O alvo de Obama

Durante o discurso sobre o Estado da União, presidente americano partiu para o ataque aos pré-candidatos republicanos, em particular a Mitt Romney

MARK LANDLER, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2012 | 03h05

O presidente Obama não mencionou o nome de Mitt Romney na noite de terça-feira, e nem precisaria. Romney, que os assessores do presidente ainda consideram seu oponente mais provável nas eleições, foi o adversário não mencionado no apelo de Obama por uma sociedade mais equitativa - o contraponto natural às suas propostas para um tratamento mais igualitário para os americanos de classe média, em matéria de impostos e política comercial.

Quando Obama falou em cobrar impostos dos milionários, referiu-se talvez à declaração de imposto de renda que Romney acabara de apresentar, que mostrou que, em 2010, ele pagou um imposto de 13,9% sobre uma renda superior a US$ 20 milhões.

Quando ele se referiu à ajuda dada por seu governo à indústria automotiva, observando que "alguns chegaram a afirmar que deveríamos deixar que ela morresse", aludindo, quem sabe, à afirmação de Romney de que as montadoras deveriam poder falir. E quando disse que se oporia a "todo esforço para voltar às mesmas políticas que levaram a essa crise econômica", talvez se referisse ao apelo de Romney para a redução das regulamentações para Wall Street.

Nove meses antes de ele enfrentar os eleitores, Obama aproveitou de uma das suas ocasiões mais importantes do ano para traçar uma nítida linha entre ele próprio e Romney - procurando apelar para os cidadãos frustrados pelo agravamento da fratura econômica.

Sua linguagem foi muito distante do tom retumbante do seu último discurso sobre o Estado da União, quando o presidente falou em conquistar o futuro - desafio que comparou ao "desafio representado pelo Sputnik em termos da nossa geração". Enquanto os manifestantes do movimento Ocupe Wall Street estão acampados na neve nas cidades americanas, ele mencionou uma sensação nacional de ressentimento.

"Quando os americanos falam de pessoas como eu, que pago minha justa parcela de impostos, não é porque invejem os ricos", disse Obama, respondendo à acusação de Romney de que o presidente adota a "amarga política da inveja". "É porque eles compreendem que quando eu obtenho incentivos fiscais de que não preciso e o país não obtém nenhum, isso só aumenta o déficit ou então alguém terá de compensar a diferença."

Ele mencionou reiteradamente esse tema à medida que sua campanha foi engrenando, e em nenhum outro lugar com maior veemência do que em Osawatomie, Kansas, onde invocou o espírito de Theodore Roosevelt, um aristocrata republicano que quebrou monopólios e fez campanha em defesa do imposto de renda progressivo.

No ambiente venerável do Capitólio, ao contrário do que acontece no Congresso costumeiramente hostil, o presidente lançou uma mensagem apropriada em um ano que apresenta aos eleitores uma escolha difícil entre sua visão e o que ele define como o enfoque darwiniano de Romney e de outros republicanos.

Até certo ponto, o discurso de Obama também foi dirigido à Florida, onde Romney e os demais republicanos competem numa primária na próxima semana pelo direito de desafiar o presidente. Cada palavra de um discurso sobre o Estado da União é cuidadosamente escolhida. Portanto não foi por acaso que, ao falar da indústria automotiva e do futuro da indústria americana, o presidente afirmou: "O que está acontecendo em Detroit poderá ocorrer em outros setores. Poderá acontecer em Cleveland, Pittsburgh e Raleigh". Estas são importantes cidades em Michigan, Ohio, Pensilvânia e Carolina do Norte - Estados onde se define a eleição, que totalizam 69 votos eleitorais. Mas grande parte da mensagem do presidente pretendeu claramente rebater as afirmações dos seus rivais republicanos e as críticas deles a tudo o que ele realizou.

Para que ninguém se esqueça do passado de Romney na Bain Capital, quando ele foi um ávido comprador e vendedor de empresas, Obama defendeu a permanência de companhias construídas sobre os firmes alicerces da produção e de trabalhadores especializados. Essas empresas, disse, constituem a base de uma economia competitiva.

Obama disse também que se oporia a todo esforço para repelir a regulamentação do setor financeiro, e traçou uma ligação direta entre a política do seu predecessor, George W. Bush, e o caos econômico que consumiu sua presidência.

"Qualquer pessoa que fale o contrário para vocês", afirmou o presidente, "qualquer um que diga que os EUA estão em declínio ou que a nossa influência desapareceu, não sabe o que está dizendo". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

MARK LANDLER, THE NEW YORK TIMES, É REPÓRTER E COBRE A CASA BRANCA

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