O antídoto para a violência

O único meio de conter o extremismo no Oriente Médio é promover sociedades abertas

DAVID, IGNATIUS, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2015 | 02h06

No momento em que líderes árabes se reúnem para discussões em Camp David esta semana, o governo de Barack Obama está debatendo uma revisão de sua estratégia contra o Estado Islâmico (EI) para refletir uma avaliação americana de que o grupo terrorista representa uma ameaça global.

Diante dos desafios e ameaças no Oriente Médio, autoridades americanas esperam que os encontros resultem numa frente comum contra o extremismo na região, tanto em suas versões radicais xiitas como sunitas. Mas uma autoridade americana envolvida na coalizão contra o EI se preocupa com a limitação dos recursos.

Com a Arábia Saudita e outros Estados do Golfo concentrados nos rebeldes apoiados pelo Irã no Iêmen, a luta contra o EI foi menos visível no último mês. Mas o apoio ao "califado" sunita no Iraque e na Síria continua se ampliando. Os EUA agora contam cerca de meia dúzia de filiais do EI e a bandeira do grupo foi agitada, ao menos furtivamente, em até 70 países - fazendo do grupo um rival da Al-Qaeda em alcance.

Mas como a coalizão liderada pelos EUA conseguirá combater o EI sem glorificar mais sua causa nas mentes dos jovens do grupo? Posso oferecer algumas ideias de conversas recentes que tive com importantes estrategistas.

Combater o EI é um problema de "psicologia, não de teologia", argumenta Arie W. Kruglanski, um psicólogo cuja obra é citada por especialistas em comunicações estratégicas muçulmanas nos Emirados Árabes Unidos (EAU). Eles concordam com o pesquisador francês Olivier Roy de que as mensagens antijihadistas de xeques e imãs não funcionarão. Embora a religião possa "autorizar" o comportamento violento de recrutas do EI, ela não é sua motivação. Eles são movidos por uma forma extrema da impulsividade romântica que ocorre entre adolescentes de todas as partes.

Os jovens jihadistas são motivados mais por "questões vitais" como significado e pertencimento, pela agressão não resolvida de figuras da autoridade, por busca de atenção e por exibicionismo do que por ideologia, argumenta um analista com base nos EAU que vem analisando a radicalização há mais de uma década. Ele adverte que políticas antiterroristas sábias deveriam bloquear os "receptores" que levam à impulsividade, promovendo a tolerância e um sensação de desfecho das crises. Tentar falar com jihadistas desde o alto é desperdício de energia; a essa altura, é provavelmente tarde demais.

O EI "representa uma das marcas mais poderosas do mundo" escreveu o analista. "Ao instigar agravos e emoções com narrativas ligadas a sofrimento e humilhação dos muçulmanos, ele lança jovens heróis contra governos corruptos, opressores e injustos." Pressionar muçulmanos para contestarem o apelo jihadista (uma ideia que esteve em voga recentemente no Ocidente) pode ter o efeito contrário, adverte o estrategista. "Colocar o ônus da luta sobre comunidades muçulmanas pode ser um cálice de veneno." Coloca em questão os muçulmanos normais, não os extremistas.

A arma mais potente contra a narrativa jihadista "viral" na mídia social árabe pode ser uma alternativa que celebre a liberdade, argumenta Nadia Oweidat, uma analista de origem jordaniana na New America Foundation. Ao pesquisar a mídia social árabe, ela nota uma explosão de sites no Facebook e YouTube que expressam este tema de liberdade pessoal. São ideias que surgiram antes, na Primavera Árabe de 2011, do que as imagens jihadistas mais ruidosas, mais sombrias, mais intolerantes de hoje.

Outro sinal de que as ideias liberais estão vivas no Oriente Médio (mas sufocadas pelos jihadistas) vem da última pesquisa entre jovens árabes feita pela empresa de relações públicas Burson-Marsteller. Ela teve como base entrevistas com 3.500 homens e mulheres de 18 a 24 anos em 16 países árabes. Segundo a pesquisa, 73% disseram que estão preocupados com a ascensão do Estado Islâmico; 67% concordaram que "nossos melhores dias estão no futuro". Mas o ceticismo sobre a democracia ocidental também está aumentando. Apenas 15% citaram a "falta de democracia" como o maior obstáculo.

Espero que os líderes pensem no arcabouço para sociedades abertas e tolerantes. Esse é o verdadeiro antídoto contra a violência. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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