O ato hediondo do Querido Líder

Se Kim Jong-un é capaz de mandar executar membros da própria família, o que mais ele pode fazer?

SUKI, KIM, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2013 | 02h04

No segundo aniversário da morte de Kim Jong-il, somente duas das sete autoridades que caminharam ao lado de seu carro fúnebre, além de seu herdeiro, Kim Jong-un, permanecem. Cinco foram privados de seus títulos, enviados para campos de trabalho ou executados - como foi o caso de Jang Song-thaek.

Jang era visto como a segunda autoridade mais poderosa da Coreia do Norte. A notícia de que ele foi executado por tramar um golpe militar contra seu sobrinho, o novo Querido Líder, Kim Jong-un, é assustadora, já que ele era membro da família Kim.

Há dois anos, quando Kim Jong-il morreu, eu vivia nos subúrbios de Pyongyang havia seis meses. Eu me lembro do frio dos ventos siberianos e da brusquidão com que a notícia da morte nos foi dada. Eu lecionava inglês num complexo fechado, vigiado por soldados armados.

Naquele ano, todas as universidades do país foram fechadas em preparação para a mudança de regime e alunos foram enviados ao campo para construir sua "próspera nação", mas 270 filhos da elite, com 19 e 20 anos, haviam sido enviados a esse campus fortificado na expectativa de uma iminente tempestade política.

Meus alunos, filhos da elite, adoravam o Querido Líder, mas, em certas ocasiões, já haviam começado a mencionar seu "general", referindo-se a Kim Jong-un. Eles juraram servir lealmente ao jovem - sobre o qual não se sabia muita coisa - porque ele seguramente continuaria a construir, como seu avô e seu pai, sua próspera nação.

Mesmo deixando de lado o profundo isolamento da Coreia do Norte, o fato de Kim Jong-un mandar executar um tio representa uma grave humilhação da cultura coreana. A piedade filial está no cerne do confucionismo que perpassa os cerca de 6 mil anos da história do país. O maior desgosto da Guerra da Coreia, que matou um décimo da população, é seu legado de separação de mais de um milhão de famílias.

Nasci e fui criada em Seul, Coreia do Sul. Tanto minha mãe quanto meu pai tiveram parentes desaparecidos durante a guerra, dos quais nunca mais ouvimos falar. Para os coreanos, os laços familiares estão na raiz de tudo e permitir a reunião de famílias vem sendo usado como tática nas negociações entre as duas Coreias.

Quando os sul-coreanos elegeram sua primeira presidente mulher, Park Geun-hye, que assumiu o cargo em fevereiro, foi em parte por ela ser filha de Park Chung-hee, o ditador que governou o país por 18 anos. Os eleitores votaram mais numa família do que num indivíduo.

Ao tomar conhecimento da morte de Jang, falei com meu pai, que assinalou que nem mesmo Kim Il-sung ou Kim Jong-il ousaram ordenar a execução de um membro da própria família. Meu pai expressou desalento com o futuro da Coreia do Norte.

Jang foi casado com a única irmã de Kim Jong-il, Kim Kyong-hui, que parece ter sobrevivido ao expurgo de seu marido, de quem estaria separada. Jang foi mentor de seu sobrinho desde que Kim Jong-il sofreu um derrame, em 2008.

Depois do fato, a mídia estatal norte-coreana publicou uma lista extensa de acusações contra Jang. O expurgo atingiu também seus parentes. Alguns, que tinham cargos diplomáticos em Cuba e na Malásia, foram chamados a Pyongyang para enfrentar as consequências de seu parentesco com Jang.

Agora, a mídia tenta adivinhar quem será a próxima vítima do expurgo de Kim Jong-un. Eu, porém, nos últimos dias, tenho me lembrado dos jovens que ensinei e com os quais convivi, sentindo o desalento a que meu pai se refere. Do tempo que passei com eles, sei que mesmo a elite vive em constante medo.

Na manhã seguinte ao anúncio da morte de Kim Jong-il, precisei deixar Pyongyang. Olhando uma última vez para meus alunos, perguntei-me se eles veriam um mundo melhor. A "nação próspera" à qual haviam jurado solenemente havia se transformado num canto escuro. O abastardamento do espírito coreano sob o atual Querido Líder não tem limites: se ele é capaz de assassinar membros da família, o que mais pode fazer? / TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA

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