O astro que quer o 'trono paquistanês'

Imran Khan, ídolo do críquete e frequentador da alta sociedade britânica, abre guerra contra o primeiro-ministro Nawaz Sharif

MOSHARRAF ZAIDI , FOREIGN POLICY / ISLAMABAD, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 02h03

Desde o dia 14, Islamabad vive num estado de constante incerteza e insegurança. Os opositores do primeiro-ministro Nawaz Sharif vêm liderando um protesto de milhares de manifestantes exigindo a saída dele - que por duas vezes antes foi primeiro-ministro e nas duas vezes foi deposto.

No Paquistão, há duas interrogantes: os militares tentariam destituir Sharif pela terceira vez? E seu rival político, o temperamental Imran Khan, astro aposentado do críquete, será o escolhido do Exército para tomar seu lugar? Dois campos distintos organizaram os protestos de Islamabad contra Sharif. Khan, a aristocrática celebridade frequentadora do jet set britânico e amigo da princesa Diana - morta em 1997 -, comanda um deles. Mohamed Tahir-al-Qadri, um clérigo contrário ao Taleban, que vivia no Canadá, comanda o outro. Os dois líderes não poderiam ser mais diferentes, no entanto, o objetivo explícito de ambos é o mesmo: derrubar Sharif.

No entanto, com Khan no governo o Paquistão correria o risco de se tornar um desastre de proporções épicas - mesmo com a extrema tolerância do país para com a liderança caótica. Pode-se dizer que Khan é o adolescente mais velho do mundo, com uma audiência nacional cativa. Ele zomba das sutilezas políticas e se expressa com uma linguagem ofensiva que contribui para baixar o nível do discurso.

Como Justin Bieber, Khan está sempre preocupado em eletrizar a juventude urbana que acredita genuinamente que ele é uma solução messiânica para o desencanto dos jovens em relação ao seu país. E a compreensão que ele tem dos problemas do Paquistão talvez seja ligeiramente mais sofisticada do que a de Bieber. Khan não tem habilidade política para tratar das mazelas que afligem o Paquistão: o objetivo de seus esforços nestas últimas semanas tem sido fundamentalmente convencer o povo de que é ele, e não Sharif, que deve ser eleito premiê.

Sharif é uma entidade conhecida e fácil de domar. Khan é indomável e imprevisível. Ele se orgulha de chamar seus partidários de junoonis - "malucos". Os militares talvez gostem das dores de cabeça que Khan dá ao primeiro-ministro, mas é improvável que aceitem que sua fortuna institucional possa depender de atores políticos instáveis e tão pouco responsáveis quanto Khan.

Com Sharif, a democracia paquistanesa continuará sem rumo como aconteceu no passado. No Paquistão, os otimistas se decepcionarão, pois esta crise é inquestionavelmente um retrocesso para os democratas. Mas poderia ser pior. Por enquanto, é mais provável que Khan consiga desafiar Sharif fortalecendo ainda mais a influência já bastante grande dos militares sobre as decisões cruciais para o futuro do país.

O cansaço dos paquistaneses com a longa saga não para de crescer, e, na noite de 28 de agosto, o Exército decidiu envolver-se diretamente como fiador das conversações entre os dois campos, da oposição e do governo. O anúncio do papel do Exército como único ator em condições de tomar decisões acertadas não é uma novidade no Paquistão, e, embora já se preveja o esgotamento da crise, os protestos poderão continuar enquanto Sharif permanecer no poder.

Onde começou a confusão? As eleições de 2013 reconduziram Sharif ao poder para um terceiro mandato, enquanto o partido de Khan, o Pakistan Tehreek-e-Insaf (Movimento Paquistanês pela Justiça), despontava como uma importante força política no país. As alegações de Khan de que Sharif fraudara as eleições receberam escassa atenção até que Qadri entrou em cena. Clérigo popular com uma extraordinária rede de atividades filantrópicas e um séquito de discípulos politicamente insignificantes, mas profundamente empenhados, Qadri é conhecido por promover agitações contra os governos democraticamente eleitos. Quando, em junho, ele anunciou a decisão de deixar o Canadá e regressar a Lahore a fim de organizar mais um destes movimentos, Sharif ficou alarmado.

No dia 17 de junho, as coisas tomaram um rumo trágico. Defensores do clérigo entraram em confronto com a polícia no bairro de Model Town de Lahore. Quatorze pessoas morreram no episódio, incluindo um adolescente e pelo menos duas mulheres, e a culpa foi atribuída na maior parte à brutalidade da polícia. A tragédia galvanizou os partidários de Qadri e acabou com toda superioridade moral que Sharif poderia ter.

Depois do episódio, houve uma mudança de humor nacional que estimulou os espíritos da oposição e Khan percebeu que deveria aproveitar a oportunidade. Nas semanas seguintes, Khan e vários milhares de manifestantes se plantaram na frente do Parlamento paquistanês, afirmando que só se afastariam dali se Sharif se demitisse.

Os paquistaneses não poderiam contestar a essência das exigências de Khan, isto é, que o processo eleitoral precisa de importantes reformas e a corrupção estrangula a economia. Entretanto, o que se debate é principalmente por que motivo Khan tem tanta confiança de que conseguirá destronar Sharif - apesar do apoio nacional ao primeiro-ministro e do declínio da simpatia popular pelo próprio Khan.

Superficialmente, a ousadia de Khan poderia surpreender. O apoio popular caiu significativamente após as eleições de maio de 2013, e seu desempenho desde então vem sendo, quando muito, medíocre.

Seus discursos nos protestos têm sido arrogantes, ou mesmo vulgares: ele ameaçou mandar seus inimigos ao Taleban para que o grupo "cuide deles", segundo noticiou The New York Times. Para os analistas, não é este o líder que os soldados gostariam de chamar de chefe - muito menos as fileiras ultraconservadoras do Exército paquistanês. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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