AFP PHOTO / Mark RALSTON
AFP PHOTO / Mark RALSTON

O aquecimento global está ganhando

Três anos após os países firmarem o Acordo de Paris a emissão de gases que causam o efeito estufa voltou a subir

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2018 | 05h00

A Terra está pegando fogo. De Seattle à Sibéria, as chamas consumiram neste verão pedaços preciosos do Hemisfério Norte. Um dos 18 incêndios que varrem a Califórnia (dos piores na história do Estado) está causando tanto calor que já criou clima próprio.

Incêndios que avançaram por uma área costeira próxima a Atenas, Grécia, mataram 91 pessoas. Por toda parte há gente sufocando. No Japão, 125 morreram em consequência de uma onda de calor que elevou pela primeira vez a temperatura em Tóquio a mais de 40°C. 

Tais calamidades, antes consideradas aberrações, viraram lugar comum. Cientistas há muito alertam que, à medida que o planeta esquenta – está hoje 1°C mais quente que quando as primeiras fornalhas da era industrial foram acesas –, o clima endoidece. Uma análise preliminar indicou que este escaldante verão europeu não teria nem metade das consequências que tem se não fosse o aquecimento global induzido pelo homem. 

Mas com o impacto das mudanças climáticas ficando mais evidente, mais se destaca o desafio que temos pela frente. Três anos após os países se comprometerem em Paris a manter o aquecimento global “bem abaixo” de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, a emissão de gases que causam o efeito estufa voltou a subir. Igualmente, aumentaram os investimentos em petróleo e gás.

Em 2017, pela primeira vez em quatro anos, a demanda por carvão cresceu. Os subsídios à energia renovável, como a eólica e a solar, encolheram em vários países e os investimentos estancaram. A energia nuclear, amiga do clima, é cara e impopular. É tentador acreditar que esses retrocessos são temporários e a humanidade, com seu instinto de autopreservação, vá acabar vencendo o aquecimento global. Na verdade, ela está perdendo a guerra.

Avanços insuficientes não significam nenhum avanço. À proporção que painéis solares, turbinas eólicas e outras tecnologias de baixo carbono se tornam mais baratas e mais eficientes, seu emprego aumenta. No ano passado, o número de carros elétricos vendidos no mundo passou de 1 milhão. Em alguns lugares de muito sol ou muito vento, a energia renovável está mais barata que o carvão. 

A preocupação do público também vem crescendo. Pesquisa feita no ano passado em 38 países constatou que 61% das pessoas consideram as mudanças climáticas uma grande ameaça. Apenas os terroristas do Estado Islâmico inspiram mais medo. No Ocidente, investidores falam em abandonar empresas que usam carvão e petróleo.

Apesar de o presidente Donald Trump ter decidido deixar o Acordo de Paris, várias cidades e Estados americanos reafirmaram seu compromisso com o pacto. Mesmo alguns republicanos céticos parecem estar mais inclinados a abordar o problema. Na China e na Índia, cidadãos sufocados pela poluição do ar estão cobrando dos governos que reconsiderem os planos de contar pesadamente com o carvão para produzir energia elétrica. 

Os otimistas acreditam que a descarbonização esteja ao alcance. Mas as já conhecidas complexidades de se implementar metas globais estão se mostrando extraordinariamente mais difíceis. 

Uma das razões é a explosão da demanda de energia, principalmente em países em desenvolvimento. Entre 2006 e 2016 o consumo de energia pelas economias emergentes da Ásia cresceu 40%. O uso de carvão, de longe o combustível fóssil mais “sujo”, aumentou a um índice anual de 3,1%. O de gás natural, mais limpo, cresceu 5,2% anuais, e o de petróleo, 2,9%.

Combustíveis fósseis são mais fáceis de se conseguir que os renováveis que dependem de sol e vento. Mesmo com fundos de investimento “verdes” ameaçando tirar o petróleo de suas carteiras, as gigantes petrolíferas do Oriente Médio e da Rússia veem na demanda asiática uma forte razão para continuar investindo. 

A segunda razão é a inércia econômica e política. Quanto mais combustíveis fósseis um país consome, mais difícil se desacostumar deles. Lobbies poderosos, e os eleitores que os apoiam, encaixam o carvão no pacote de energia. Mudar os modos de se fazer certas coisas pode levar anos. Somente em 2017 a Grã-Bretanha chegou a seu primeiro dia livre de carvão desde o início da Revolução Industrial, nos anos 1800.

O carvão não apenas produz 80% da energia elétrica da Índia como sustenta a economia de alguns dos Estados indianos mais pobres. Panjandrums e Nova Délhi não estão dispostos a apoiar o fim do carvão, sobre o qual repousa seu sistema bancário e do qual as ferrovias dependem.

A última razão é o desafio técnico de remover o carbono de indústrias para as quais ele não significa apenas geração de energia. Aço, cimento, pecuária, transportes e outras formas de atividade econômica respondem por mais da metade das emissões globais de carbono. Tecnicamente, é mais difícil “limpar” esses setores que os geradores de energia.

E mesmo o sucesso na empreitada pode acabar sendo ilusório. Os mais de 1 milhão de carros elétricos da China dependem de eletricidade gerada por usinas das quais dois terços são alimentadas a carvão. Em consequência, esses carros resultam em mais dióxido de carbono que alguns modelos eficientes movidos a petróleo. Assim, tirar o CO da atmosfera numa escala que atenda às metas do Acordo de Paris, não entusiasma muito. 

O mundo está cheio de ideias para cumprir os objetivos de Paris. Cerca de 70 países ou regiões, responsáveis por um quinto de todas as emissões, agora taxam o carbono. Técnicos lutam para produzir aço com zero carbono, ou mesmo cimento de carbono negativo, cuja produção absorve mais CO do que o liberta na atmosfera. Todos esses esforços e mais – incluindo pesquisas em “geoengenharia solar” para refletir a luz do Sol de volta ao espaço – têm de ser redobrados. 

No entanto, nenhuma dessas iniciativas dará resultado se a indiferença climática não for enfrentada. Países ocidentais enriqueceram graças a um desenvolvimento industrial alimentado a carbono. Eles precisam honrar seu compromisso no Acordo de Paris de ajudar países mais pobres a se adaptarem a uma Terra mais aquecida e a diminuírem futuras emissões sem sacrificar o crescimento necessário para sair da pobreza. 

Frear as mudanças climáticas terá um custo financeiro no curto prazo – embora a saída do carbono possa eventualmente enriquecer a economia, como a mudança para carros, caminhões e usinas elétricas alimentados por combustíveis fósseis fizeram no século 20. Os políticos têm um papel essencial em promover as mudanças e garantir que os mais vulneráveis não arquem com o peso maior delas. Talvez o aquecimento global os ajude a estimular a vontade coletiva. Mas, infelizmente, o mundo parece destinado a ficar muito mais quente antes disso. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.