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O ano dos charlatães

A charlatanice está no apogeu em razão de problemas ampliados pelas redes sociais

Moisés Naim, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 05h00

Em 2018, foram completados 60 anos da transmissão de um episódio da série de western chamada Backtrack, na CBS, dos EUA. “O fim do mundo”, foi o título do episódio que narra a história de um charlatão que chega a um típico povoado do oeste longínquo e convoca a população para ouvir a urgente notícia que ele traz.

Está para ocorrer uma “explosão cósmica” que acabará com o mundo, diz aos moradores. Mas ele poderá salvá-los. Ele, e somente ele. Para sobreviver, as pessoas devem construir um muro em volta de suas casas e comprar guarda-chuvas especiais que desviam as bolas de fogo que choverão do céu. O nome do charlatão protagonista desse episódio? Trump. Walter Trump.

No programa – que pode ser visto no YouTube – Hoby Gilman, um Texas Ranger que representa o senso comum, procura convencer seus vizinhos a não darem ouvidos a Trump. “É um vigarista. Está mentindo para nós”, diz. Do mesmo modo que seu homônimo na vida real, que chama a atenção do mundo meio século depois, o Trump da série costuma usar seus advogados para neutralizar críticos e rivais: Walter Trump ameaça processar Gilman.

Os charlatães sempre existiram. São malandros que, com grande habilidade verbal, conseguem vender aos incautos algum tipo de produto, remédio, elixir, negócio ou ideologia que, sem grande esforço, os livrará de suas penas, aliviará suas dores ou os tornará ricos.

Ultimamente, o mercado da charlatanice, especialmente na política, chegou ao apogeu. Aumentou tanto a demanda como a oferta de soluções simples para problemas complexos. A demanda é impulsionada pelas crises e a oferta é potencializada pelas redes sociais. 

As crises de todo tipo que afligem o mundo de hoje são resultado de forças poderosas: tecnologia, globalização, precariedade econômica e desigualdade, criminalidade, corrupção, maus governos, racismo e xenofobia, entre outras. O resultado é a proliferação de sociedades com grandes grupos que se sentem, como toda razão, humilhadas, frustradas e ameaçadas pelo futuro. E que também constituem um apetitoso mercado para os charlatães que oferecem soluções simples, instantâneas e indolores.

Na série de TV de 1968, um narrador anônimo relata o que ocorreu: “A população estava disposta a acreditar. E, como cordeiros, as pessoas correram para o matadouro. Ali, esperando-os, estava o sumo sacerdote da fraude”. Meio século depois, essa frase soa atual. Há cada vez mais sociedades dispostas a votar em quem lhes faça a promessa mais simples que, além disso, proponha romper com tudo que é anterior e tirar do poder “os de sempre”.

Os charlatães de hoje são, basicamente, similares aos que sempre existiram, só que agora eles dispõem de tecnologias digitais que lhes propiciam oportunidades inimagináveis. São os charlatães digitais.

A intervenção clandestina de um país nas eleições de outra nação é um bom exemplo de práticas antigas que adquiriram novas forças. Agora, os malandros digitais operam por meio dos famosos “bots”. São programas que disseminam pelas redes sociais milhões de mensagens automáticas dirigidas a usuários que foram selecionados por que têm certas características: uma determinada idade, sexo, raça, localização, educação, religião, classe social, preferências políticas, hábitos de consumo. 

Como todos os bons charlatães, os administradores dos bots sabem identificar as pessoas propensas a acreditar neles. Antes, eles usavam sua intuição para identificar suas vítimas. Agora, usam algoritmos. Uma vez identificadas suas presas, os criadores dos bots lhes enviam mensagens que confirmam e reforçam suas crenças, temores, simpatias e repúdios.

Os charlatães digitais sabem como estimular certas condutas daqueles que recebem suas mensagens (votar em um candidato e difamar seu rival, apoiar um determinado grupo e atacar outro, disseminar informações falsas, unir-se a um grupo, protestar, fazer doações).

Estas novas tecnologias digitais têm a propriedade de serem, ao mesmo tempo, massivas e individuais. Quem as utiliza pode, simultaneamente, contatar milhões de pessoas e fazer que cada uma delas sinta que está interagindo de maneira direta, pessoal e quase íntima com uma pessoa com a qual compartilha modos de pensar.

Foi exatamente isso que ocorreu nas eleições americanas que levaram Donald Trump à Casa Branca. O consenso das agências de inteligência dos EUA e de outros países é o de que foi uma operação brilhantemente projetada e executada – a um custo muito baixo – pelo governo russo sob a supervisão direta de Vladimir Putin.

Mas seria um erro supor que os charlatães digitais só influenciaram as eleições americanas. Acredita-se que 27 países foram vítimas da interferência política orquestrada pelo Kremlin. Tanto na crise da Catalunha como no caso do Brexit foram detectadas intensas atividades dos bots e de outros atores digitais controlados ou influenciados pelo governo russo. A finalidade desses esforços é semear o caos e a confusão e agravar os conflitos sociais, debilitando as democracias ocidentais.

De fato, uma das evidências mais reveladoras do impacto dos charlatães atuais foram as buscas de informação que se verificaram depois do referendo do Brexit, no qual, por uma margem de 4% do voto popular, a Grã-Bretanha decidiu se separar da Europa.

Segundo o Google, uma das perguntas mais frequentes das buscas no Reino Unido depois do resultado foi: “O que é o Brexit?” Também se soube que muitas das afirmações e dados usados pelos que promoveram o Brexit eram falsos. Mas, do mesmo modo que os habitantes do povoado na série de TV, neste caso também “o povo estava disposto a acreditar”.

O mesmo ocorre com as mentiras de Trump. Segundo o Washington Post, ele fez 5 mil afirmações falsas nos 601 dias desde que assumiu a presidência, uma média de 8,3 por dia. Recentemente, ele bateu seu recorde e, em um único dia, disse 74 mentiras. Mas o presidente sabe que “o povo está disposto a acreditar nele”.

Tudo isso aponta pra uma lamentável realidade: os seguidores dos charlatães são tanto ou mais culpados pelo fato de uma sociedade apoiar ideias ruins, eleger maus governantes ou acreditar em suas mentiras. Com frequência, os seguidores estão desinformados, são indolentes e estão dispostos a acreditar em qualquer proposta que os seduza, por mais disparatada que seja.

Isso precisa mudar. Nos últimos tempos, tornamos a vida muito fácil para os charlatães e somos muito benevolentes com seus seguidores. É preciso reconstruir a capacidade da sociedade de diferenciar entre a verdade e a mentira, entre os fatos confirmados por evidências incontestáveis e as propostas que nos fazem sentir bem, mas que oferecem soluções que agravam o problema.

Precisamos de mais educação cidadã sobre o uso e abuso da tecnologia digital e aceitar que a democracia requer mais esforço do que ir votar de tempos em tempos. Temos de ficar mais bem informados, manter a mente aberta para ideias que não são cômodas e desenvolvermos o senso crítico que nos alerta quando somos manipulados. É necessário também regulamentar as redes sociais. Sobretudo, é preciso recuperar nossa capacidade de distinguir quem são os líderes decentes e quem são os charlatães que nos mentem impunemente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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