O aprofundamento da crise na Europa

É preciso uma mulher para pôr ordem na situação da Grécia e da crise do euro e seu nome é Angela Merkel

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

A agonia da Grécia na zona do euro é apenas um exemplo de motores fraquejando e motoristas ruins da Europa. Como uma jamanta sobrecarregada subindo a duras penas uma ladeira íngreme, o projeto europeu está perto de parar. Se parar, nem mesmo um freio de emergência poderá impedi-lo de descer de ré ladeira abaixo, fora de controle, até que saia da estrada.

Dois dos rapazes estão brigando pelo volante; outros jazem em estado de coma na área de dormir no fundo da cabine. Precisamos de uma mulher para pôr ordem na casa. Seu nome é Angela.

A Grécia e a zona do euro são a parte mais urgente dessa crise. Entre a fúria nas ruas de Atenas e a contínua desunião dos tomadores de decisões em Bruxelas, Berlim, Frankfurt e Luxemburgo (onde o grupo do euro se reúne de novo hoje e amanhã), a jamanta poderá parar a qualquer momento. Mas não se trata somente da Grécia.

Também na Irlanda, Portugal e Espanha a ira ferve porque as pessoas sentem que os jovens, os pobres e os desempregados estão sendo obrigados a pagar pela negligência egoísta de seus políticos - e dos banqueiros franceses e alemães que emprestaram profusamente quando não deveriam absolutamente ter emprestado.

Por todo o continente, as legiões dos "indignados", como eles são chamados na Espanha, e dos "aganaktismenoi" (os ultrajados), como eles dizem na Grécia, estão crescendo. Filhos bem educados de amigos portugueses se desesperam com as oportunidades de emprego em casa, tratando de procurar emprego no Brasil, Moçambique ou Angola.

E não é apenas na zona do euro. Cada projeto grandioso isolado da União Europeia (UE) está fraquejando. França e Itália estão sugerindo que a conquista da área Schengen, onde não há controles de fronteiras, deve ser reduzida - simplesmente porque alguns milhares de pessoas da África do Norte convulsionada se refugiaram na ilha italiana de Lampedusa. Muitos países europeus já estão em pânico com a integração de imigrantes e pessoas de origem migrante, especialmente as muçulmanas. Solidariedade e justiça social - valores centrais do projeto europeu pós-1945 - estão batendo em retirada por toda parte em razão da crescente desigualdade e dos cortes de gastos para equilibrar a dívida pública.

Na primavera árabe, a Europa enfrenta o conjunto mais esperançoso de eventos do século 21 até agora, comparável em escala e potencial a 1989; mas sua resposta coletiva e institucional a essa abertura histórica tem sido incrivelmente frágil. Este era para ser, contudo, o ano em que a UE conseguiria agir como um todo em política externa.

Mesmo nos casos mais esperançosos, Tunísia e Egito, podemos ter somente alguns meses para impedir que a primavera árabe se transforme em outono. As esperanças não realizadas dessa metade da população que tem menos de 30 anos produziria então novas e maiores levas de imigrantes para a Europa. Em seus próprios países, islâmicos fundamentalistas explorariam as chances e a confusão da semiliberdade. Isso não precisa ocorrer, mas facilmente pode, A intervenção militar liderada por europeus na Líbia provavelmente seria um trabalho árduo e lento, mas expôs a incapacidade crônica da Europa de concentrar suas capacidades militares. Algumas potências europeias envolvidas já estão ficando sem munição. Pode-se entender por que o secretário de Defesa americano Robert Gates foi contundente a esse respeito na semana passada.

Mudança. Mesmo a ampliação da UE, o projeto mais bem-sucedido da Europa, está chegando perto do ponto de parada. A atração magnética que era o ingresso na UE continua tendo um efeito positivo importante num país como a Sérvia, mas cada vez menos na Turquia. Em seu discurso da vitória após as recentes eleições turcas, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan nem sequer mencionou a UE. Ele disse: "Acreditem-me, Sarajevo ganhou hoje tanto quanto Istambul, Beirute ganhou tanto quanto Esmirna, Damasco ganhou tanto quanto Ancara, Ramallah, Nablus, Jenin, Cisjordânia, Jerusalém ganhou tanto quanto Diyarbakir". Sarajevo foi reclamada pelo Império Otomano, portanto. Sim, a Croácia provavelmente ingressará na UE em 2013, e isso é uma boa notícia. Mas os croatas podem ser perdoados por se perguntar ao que exatamente estão se juntando.

