REUTERS/Jonathan Ernst
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O ataque populista aos bancos centrais

Independência das instituições financeiras está ameaçada por presidentes mundo afora, o que pode acabar muito mal

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2019 | 06h00

No mundo democrático vem ocorrendo uma luta pelo poder que poderá ter as consequências mais duradouras e devastadoras desta era de populismo. Líderes eleitos - de Donald Trump, nos EUA, a Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, e Narendra Modi, na Índia - vêm atacando constantemente a independência dos bancos centrais dos seus países. Isto pode acabar muito mal.

Como sublinhou a The Economist, na década de 1970 os políticos utilizavam rotineiramente os bancos centrais para impulsionar a economia de modo a os ajudarem a vencer eleições. Isto gerou uma onda inflacionária que paralisou economias e provocou sofrimentos incalculáveis. A classe média viu suas economias obtidas com dificuldade evaporarem em poucos anos.

Como resultado, nas últimas três décadas os países em todo o mundo concederam aos bancos centrais uma independência muito maior. Os Estados Unidos foram um dos líderes nesse aspecto, com Paul Volcker asseverando a independência do Federal Reserve e reprimindo a “estagflação” que paralisou a economia americana na década de 1970.

Hoje, Trump lidera os esforços na direção oposta, atacando o Fed e exigindo que o banco não só deixe de cortar os juros, mas adote medidas de emergência para estimular a economia. E estamos numa fase de crescimento robusto e desemprego baixo. Para assegurar que o Fed cumpra os seus desejos, ele planeja indicar dois candidatos para a diretoria da instituição cuja única qualificação parece ser uma devoção servil ao presidente. Mas Trump não é o único. No ano passado o presidente turco Recep Tayyip Erdogan promulgou decreto permitindo que ele nomeie diretamente a liderança do banco central. E em março a instituição gastou US$ 2 bilhões como medida para valorizar a lira turca antes das eleições locais.

Na Índia, Narendra Modi pressionou pela saída de dois presidentes do banco central e a nomeação de um dirigente mais fácil de persuadir. E conseguiu. Em fevereiro, o banco cortou os juros, aparentemente para ajuda-lo a vencer as eleições nacionais que estão em curso. Além disto, ele basicamente assaltou os cofres em US$ 4 bilhões para comprar os votos dos agricultores pobres.

Na África do Sul, o Congresso Nacional Africano (ANC), partido no poder, vem adotando medidas para mudar a estrutura do seu banco central, instituição que há muito tempo é privada e aguerridamente autônoma. Nas Filipinas o presidente nomeou um aliado político para presidir seu banco central. Mesmo na Europa, os populistas hoje rotineiramente miram seus bancos centrais. A coalizão de governo na Itália vem atacando a liderança do banco e questionando se ele deve realmente ser o guardião dos US$ 100 bilhões de reservas de ouro.

Para entender o quanto o clima intelectual mudou, veja este caso: Alan Blinder, professor de economia em Princeton que foi vice-presidente do Board of Governors do Federal Reserve, escreveu um ensaio em 1997 afirmando que o Fed era uma instituição tão bem sucedida nas políticas que adotava que o governo deveria adotar o modelo em outras áreas, como a da política fiscal. E defendeu o uso de agências e comissões independentes que protegeriam a adoção de políticas da influência das autoridades eleitas que quisessem manipular a política para obter vantagens no curto prazo.

Agora Trump prega o oposto. Ele gostaria de incutir as paixões da política partidária no Federal Reserve. Acha que o clima do país mudou. A crise financeira e o socorro para os bancos corroeram a credibilidade do Fed. E não só nos Estados Unidos - no mundo todo, as pessoas acreditam que os bancos centrais não socorreram as pessoas e os negócios comuns, ao passo que foram muito solícitos com Wall Street.

Algumas dessas críticas são justificadas, embora não nos EUA, onde as ações adotadas pelo Fed e pelos governos de George W. Bush e Barack Obama funcionaram melhor do que em outros lugares. Foi por isto que a economia americana se recuperou mais rapidamente. Mas mesmo nos casos em que a crítica é merecida, a solução não é destruir toda a estrutura de independência do banco central. 

O ataque aos bancos centrais não terá um efeito imediato. Mas no decorrer do tempo sua credibilidade será corroída e então, um dia, numa próxima crise, tudo o que iremos desejar serão instituições capazes de enfrentar a tormenta. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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