O ano da desinformação

O ano da desinformação

Grandes vitoriosos de 2016 são, sem dúvida, o populismo e a desinformação

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2016 | 05h00

Os grandes vitoriosos de 2016 são, sem dúvida, o populismo e a desinformação. Esses dois eventos combinados foram responsáveis pela queda da popularidade de Angela Merkel na Alemanha, a ascensão da direita em países como Hungria, Polônia e França, a vitória do Brexit no Reino Unido, a surpreendente campanha e a eleição de Donald Trump nos EUA. 

A imigração foi questão central no referendo e em eleições nesses países, com a chamada crise dos refugiados, provocada principalmente pela guerra na Síria, largamente explorada pelos partidos vitoriosos – ainda que não houvesse crise de refugiados ou, melhor, não na Europa e menos ainda nos EUA.

O que a Europa viveu no rastro dos refugiados que bateram em suas portas foi uma crise política. Mais de 1,2 milhão de pessoas pediram asilo nos países da EU desde o início da “crise”. Elas representam pouco mais de 0,2% da população de 500 milhões, número que o mais rico bloco econômico do mundo teria capacidade de absorver sem grande impacto. No Líbano, que tem economia marginal se comparada à Europa e precisa manter um difícil equilíbrio étnico e religioso dado seu passado de conflitos, os refugiados sírios são 25% da população. Ainda que Alemanha tivesse recebido todos os refugiados que chegaram ao continente, eles representariam menos de 1,4% da população de 88 milhões. 

O resultado do Brexit foi uma vitória da desinformação e dos populistas que redescobriram essa velha fonte de manipulação. Um mês antes, a maioria acreditava que imigrantes dos outros países do bloco eram pelo menos 20% da população do país (a porcentagem real é 5%), segundo pesquisa do instituto Ipsos Mori. A ameaça à cultura, aos empregos e à segurança pelo fluxo de refugiados não tem fundamento na realidade, portanto, mas em uma sensação fabricada e explorada pelos populistas. 

Horas depois do atentado em Berlim, quando os investigadores ainda buscavam sinais sobre a identidade do motorista que avançou sobre o mercado de Natal, a direita alemã tentava capitalizar apoio na esteira da tragédia, pedindo leis mais duras anti-imigração.

No fim da 1.ª Guerra, a propaganda nazista convenceu muitos de que o Exército alemão havia sido “esfaqueado pelas costas”, uma traição dos social-democratas. Adolf Hitler se tornaria o principal defensor da tese e do expansionismo militar para que a Alemanha pudesse redimir sua derrota, vingar-se dos traidores e tornar-se um poder proeminente. Não é preciso descrever aqui as consequências disso.

A polícia federal alemã alertou para o crescimento da violência contra refugiados sírios no país, motivada pela propaganda neonazista que estaria aproveitando o “clima de medo” para propagar o ódio contra minorias, políticos pró-imigração e jornalistas. Mas não só os neonazistas exploraram o medo. Nos EUA, Trump venceu com o mesmo discurso dos populistas de direita europeus, beneficiados pela desinformação. Mas com um agravante: o uso de notícias falsas, fabricadas propositadamente para manter o eleitor mal informado e confuso, como estratégia de campanha. Um exemplo: até o fim da corrida à presidência, 65% dos eleitores de Trump acreditavam que o presidente Barack Obama é muçulmano. 

A natureza da internet, esse espaço virtual onde informações falsas são lançadas com o mesmo peso da verdade, e a lógica dos algoritmos das redes sociais, desenhada de forma a criar uma bolha em que passamos a nos comunicar apenas com os que acreditam nas mesmas coisas que nós, muitas vezes criando uma versão própria dos fatos, alavancaram o alcance e os efeitos destrutivos da desinformação. 

Se há uma boa notícia no caos que foi este ano, é a retomada do debate público sobre sistemas políticos, políticas públicas, qualidade da educação, liberdade de expressão versus manipulação da informação. Que esse debate renda frutos é a esperança para 2017.

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