AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
Imagem Moisés Naím
Colunista
Moisés Naím
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O americano branco

Decisivo para triunfo de Trump, grupo sofre com ‘mortes por desesperança’

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2017 | 05h00

Nos EUA, os homens brancos de meia-idade e com menos escolaridade estão morrendo em ritmo inusitado. Sua taxa de mortalidade é maior que a dos hispânicos ou dos negros da mesma faixa etária e do mesmo nível de educação. A mortalidade dos brancos menos educados também é mais alta hoje que no começo do século. Trata-se de um fenômeno exclusivamente americano, que não ocorre em outros países desenvolvidos.

Essa é uma das conclusões de um importante estudo que acaba de ser apresentado em Washington pelo Prêmio Nobel de Economia Angus Deaton e por Anne Case, destacada economista da Universidade Princeton e mulher de Deaton.

Já em 2015, os dois haviam causado agitação com um estudo que documentava a trágica situação da mortalidade de homens brancos dos EUA só com curso secundário. O casal revelou, por exemplo, que, enquanto em 1999 a taxa de mortalidade dos brancos sem formação superior era 30% mais baixa que a dos negros da mesma idade e mesmo nível educacional, a mortalidade dos brancos foi aumentando rapidamente e, em 2015, já era 30% mais alta que a dos afro-americanos.

Essas mudanças nos EUA revertem décadas de progresso nas quais as taxas de mortalidade caíram sistematicamente em todos os países e em todas as categorias demográficas. Durante o século passado e ainda hoje, a mortalidade em nível mundial vem declinando 2% ao ano. Os americanos brancos e sem formação acadêmica surgem como exceção. Em vez de aumentar, seus anos de vida diminuíram.

Neste grupo, suicídios e mortes por overdose de drogas e alcoolismo aumentaram dramaticamente. Os casos de câncer e de doenças cardíacas também cresceram, assim como a obesidade. Desde 2000, as mortes por essas causas entre os homens brancos americanos não hispânicos entre 50 e 54 anos de idade duplicaram. Em 2015, morriam a uma taxa duas vezes maior que a de mulheres brancas com as mesmas características – e quatro vezes maior que a dos homens brancos que foram para a universidade.

Uma explicação comum para a tragédia é o desemprego e a diminuição de renda que afetou duramente essa faixa de trabalhadores. A globalização e a automação da produção, que fizeram desaparecer empregos antes ocupados por tais pessoas, também são explicações. Deaton e Case não duvidam de que o desemprego e a consequente diminuição de renda sejam fatores importantes. Mas, segundo eles, não explicam suficientemente o fenômeno. Os dois sustentam que a maior mortalidade de brancos nos EUA tem “causas mais profundas”.

E tem de ter, pois senão como explicar que os trabalhadores hispânicos e negros, que também sofreram o desemprego e a diminuição de renda, estejam vivendo mais? E por que entre os trabalhadores europeus, vítimas da grande recessão de 2008 e das políticas de austeridade, não se veem as tendências letais que afetam os trabalhadores americanos de raça branca? Em contraste com os EUA, na Europa a longevidade dos que têm menos anos de estudo (e menor renda) continua subindo – e mais depressa que a dos europeus com maior nível educacional.

Segundo os dois economistas, as causas mais profundas do fenômeno têm a ver com o que eles chamam de “desvantagens cumulativas” – condições debilitantes e hábitos disfuncionais que esse grupo humano foi acumulando como reação a profundas mudanças econômicas e sociais. 

As mudanças começaram frequentemente com o abandono do estudo secundário e a entrada mais cedo no mercado de trabalho em épocas nas quais o emprego era abundante e os salários, atraentes. Essa “bonança trabalhista”, porém, foi se extinguindo e outras mudanças na sociedade – o papel das mulheres, o aumento do número de divórcios, a fragmentação familiar, a mobilidade geográfica – tornaram a vida mais difícil para os homens brancos. E os deixaram mais vulneráveis ao que Deaton e Case chamam de “mortes por desesperança”.

Essa desesperança causa grande sofrimento. Nos EUA, metade dos homens desempregados toma analgésicos e dois terços consomem opiáceos. O abuso dessas drogas se tornou uma epidemia gravíssima. Em 2015, mais americanos morreram por overdose de drogas que por armas de fogo e acidentes de trânsito. A imensa maioria das vítimas? Homens brancos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Tudo o que sabemos sobre:
EUAWashingtonEuropa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.