O amigo poderoso dos Castros

A repetição dos desacertos, num ciclo absurdo que ocorre de vez em quando, é o que caracteriza o atual sistema cubano. As mesmas ordens retornam, embora já não produzam a convicção de antigamente, e os obstáculos superados ressurgem para fazer-nos cair novamente. É a reiteração infinita do erro, do malfeito, dos conceitos comprovadamente falidos. Ad infinitum. Como se não tivéssemos aprendido com a realidade e como se a história recente não nos advertisse - aos gritos - do erro ao escolher determinado caminho ou implementar determinadas soluções.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

É o caso da persistente mania de nos apoiarmos sempre no braço de um parceiro externo, poderoso e com recursos. Um papel que foi desempenhado pela União Soviética, com sua canalização direta de rublos, recursos e ideologia, do Kremlin para esse trópico longínquo. Agora, o novo mentor está mais próximo. Tem as mãos cheias de petróleo, vestido de vermelho e vem intervindo nos destinos de Cuba há pelo menos dez anos.

Entre os motivos que frearam o avanço do trabalho autônomo, quando surgiu anteriormente, foi a chegada ao poder de Hugo Chávez na Venezuela. Tão logo o tenente-coronel instalou-se no Palácio de Miraflores, com o apoio material que começou a enviar para a ilha Fidel Castro encontrou uma maneira mais centralizada e menos perigosa de aliviar os cofres nacionais. A iniciativa privada começou a florescer no início dos anos 90, com a implementação de uma lei que a autorizava e a regulava. As ruas de Cuba mudaram rapidamente de aparência, com pequenos cafés de todas as cores e ofertas de produtos alimentícios que já não nos lembrávamos mais. Para os que tinham sofrido com a tremenda escassez do quinquênio anterior, a outorga de licenças para determinadas profissões nos deu muita esperança. Foi uma época em que traçávamos o futuro com uma linha ascendente, que começava a partir daquele momento, mas não contamos com o fator externo, com a perene surpresa que nos vem de fora.

Chávez não só tornou-se o mais forte aliado político na região. Apoiados por seus petrodólares, os dirigentes cubanos acentuaram ainda mais o rigor ideológico. Nós os vimos renascer das cinzas, literalmente, voltar à carga com editais em massa e dispendiosos atos de reafirmação revolucionária. Não foi em vão que a chamada "batalha de ideias" conseguiu uma infraestrutura material com a revenda do petróleo venezuelano que ainda nos chega - cerca de 100.000 barris diários.

Foi como uma injeção de adrenalina no coração de um paciente que havia sofrido uma parada cardíaca de insustentabilidade. Essa "colaboração entre irmãos" não foi, é bom esclarecer, uma lua de mel constante. Houve também separações e compromissos descumpridos. Muitos analistas concordam que a nova abertura para o trabalho autônomo em Cuba foi possível graças em parte à convicção de Raúl Castro de que Hugo Chávez não permanecerá muito tempo no poder. Mas enquanto estiver sentado na cadeira presidencial, ele arcará - como um peso quase morto - com uma nação de 11 milhões de habitantes e uma única ideologia permitida.

Nesses últimos dias foram firmados em Havana inúmeros acordos bilaterais entre os dois países. Diante da TV, vimos as camisas vermelhas misturadas com outras verde oliva e sentimos um pequeno calafrio. O temor de que esta nova injeção de recursos possa expandir a esfera estatal em detrimento da privada. É difícil não ter essa apreensão quando a recém-concluída XI Comissão Intergovernamental Cuba Venezuela, se encerra com acordos no valor de US$ 1,3 bilhão de intercâmbio para 2011.

A preocupação não surge só do lado de cá. Um número incontável de vozes na terra de Bolívar se pronunciou a respeito da atual relação comercial entre os dois países e os seus desequilíbrios. Embora o governo de Havana explique o acordo como um intercâmbio justo entre dois povos irmãos, fica difícil ocultar a nossa inferioridade nessa relação. A imprensa oficial justifica a chegada desses recursos consideráveis dizendo que Cuba retribui a ajuda com serviços médicos e assessoria em outras áreas. No entanto, todos sabem que o pessoal da saúde recebe salários baixíssimos.

O risco de despertar um dia e comprovar que Chávez não está mais ali, como ocorreu um dia com o Muro de Berlim, paira como uma sombra sobre esta nova dependência. Mas o temor imediato vem de algo que já experimentamos, um déjà vu que tem nos deixado apreensivos: enquanto o sócio poderoso e externo nos sustentar, quanto nossas frágeis pernas de nação se desenvolverão e por quanto tempo mais nossa necessária independência demorará. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

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