Premiês e chanceleres aposentados nunca se cansam de atribuir essa vacilação do projeto europeu à falta de "liderança" (subtexto: as coisas eram bem melhores quando nós estávamos no comando). Isso é verdade, mas menos da metade da história. Pois embora a qualidade da liderança europeia seja um pouco mais pobre do que era um quarto de século atrás, a necessidade dela é maior. Por quê? Porque todos os grandes motivadores subjacentes do projeto europeu nos tempos de Helmut Kohl, François Mitterrand e Jacques Delors, e mais ainda nos tempos dos pais fundadores, enfraqueceram ou desapareceram.

Aquelas poderosas forças motrizes incluíam experiências de guerra pessoais abrasadoras, ocupação, Holocausto, ditaduras fascista e comunista; a ameaça soviética, solidariedade europeia ocidental catalisadora; apoio americano generoso e enérgico à unificação europeia; e uma Alemanha Ocidental que era o poderoso motor da integração europeia, com a França no topo como motorista. Os alemães ocidentais queriam se reabilitar como bons europeus, mas também precisavam do apoio de seus vizinhos europeus para alcançar seu objetivo nacional de unificação.

Tudo isso se foi, agora, ou está muito diminuído. Embora hajam novas razões intelectualmente convincentes para o projeto, incluindo a ascensão de gigantes não ocidentais como a China, as razões não são páreo para motivadores emocionais. O coração vence a cabeça, todo dia.

A chave de boa parte disso, especialmente no lado econômico, é a Alemanha. Durante uma boa parte de sua história, o que veio a ser a União Europeia perseguiu fins políticos por meios econômicos. Para Kohl e Mitterrand, o euro era, acima de tudo, um projeto político, não econômico. Agora a bota está no outro pé. Para salvar uma união monetária mal planejada e ampliada demais, precisamos de um compromisso político excepcional. O político precisa agir para resgatar o econômico.

É aí que entra Angela Merkel. Não há nenhuma razão particular para esperar que a Alemanha assuma a frente na criação de uma política externa e de segurança europeia. Para uma resposta à primavera árabe, deveríamos primeiro olhar para os países mediterrâneos, como Espanha, França e Itália. Para a questão da integração de pessoas de antecedentes migrantes, cada país precisa fazer sua lição de casa. Mas se estivermos falando da economia e da moeda europeias, a Alemanha é a potência indispensável. Somente a combinação de Alemanha e Banco Central Europeu (BCE), trabalhando em sintonia, tem uma chance de acalmar os mercados poderosos.

Durante mais de um ano agora, Merkel tentou encontrar a linha estreita - talvez inexistente - onde o mínimo que pode ser feito para salvar a periclitante zona do euro se encontra com o máximo que ela acha que a opinião pública alemã consegue suportar. Ela tentou então ganhar seus parceiros da zona do euro para esse curso. Por enquanto, não funcionou.

Agora ela precisa começar da outra ponta: elaborar, junto com o BCE e outros governos da zona do euro, o melhor e mais crível acordo disponível, e depois usar toda sua autoridade para persuadir um público alemão relutante de que isso será do interesse nacional da Alemanha no longo prazo. O que é verdade. Isso porque ninguém tem mais a perder com a desintegração da zona do euro que a potência econômica central do continente. Logo poderá ser tarde demais. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD, BOLSISTA SÊNIOR NA HOOVER INSTITUTION, UNIVERSIDADE STANFORD, E AUTOR, MAIS RECENTEMENTE, DE "FACTS ARE SUBVERSIVE: POLITICAL WRITING FROM A DECADE WITHOUT A NAME"

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