Joseph Barrak/AFP
Joseph Barrak/AFP

O assassinato de Rafiq Hariri, o dia em que o Líbano tremeu

Atentado contra o ex-primeiro-ministro é para muitos libaneses o equivalente ao assassinato de John F. Kennedy para os americanos: todos lembram o que estavam fazendo naquele fatídico dia 14 de fevereiro de 2005

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2020 | 03h30

BEIRUTE - O grande atentado contra o ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri é para muitos libaneses o equivalente ao assassinato de John F. Kennedy para os americanos: todos lembram o que estavam fazendo naquele fatídico dia 14 de fevereiro de 2005. 

O bilionário sunita, que encarnava a era da reconstrução após a Guerra Civil (1975-1990), morreu na explosão de um carro-bomba na passagem de seu comboio blindado.

A explosão provocou uma bola de fogo em Beirute. As chamas alcançaram vários metros de altura e as janelas de prédios nos arredores quebraram em um raio de meio quilômetro.

O homem-bomba ao volante da caminhonete branca carregada com duas toneladas de explosivos estacionou estrategicamente para esperar o comboio, que havia acabado de sair do Parlamento e seguia para a residência de Hariri.

Às 12h55, o detonador foi ativado, um segundo após a passagem do terceiro veículo, um Mercedes S600 dirigido pelo próprio Rafiq Hariri.

Muitas pessoas pensaram em um terremoto. Beirute inteira ouviu ou sentiu a explosão, que deixou uma cratera de 10 metros de diâmetro e 2 metros de profundidade.

As notícias não demoraram a chegar. O ex-primeiro ministro, que se juntou à oposição em 2004, estava entre os 22 mortos.

Os guarda-costas também morreram. O estrago foi de tal magnitude que levou 17 dias para que o corpo de uma das vítimas fosse encontrado e 226 pessoas ficaram feridas.

Crime hediondo

A indignação foi global. O presidente francês na época, Jacques Chirac, amigo íntimo de Hariri, e sua mulher, Bernadette, viajaram a Beirute para oferecer suas condolências à família. Chirac denunciou um "crime hediondo".

Apesar de não estar no cargo, o homem de 60 anos, de bigode e cabelos grisalhos, desempenhava um papel político inevitável no país. Contava com o apoio da Arábia Saudita e a expectativa era que recuperasse o posto de primeiro-ministro.

O ataque não foi uma surpresa. Em fevereiro do mesmo ano, Chirac e o enviado da ONU, Terje Roed-Larsen, o aconselharam a manter um perfil discreto. 

Em outubro de 2004, o ex-ministro libanês Marwan Hamade, próximo de Hariri, escapou por pouco de um ataque semelhante.

O ex-primeiro-ministro endureceu seu tom contra a ocupação síria do Líbano e liderou a frente política que exigia a saída das tropas de Damasco após três décadas de ocupação.

Tinha o apoio da França e dos Estados Unidos, que votaram em setembro de 2004 a resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, que implicitamente pedia a retirada das forças sírias.

O assassinato de Hariri acelerou o curso da história. Provocou uma onda de raiva sem precedentes no Líbano, desencadeando protestos gigantescos que forçaram Damasco a se retirar alguns meses depois.

Com a saída, o movimento xiita Hezbollah, principal suspeito do assassinato de Hariri, mas que sempre negou estar envolvido, aproveitou a oportunidade para ganhar destaque no cenário político.

Essa milícia apoiada pelo Irã é a única facção que não abandonou o arsenal militar após a guerra civil. 

Quando o patriarca faleceu, seu filho Saad Hariri entrou na política. Ele também foi primeiro-ministro do Líbano várias vezes, mas nunca alcançou a estatura política de seu pai.

No local do ataque, à beira-mar de Beirute, uma estátua de Rafiq foi construída, retratado com as mãos nos bolsos./AFP 

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