, em Alepo há um ano. Eles têm mais legitimidade para o desafortunado país do que os resistentes do exterior.

Espera-se também que eles sejam menos submissos à Irmandade Muçulmana, mas ninguém tem muita ilusão sobre isso: como em todo o Oriente Médio, a Irmandade Muçulmana, após seu sucesso no Egito, vem fascinando as populações árabes.

Não nos iludamos: os "irmãos" muçulmanos não se desviam de seu rumo. Eles estão bem decididos a impedir, na futura Síria, uma separação entre o divino e o político, isto é, uma Síria laica. Eles garantem que a transição só poderá ocorrer pela luta armada. Resta saber quem continuará abastecendo os rebeldes sírios? Nesse contexto, o papel da Turquia, por onde transitam as armas destinadas a esses rebeldes, torna-se central. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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