'O aprendiz' chega ao Sudão

Foi o último capítulo do programa, com transmissão ao vivo da torre oval do Corinthia Hotel, um edifício de 18 andares construído pelo coronel Muamar Kadafi. No palco, sob as luzes intermitentes coloridas, os cinco concorrentes - três homens e duas mulheres - esperavam ansiosamente o resultado.

Ismail Kushkush*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2014 | 02h05

O programa Mashrouy foi a versão de O Aprendiz no Sudão e, nesse período de grande dificuldade econômica que atravessa o país africano, despertou a imaginação da juventude sudanesa. Para muitos que assistem aos programas árabes que chegam via satélite ou aos monótonos e insossos programas das emissoras de TV locais, essa foi uma mudança bem-vinda.

"Acompanhei o programa desde o início", disse Khalid Mohamed Khalid, estudante universitário de 22 anos. "Foi inspirador."

A economia do Sudão tem sofrido desde a separação do Sudão do Sul, que se tornou independente em 2011, levando consigo 75% das receitas de petróleo do Sudão. A economia encolheu, o valor da libra sudanesa deteriorou, o desemprego vem crescendo e milhares de profissionais partiram em busca de oportunidades para os Estados do Golfo e para a Líbia, países produtores de petróleo.

A taxa de desemprego entre a juventude sudanesa está em 34% e esse foi um dos fatores que desencadearam as violentas manifestações de protesto contra o governo em setembro.

No entanto, alguns veem essa série televisiva como uma alternativa para melhorar o futuro da juventude sudanesa, mudando suas ideias arraigadas sobre trabalho e promovendo a noção do empreendedorismo.

"Ela não oferece um status do ponto de vista cultural. Muitos diriam 'por que não ter um emprego bom no governo ou numa companhia?'", disse Ahmed Amin Abdelatif, que comanda uma empresa familiar e é presidente da Associação de Empresários Jovens Sudaneses.

Combater essa ideia é o que Abdelatif e vários empresários locais desejam. Daí o nascimento no ano passado do Mashrouy.

O título, que em árabe significa "meu projeto", foi promovido por meio de uma enorme campanha publicitária direcionada aos jovens sudaneses, que levou a 2,5 mil inscrições para o programa. Um painel de especialistas analisou as candidaturas e, no final, restaram 12 participantes.

Cada um dos concorrentes ofereceu ideias para um projeto de empreendimento. Um propôs a criação de uma fazenda de avestruzes, outro sugeriu transformar lixo em acessórios e móveis. E um terceiro teve a ideia de produzir manteiga de amendoim aromatizada para exportação.

A série foi transmitida duas vezes por semana a partir de novembro, quando nove homens e três mulheres apresentaram seus projetos para os quatro juízes. Num processo de eliminação agressivo e impiedoso, em que foram avaliadas a viabilidade de cada projeto e a capacidade de apresentação de cada um dos participantes, foram selecionados cinco concorrentes.

Samah al-Gadi, de 32 anos, disse que no início não ficou muito entusiasmada com a ideia de aparecer no programa, mas se inscreveu no último dia por insistência da mãe. Também não estava satisfeita, porém, com a rotina do trabalho num escritório. Assim, formada em agricultura e desenvolvimento social, ela apresentou um projeto que pode ajudar as comunidades que vivem às margens dos rios a resolver um problema terrível e até obter lucro.

O jacinto de água é uma planta que cresce às margens do Nilo Branco, ao sul de Cartum. A planta multiplica-se rapidamente e cobre grandes superfícies de água. Ela obstrui o transporte pelo rio e atrai mosquitos e parasitas que causam esquistossomose, aumenta a evaporação da água e reduz os peixes.

Tentativas para erradicar a planta com uso de substâncias químicas acabaram não funcionando e prejudicaram o meio ambiente. Assim ela apresentou a sua proposta: "Em vez de tentarmos erradicá-la, proponho que a usemos em prol do desenvolvimento social. As comunidades locais podem removê-la manualmente, deixar a planta secar, trançar a fibra e fazer cordas, sacos e móveis".

Projetos similares foram implementados na China, no Vietnã, na Indonésia e em outros lugares. "É um negócio lucrativo e não necessita de muito financiamento."

Mazin Merghani, de 24 anos, universitário recém-formado, também apresentou um projeto agrícola. "Sabemos que somente 10% da goma arábica do Sudão são colhidos a cada ano. Normalmente, a colheita é manual, com o uso de um facão e hoje muitos dos que trabalham nos campos estão idosos."

O Sudão é o maior produtor global de goma arábica, goma natural extraída das acácias e usada como estabilizante em refrigerantes, doces, cosméticos e tintas. É o único produto importado pelos EUA isento das sanções contra o Sudão.

O concurso instigou tanto entusiasmo entre os sudaneses que um empresário expatriado, Yasser al-Naeem, de 52 anos, foi de avião de Dubai para Cartum para participar do episódio final do programa, com sugestões para a segunda temporada. "Por que não ter um para a diáspora sudanesa no exterior?", sugeriu entusiasmado.

*Ismail Kushkush é jornalista e vive no Sudão.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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