O amigo imaginário dos britânicos

Para que soam os clarins?, pergunta o soldado num inesquecível poema de Rudyard Kipling. No Iraque, os clarins soaram outro dia para marcar a retirada do Exército britânico de Basra, em meio a recriminações mútuas.O general Jack Keane, subcomandante do Exército dos EUA, disse que os britânicos se atrapalharam, enquanto o general Mike Jackson afirmou que o "plano inteiro" de Donald Rumsfeld foi "intelectualmente um fracasso".E, na semana passada, o senador John Kerry perguntou sarcasticamente ao general David Petraeus se os britânicos tinham feito a coisa certa, e, se esse fosse o caso, se os EUA não deveriam fazer o mesmo.Embora o próprio general Petraeus, como era previsível e apropriado, tenha afirmado em Londres esta semana ter orgulho dos seus aliados britânicos, o presidente George W. Bush diz que não tem nenhuma intenção de retirar-se do Iraque em curto prazo. E não há dúvida que a Casa Branca está descontente com o novo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, não apenas pela retirada de Basra, mas também porque ele rejeitou a política adotada por seu predecessor, de manter um estreito relacionamento com a administração Bush. O toque dos clarins seria também para marcar o fim da aliança anglo-americana no Iraque, ou até do suposto "relacionamento especial" entre os dois países?Esse relacionamento sempre foi uma idéia curiosa. Assim como o conceito ainda mais dúbio, popularizado por Churchill, de uma comunidade de "povos de língua inglesa", ele se apóia na fantasia e na história remanejada. Os americanos não usam com freqüência a frase, mas tivemos uma exceção quase cômica, quando o senador John McCain visitou a Inglaterra no ano passado. "O relacionamento especial entre nossos países perdurará por todo o século 21", afirmou. "Digo isso com total confiança porque ele subsistiu por 200 anos".Ele o que? Os "200 anos" a que o senador se referiu nos levam de volta a 1812. O que houve de especial no relacionamento naquele ano foi o fato de os dois países estarem em guerra. Alguns de nós, britânicos, sentem um modesto orgulho ao lembrar o dia em que nossos bravos jovens incendiaram a Casa Branca.No século seguinte, os dois países mais divergiram do que concordaram. Uma grande parte do Exército britânico foi mobilizada para o Canadá para proteger o país do vizinho, e com boas razões. Antes da Guerra Civil americana, sir Robert Peel alertou o Parlamento para o sério risco de uma guerra nos EUA; durante a guerra, o secretário de Estado, William Seward, quis declarar guerra à Inglaterra e, aparentemente, foi refreado pelo próprio Lincoln ("Uma guerra de cada vez, Mr. Seward"); e, depois dela, ocorreu uma ferrenha disputa sobre um navio de guerra construído na Inglaterra.Em 1895, os dois países quase foram à guerra por causa de uma banal disputa de fronteiras na América do Sul (entre a Venezuela e a atual Guiana) e isso aconteceu numa época em que, nos EUA, uma guerra com a Inglaterra seria a mais popular das guerras.Nas duas guerras mundiais, os dois países lutaram juntos. Mas só Tony Blair, depois de dirigir-se, em 2001, a uma Nova York enlutada - afimando: "A geração do meu pai foi bombardeada; eles sabem o que é sofrer profundamente por causa desses ataques e tragédias tão graves" -, seria capaz de acrescentar: "Um país e um povo nos apoiaram na ocasião. Os EUA e o povo americano." Blair referiu-se ao bombardeio de 1940-1941, quando os EUA se mantiveram explicitamente neutros. Talvez essa curiosa versão da história ajude a explicar a decisão de Blair de engajar tropas britânicas na invasão do Iraque. Desde 1949, os dois países são aliados na Otan, um pacto de defesa para "restaurar e manter a segurança da área do Atlântico Norte", que não abrangia o Oriente Médio. Mas então Blair achou que era seu dever apoiar Washington porque "se os americanos sozinhos derrotassem Saddam Hussein, sem o apoio internacional, isso seria mais prejudicial para a segurança mundial em longo prazo".O que equivale a dizer, "certo ou errado, vamos apoiá-lo". Mesmo durante os anos da Otan, os dois países estiveram longe de posicionarem-se lado a lado nas empreitadas de cada um fora da área do Atlântico Norte. Em 1956, na disputa envolvendo o Canal de Suez, Eisenhower, estarrecido ao saber que os britânicos conspiravam com a França e Israel para atacar o Egito, retirou bruscamente o apoio aos conspiradores. Dez anos depois, o Exército britânico não se engajou no Vietnã como Lyndon Johnson esperava.Mesmo na década de 80, Margaret Thatcher, apesar da sua nítida afinidade com Ronald Reagan, não era uma aliada tão convicta como Blair se revelou posteriormente. Thatcher ficou consternada com a indiferença de Washington quando a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas e depois enraivecida com a invasão americana de Granada.E na época ela disse algo que seria útil se tivesse sido repetido mais tarde. As democracias ocidentais usam a força "para preservar o seu modo de vida - não a usamos para atacar países dos outros". Se uma nova lei for criada, para que os EUA intervenham em qualquer lugar onde exista um regime não apreciado por eles, "então veremos guerras realmente terríveis no mundo", afirmou Thatcher.Suas palavras nunca foram tão proféticas. Se esse falso "relacionamento especial" fosse derrubado para sempre, pelo menos essa seria uma conseqüência positiva desta terrível guerra no Iraque. Somos dois países amigos, com muitos valores compartilhados e alguns interesses comuns. Não é suficiente?

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