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O avanço de Kim

Por um grande paradoxo, sanções só são eficazes contra regimes abertos

Mário Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

Filho e neto de tiranos, tirano ele próprio, ninguém se preocupou muito quando o jovem gordinho e caricato Kim Jong-un (hoje ele tem 33 anos e pesa 130 quilos) assumiu o poder na Coreia do Norte. Entretanto, como o mundo hoje percebe, aquele que parecia apenas um jovem sátrapa pequeno e malcriado materializou os sonhos do avô, Kim Il-sung, fundador da dinastia e da própria Coreia do Norte, já que tem nas mãos a chave para uma catástrofe nuclear que poderia fazer o mundo retroceder à idade das cavernas ou, pura e simplesmente, extinguir toda forma de vida. Mesmo tremendo de medo, é preciso tirar o chapéu para Kim: ele sabe ser macabro! 

Quando, em outubro de 2006, a Coreia do Norte fez sua primeira prova nuclear, ninguém levou aquilo muito a sério. Os cientistas ocidentais reduziram a importância do teste e até o ridicularizaram: bombas atômicas estavam fora do alcance daquela satrapia miserável e faminta. E, em todo caso, se as coisas ficassem mais sérias, China e Rússia, mais realistas que seu cachorrinho de estimação, o fariam tomar juízo. Na época, também teria sido possível deter Kim Jong-il com uma ação militar limitada que pusesse fim a seu sonho de converter seu país numa potência nuclear e servisse de lição preventiva ao “Brilhante Camarada”, como os norte-coreanos chamam o senhor do país.

Hoje essa ação militar já não seria possível, por mais que o presidente Trump ameace a Coreia do Norte com “fúria e fogo jamais vistos no mundo”. Primeiro, pela simples razão de que tal ação já não seria limitada, mas de grande envergadura – o que significa milhares de mortos; segundo, porque a resposta de Kim poderia causar outra matança gigantesca, nos próprios Estados Unidos ou na Coreia do Sul e Japão, e talvez desencadear uma guerra generalizada em que o sinistro barril de pólvora nuclear entraria em erupção. 

Morreriam, assim, milhões de pessoas. Essa perspectiva parecerá absurda e exagerada para muita gente sensata, que vive a anos-luz desse jovem extremista que goza de poderes absolutos em sua infeliz nação e ao qual, provavelmente, a condição de deus vivo à qual foi elevado pela adulação e submissão de seus 25 milhões de vassalos faz viver uma alienação narcisista demencial que o induz a acreditar naquilo que alardeia: que a minúscula Coreia do Norte, agora dona de uma bomba várias vezes mais poderosa que as que se abateram sobre Hiroshima e Nagasaki pode, se quiser, ferir de morte os Estados Unidos. Talvez não consiga fazer esse país desaparecer, mas poderia causar-lhe danos monumentais se for verdade que sua bomba de hidrogênio pode ser acoplada a um desses mísseis que, pelo visto, alcançariam a costa americana. 

Eficácia. A razão e o bom senso levaram os países ocidentais a responder ao desafio nuclear norte-coreano com sanções aprovadas pelas Nações Unidas que vêm sendo ampliadas em proporção aos experimentos nucleares de Pyongyang, sem chegar, porém, por oposição da Rússia e da China, ao extremo desejado pelos Estados Unidos. 

Em todo caso, é bom admitir a verdade: essas sanções, por mais duras que sejam, não servirão absolutamente para nada. Em vez de obrigar o líder stalinista a recuar, elas permitiriam que ele, como fazia Fidel Castro em relação às sanções econômicas dos Estados Unidos a Cuba, responsabilize Washington e outros países ocidentais pela penúria que suas políticas estatizantes e coletivistas trouxeram a seu país.

Por um grande paradoxo, sanções só são eficazes contra regimes abertos, nos quais existe uma opinião pública que, afetada por elas, reage e pressiona o governo a negociar e fazer concessões. Contra uma ditadura vertical encastelada contra toda atividade cívica independente, como é a Coreia do Norte, as sanções – que, em todo caso, jamais chegaram a valer plenamente, pois muitos governos as violam, além dos contrabandistas – não afetam a cúpula nem a nomenclatura totalitária, mas apenas o povo, obrigado a apertar cada vez mais o cinto. 

Os que acreditam que sanções possam amansar Kim Jong-un citam o exemplo do Irã. “Ali não funcionaram?”, perguntam. Sim, é verdade que as sanções provocaram tantos danos econômicos e sociais ao regime dos aiatolás que a hierarquia se viu obrigada a negociar e pôr fim a experiências nucleares em troca do levantamento dos embargos. 

No entanto, ainda que nos dois casos se trate de ditaduras, a iraniana está longe de ser um regime unipessoal, dependente exclusivamente de um tirano. O Irã tem uma estrutura ditatorial religiosa que possibilita alguma ação cívica, dentro, claro, da “legalidade” emanada do próprio sistema. O mesmo regime abriga diferenças à vezes grandes, que permitem manifestações cívicas. 

Saídas. Então, já que as coisas estão assim, o que se pode fazer? Simplesmente olhar para o lado e, pelo menos os crentes, pedir aos deuses que a situação não piore – ou seja, que um erro ou acidente não ponha em marcha o mecanismo de destruição que poderia levar a uma guerra atômica? 

Como chegamos a tal situação? Em muitos sentidos, o mundo vem melhorando nas últimas décadas, dando passos gigantescos nos campos da educação, dos direitos humanos, da saúde, das oportunidades, da liberdade, deixando para trás as piores formas de barbárie que ao longo de tantos séculos causaram sofrimentos atrozes à maior parte da humanidade. Para a maioria dos seres humanos, o mundo é hoje menos cruel e mais suportável. 

Entretanto, nunca a humanidade esteve tão ameaçada de extinção quanto nesta era de prodigiosas descobertas tecnológicas em que a democracia – o regime menos desumano de todos que se conhece – deixou para trás, quase fazendo-os desaparecer, os maiores inimigos que a ameaçavam: o fascismo e o comunismo.

Não tenho respostas para essa pergunta, que faço com um gosto de cinza na boca. E temo que ninguém tenha algo convincente a dizer sobre como chegamos a uma situação na qual um pobre diabo, certamente inculto e de inteligência primária, que nas telas de TV parece uma caricatura de si mesmo, consiga ter nas mãos a decisão sobre a civilização continuar existindo ou ser extinta num festival macabro. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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