O alarme saudita para os EUA e Israel

Em artigo, príncipe crítica falta de apoio da Casa Branca ao Estado palestino e manda recado para que o governo americano não impeça a proclamação da Palestina na ONU

Richard Cohen, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2011 | 00h00

Conheci o príncipe saudita Turki al-Faisal numa residência particular em Washington anos atrás. Ele me pareceu austero e sério, às vezes até amargo. Já o vi outras vezes desde então, em conferências internacionais e eventos do tipo - nunca no clima de bater papo e desfilar em suas túnicas gloriosas sem exibir nem mesmo uma gota do charme beduíno. Ainda assim, eu não estava preparado para a coluna opinativa escrita por ele e publicada na edição do Washington Post. O texto mais parecia uma declaração de guerra.

O príncipe Turki não está atualmente no governo. Mas ele é um membro da família real saudita e já foi o encarregado dos serviços de espionagem do reino e também embaixador em Londres e Washington. As credenciais do homem são sólidas.

Ele está absolutamente furioso e não poupa críticas aos Estados Unidos. Começa citando o que ele chama de "controvertido discurso feito no mês passado (pelo presidente Barack Obama) advertindo os governos árabes a adotar a democracia e proporcionar liberdade para sua população". A Arábia Saudita ouviu as palavras de Obama e as levou "a sério". Ele destacou, é claro, que Obama não exigiu os mesmos direitos para os palestinos que vivem sob ocupação israelense. Crítica anotada.

O mesmo reino que levou Obama "a sério" é uma monarquia absoluta que, entre outros absurdos, proíbe as mulheres de dirigir carros. É também um país que não oferece liberdade religiosa, mas, para um criminoso qualquer, oferece uma decapitação pública.

Levando-se em consideração o fato de que Turki passou bastante tempo no Ocidente, não é possível que ele achasse que comentaristas como eu deixariam de apontar prontamente a falta de liberdades elementares no seu reino. Ele não se importa com isso.

De fato, era a mensagem que ele queria transmitir. Turki - e, por implicação, toda a Arábia Saudita - está farto dos EUA. O reino não se prestará a ouvir sermões passivamente. Está cansado do favoritismo que os EUA demonstram em relação a Israel - a exuberante recepção ao primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, no Congresso, por exemplo - e da decisão do governo de impedir todos os esforços de criação de um Estado palestino nas Nações Unidas. Nesse ponto, os EUA estão fazendo aquilo que Israel deseja.

"Em setembro, o reino vai usar todo o seu considerável peso diplomático para apoiar os palestinos na sua busca pelo reconhecimento internacional", escreveu Turki. "Os líderes americanos há muito chamam Israel de aliado "indispensável". Eles logo descobrirão que há outras forças na região - como o povo árabe nas ruas - que são igualmente "indispensáveis", senão ainda mais. O jogo do favoritismo em relação a Israel não foi uma decisão sábia para Washington, que logo conhecerá as consequências dessa aventura."

Não se trata da linguagem diplomática com a qual estamos acostumados - são palavras duras, mesmo para Turki. Mas elas mostram, no entanto, uma frustração não exatamente surpreendente no mundo árabe em relação à política externa americana, atualmente atrelada a uma política israelense bastante teimosa e pouco imaginativa. Ambos países estão sofrendo com um excesso de democracia. A coalizão que governa Israel é feita refém pela direita; a coalizão que governa os EUA se vê em situação parecida.

A Turki não faltam dedos para apontar contra os americanos. Segundo o príncipe, aqueles que acham que os EUA e Israel determinarão o destino dos palestinos estão muito enganados. "Haverá consequências desastrosas para as relações entre EUA e Arábia Saudita se os americanos vetarem o reconhecimento da ONU de um Estado palestino. Isso marcaria o ponto mais baixo de um relacionamento que se estende por décadas, e provocaria um estrago irreparável no processo de paz israelo-palestino e na reputação americana entre os países árabes. A distância ideológica entre o mundo muçulmano e o Ocidente em geral seria ampliada - e as oportunidades para a amizade e a cooperação entre os dois poderiam desaparecer."

Tudo isso vindo de nosso aliado, para não chamá-lo também de nosso posto de gasolina amigo.

O tom da coluna é ao mesmo tempo notável e ameaçador. São palavras que vêm, como eu já apontei, de um homem de pouco charme, mas que não deixa de ser um habilidoso diplomata e chefe de espionagem. Apesar de sua indignação diante do problema palestino ser bastante conhecida, raramente ela foi manifestada com tamanha força - e num veículo tão público.

Uma coluna opinativa do Post tem como objetivo chamar a atenção do governo americano. Tenho certeza que o príncipe Turki cumpriu a meta. Mas espero também que ele tenha chamado a atenção do governo israelense, que há algum tempo se aproveita da moderação saudita diante da questão palestina. Parece que isso vai mudar - e entre os principais motivos da mudança estão os anseios dos árabes nas ruas, expressamente mencionados por Turki, anseios que os sauditas procurarão atender caso isso se mostre necessário para satisfazer as ruas. É o fator agravante da coluna do príncipe Turki e também o motivo pelo qual o texto termina tão ameaçadoramente para Israel: "Eu detestaria estar por perto quando eles enfrentarem seu merecido destino." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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