O amor e o desamor na vida política da França

Os franceses não se importam muito com fofocas envolvendo políticos, mas, muitas vezes, é preciso ter uma vida amorosa complicada para ser presidente do país

É COLUNISTA DO NYT, MAUREEN, DOWD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2012 | 03h05

Na eleição anterior, Nicolas Sarkozy perdeu a mulher. Nesta, perdeu a França. Seus amigos se preocupam em como o pequeno azougue impetuoso se ajustará a sua Elba política. "O desamor dos franceses será pior do que seu divórcio de Cécilia", disse um amigo de Sarkozy à revista Le Parisien. "Não me surpreenderia se ele entrasse numa pequena depressão."

Essa nação de formalidades elegantes franziu a testa para um líder que não controlava seus impulsos, capaz de atrasar-se para um encontro com o papa e depois consultar o seu celular, que depreciou um cidadão que não quis apertar a sua mão numa feira agrícola com uma versão profana de "Cai fora, pobre idiota". Numa celebração jubilosa na Praça da Bastilha, domingo à noite, os foliões erguiam copos de plástico com champanhe e cartazes dizendo a Sarkô: "Cai fora, pobre idiota".

O pretendente rejeitado está se retirando da política para uma casa num bairro chique francês com a mulher, Carla Bruni-Sarkozy, a rica e esbelta cantora e ex-top model, e sua filhinha Giulia.

Os franceses não dão a menor bola para a vida pessol de candidatos, mas até eles estão encantados com a ciranda do primeiro homem já divorciado a se divorciar enquanto presidente e o primeiro pai não casado de quatro filhos a se eleger presidente.

Quando Sarkozy enfrentou a radiante Ségolène Royal, em 2007, ambos os seus parceiros - Cécilia Sarkozy e François Hollande - estavam apaixonados por outras pessoas, apesar de os candidatos guardarem segredo sobre isso.

Desta vez, os franceses fizeram um muxoxo gaulês quando Sarkô concorreu contra o ex-parceiro de sua ex-adversária e pai de seus quatro filhos.

Thomas Hollande, seu filho de 27 anos, trabalhou para sua mãezinha, em 2007, e para seu paizinho, desta vez. A nova namorada de Hollande é Valérie Trierweiler, uma bela repórter da revista semanal Paris Match que cobriu Ségolène e Hollande quando eles eram o casal poderoso socialista e depois trocou seu marido por Hollande enquanto ele largava Ségolène.

Há muito que as relações entre Hollande e sua ex-mulher - e entre a ressentida Ségolène e a possessiva Trierweiler - têm sido gélidas. No entanto, o trio apareceu no palco da Bastilha na noite da eleição - com as duas mulheres bem separadas - e Hollande beijou Ségolène nas duas faces. Como notou Steven Erlanger, chefe da sucursal do New York Times em Paris, no canal de TV France 24, às vezes, parece que "uma vida amorosa complicada é um requisito para ser um presidente francês".

A satiríase brutal de Dominique Strauss-Kahn, porém, empurrou mesmo os franceses além dos limites. Um livro e um filme criaram alvoroço historiando o espantoso dia da eleição, em 2007, quando a mansa e adorável Cécilia, que havia sido uma assessora política de Sarkozy, tentou fugir de seu casamento para encontrar seu amante em Nova York, o produtor de eventos globais francês Richard Attias. A escapada acabou durando cinco meses.

O impetuoso Sarkozy teve um encontro rápido com Carla na Euro Disney, realizou uma sondagem de opinião para ver se os franceses aceitariam a ex-namorada de Mick Jagger e Eric Clapton como primeira-dama, e chegou antes de Cécilia ao altar.

Numa entrevista à TV, em fevereiro, Sarkozy contou que sua angústia pela perda de Cécilia provocou alguns tropeços iniciais que o assombraram. No momento culminante de sua vida política, ele admitiu que parte de sua cabeça estava voltada para o fato de sua família estar se desfazendo.

Na noite de sua eleição, ele foi a um jantar privado com amigos ricos no faustoso restaurante Fouquet's, na Avenida dos Campos Elísios. Na manhã seguinte, ele e a família foram de jato para embarcar no iate de um bilionário em Malta onde se refestelaram com lagostas.

Nascia o presidente "bling-bling", desfilando com os ricos com seu Ray Ban e seu Rolex. Na semana passada, quando perguntei repetidamente a eleitores por que eles eram tão duros com Sarkozy, eles respondiam curto e grosso com uma palavra: "Fouquet's."

Agora, as revistas francesas de fofocas estão consumidas pelo rosto de Carla, o futuro de Carla, a sucessora de Carla. A mulher de Hollande, de 47 anos, que já foi casada duas vezes foi batizada de "Valérie Rotweiller", por um aliado de Sarkozy, por ser agressiva e enviar tuítes contundentes em defesa de seu amado e de si mesma.

Embora Valérie ainda esteja hesitante sobre seu novo papel, socialistas influentes me disseram que ela merece crédito por ter imbuído Hollande da confiança para contrariar as expectativas no momento em que seus pares o haviam abandonado.

Embalado pelo olhar do "amor de minha vida", como ele a chama, Hollande emagreceu, passou a usar óculos menos esquisitões e se preparou para o grande debate. Quando Ségolène o venceu para sair como a candidata socialista, Hollande ficou conhecido como "M. Royal".

No entanto, Válérie o ampara, dando-lhe pastilhas para a garganta e cuidando que ele se agasalhe devidamente. Como a criada plebeia Cinderela, celebrada na cidade medieval de Tulle, no domingo à noite, ele cortejou Valérie no palco, deu-lhe um buquê de rosas vermelhas e rodopiou com ela ao som da canção que ela havia pedido: uma versão em acordeom de La Vie en Rose. A multidão em delírio gritava "Un bisou!" (um beijo!) Primeiro o "desámour", depois o "amour". C'est la vie. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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