Nikolai Petrov/EFE
Nikolai Petrov/EFE

O 'avestruz' da Bielo-Rússia: ditador recomenda vodca para evitar vírus 

Para conter surto, Alexander Lukashenko ainda sugere sauna uma ou duas vezes por semana

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 04h00

A Bielo-Rússia é governada desde 1994 por um ex-burocrata do Partido Comunista da União Soviética. Aos 65 anos, Alexander Lukashenko mostrou-se capaz de acabar com a oposição e vencer cinco eleições seguidas. Mas, diante de um inimigo invisível, como o novo coronavírus, sua melhor estratégia é fingir que nada está acontecendo. 

Considerado como o “último ditador da Europa”, Lukashenko faz parte da “Aliança do Avestruz”, termo cunhado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV, para designar o grupo de quatro países – Turcomenistão, Nicarágua, Bielo-Rússia e Brasil –, que a revista The Economist considerou como os mais negacionistas do mundo, na semana passada.

Lukashenko, agrônomo de formação, chama a pandemia de “coronopsicose”. Ex-diretor de um kolkhoz, uma fazenda coletiva do período soviético, nos anos 80, ele sugeriu à população lavar as mãos com vodca e tomar de 40 a 50 mililitros da bebida para matar o vírus. “Melhor morrer de pé do que viver de joelhos”, disse o autocrata bigodudo no dia 31 de março. “O melhor antiviral é praticar um esporte no gelo, além de sauna, uma ou duas vezes por semana. Os chineses nos disseram que o vírus morre em temperaturas acima de 60ºC.”

No dia 13, o soberano bielo-russo decretou que ninguém morreria de covid-19 sob o seu comando. “Declaro isso publicamente”, disse Lukashenko, no momento em que as autoridades sanitárias do país já contabilizavam 29 mortes. Um diagnóstico clássico de negacionismo. O país tem hoje 6,2 mil casos – mais do que a vizinha Ucrânia, que registrou 5,7 mil e tem quatro vezes mais população que a Bielo-Rússia. 

Enquanto o vírus se espalha, Lukashenko diz que a Bielo-Rússia não pode parar. “Não há razão para pânico. Precisamos trabalhar, principalmente no campo. Os tratores vão curar todo mundo, as plantações vão curar todo mundo”, disse o presidente, sem explicar como. Por isso, os bielo-russos seguem vivendo como se quase nada estivesse acontecendo.

Tomar cerveja em um bar, comer em um restaurante e passear no parque são atividades liberadas. O futebol também não parou. O Campeonato Bielo-Russo é a única divisão de elite da Europa em que a bola continua rolando. Para analistas, há motivos racionais e irracionais para o governo ignorar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) na luta contra a covid-19. 

“Para ordenar uma quarentena, você precisa de reservas financeiras. Se o governo não tem, quem vai pagar os salários das pessoas? As empresas até podem por um momento, mas o período é curto”, explica Lev Lvovskiy, economista da Universidade de Iowa e pesquisador do Centro de Pesquisa e Divulgação Econômica da Bielo-Rússia (Beroc).

De acordo com Lvovskiy, medidas rigorosas de isolamento social trariam desemprego em massa e dificultariam muito a vida da população. Apesar de 47% dos empregos do país serem públicos, fechar cafés, restaurantes, bares e pequenos comércios tiraria o ganha-pão diário de uma parcela importante dos bielo-russos. 

“Muita gente não tem reservas financeiras. Eles não conseguiriam sobreviver sem ajuda do governo”, afirma Lvoskiy. Diante da baixa nos preços do petróleo, que prejudicou a Rússia, principal parceiro comercial, a Bielo-Rússia registrou uma queda nas exportações. Sua dívida externa deu um salto e a moeda, o rublo bielo-russo, sofreu uma desvalorização importante frente ao dólar e ao euro desde que a pandemia começou. 

Rival perigoso

Para Vadim Mojeiko, do Instituto Bielo-Russo de Estudos Estratégicos, a quarentena pode ser fatal para o regime. “Vão questionar por que não acumulamos recursos para um momento como esse e não haverá boas respostas para essa pergunta”, disse. “As declarações de Lukashenko parecem engraçadas, mas principalmente para quem não vive na Bielo-Rússia.”

Segundo Mojeiko, é comum que o líder diga coisas bizarras sobre temas sérios, que viram piada nas redes sociais e rodas de conversas, sem que isso provoque um escândalo nacional. As baboseiras de Lukashenko, diz Mojeiko, sempre serviram de argumento para seu séquito e eram encaradas como brincadeira pelos críticos. Agora, é diferente. “Nesta situação, as pessoas estão morrendo. Não é engraçado. Quantas vítimas precisamos para entender que isso é um problema?” 

A negligência do regime pode custar caro. Nas últimas semanas, surgiram algumas vozes incômodas para criticar Lukashenko, incluindo empresários e celebridades. Uma delas tem um nome pesado: Alexander Hleb, meia com passagens por Barcelona e Arsenal, um ídolo na Bielo-Rússia. “Todo mundo sabe o que está acontecendo na Itália e na Espanha. A coisa está feia”, disse o craque. “Mas os governantes acreditam que não é tão grave e muitos jovens pensam assim. Estou em casa com a minha família, preocupo-me com minha saúde e a deles. Estou evitando ao máximo o contato social.”

Ontem, mais de 3 mil escolas voltaram a funcionar na Bielo-Rússia, depois de duas semanas de recesso – uma rara medida preventiva adotada pelo governo. No entanto, muitos pais preferiram deixar os filhos em casa, um gesto de desconfiança coletiva. “O governo não pensa em nós”, reclamou Olga Naumenko, mãe e moradora da capital Minsk, que deixou as crianças em casa. “Por isso, eu mesma tenho de cuidar dos meus filhos.” / COM REUTERS 

 

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